quarta-feira, 31 de março de 2010

Meu momento




 Esta música foi composta em 1964. É linda e tem tudo a ver com meu momento.

                           Viagem
         (Paulo César Pinheiro e João de Aquino)

Oh! tristeza me desculpe, estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro,
Já raiou o dia vamos viajar.

Vamos indo de carona na garupa leve
Do vento macio que vem caminhando,
Desde muito longe, lá do fim do mar.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida querendo brincar.

Senta nesta nuvem clara, minha poesia,
Anda, se prepara, traz uma cantiga,
Vamos espalhando música no ar.

Olha quantas aves brancas,
minha poesia, dançam nossa valsa pelo céu que o dia
fez todo bordado de raios de sol

Oh! poesia me ajude, vou colher avencas,
Lírios, rosas, dálias pelos campos verdes,
Que você batiza de jardins do céu.

Mas pode ficar tranqüila, minha poesia,
Pois nós voltaremos numa estrela guia,
Num clarão de lua quando serenar.
Ou talvez, até quem sabe, nós só voltaremos
No cavalo baio, no alazão da noite
Cujo nome é raio, raio de luar.

terça-feira, 30 de março de 2010

Pé na estrada!

Aqui estou.  Meu apartamento, "um pedaço de Saigon", caos total. Uma mala sendo desfeita e outra sendo organizada. Roupa de frio, roupa de calor, sapatos velhos, idéias novas. Itália, lá vou eu!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Fast food

Conversa entre amigos num evento social.

Um colega pergunta coisas como: "E aí, está namorando?”
Respostas evasivas, não é mais como antes, quando as coisas eram claras, simples, transparentes. Ou se estava namorando ou não se estava. A própria palavra "namoro" hoje comporta múltiplas interpretações...

Na vez dele ele responde, "Namoro não, só fast food".

Não entendo.Como assim? Como é isto? Que forma de relação é essa que nos aproxima dos hambúrgueres?

Ele explica: "Assim, dá uma saída, uma rapidinha, sem compromisso." Depois esquece.

Eu, que sou de um tempo anterior às lanchonetes em rede, me quedo pasma.
Em que momento da vida chegamos a este grau de superficialidade?
Nas conversas com mulheres de diferentes idades e classes sociais, o sonho é o mesmo: uma parceria, uma relação onde se partilhe corpo e alma, onde as camadas de recheio se empilhem de forma harmoniosa, a digestão sem complicações, sem enjôos...

Em casa, o pensamento não me abandona. Será que é isso mesmo?
Observo meu rosto no espelho.
Vejo-me disforme, percebo ingredientes que não combinam:
milho-ervilha-ovo-frito-bacon-queijo-verdade-vontade-carinho-sinceridade-transparência-respeito-amor.

As lágrimas/mostarda me escorrem pela face. Mulher do século passado, precisa de um maior tempo de maturação para liberar sabores e aromas.A temperatura do forno tem que ser a correta.Só se revela em banho-maria.

Mas ah! Hoje são outros os valores e recheios.Como se adaptar ao atendimento rápido e de baixa qualidade?Como achar normal ser empacotada, entregue, consumida e esquecida em seguida?

Ou alguém perde tempo processando a razão de ser de um X - tudo?Nestes tempos virtuais, quem se detém buscando a beleza interior de um cheeseggdog?

Desafios, desafios.Relembro situações onde de fato me senti assim, "um lanchinho".Respiro fundo, não é isso, não é isso, não é isso.

Limpo os cantos da boca, a maionese escorre junto com um desejo de que as coisas fossem diferentes, que saísse de cena o cozinheiro suado, que empilha na chapa quente ingredientes gordurosos...

E que todas nós pudéssemos encontrar nossos Chefs de cozinha...

A noiva e o sindicalista

  Bahia, junho de 1995


Friozinho de junho, eu e uma colega demos início a mais um Curso de Formação de Alfabetizadores de Adultos.

Como é de praxe nessas ocasiões, as pessoas se apresentam de forma rápida: nome, origem e expectativas em relação ao curso. Dois dos participantes se destacaram. O primeiro, após dizer o nome, declarou-se membro do Sindicato local e discorreu longamente sobre a luta de classes, oprimidos e opressores e a má distribuição de renda no país. Tentamos com delicadeza trazê-lo de volta aos itens da apresentação. Sem sucesso: ele aproveitou a deixa para falar da exploração sofrida pelas classes populares. Na sequência, outros participantes se apresentaram. A última foi uma jovem de traços delicados, que falava baixinho e sempre olhando para o chão. Disse o nome, o que estudava e concluiu sua fala com um inesperado “Eu sou noiva”. Aliás, o fato era facilmente comprovado pela larga aliança que ostentava na mão direita. Os demais participantes se entreolharam talvez tentando entender quais os impactos desse fato na proposta pedagógica do curso.

Para o primeiro almoço da semana buscamos um restaurante próximo ao local do curso. Juntamos diversas mesas, mas como formávamos um grupo de mais de 20 pessoas, não foi possível que todos almoçassem juntos. Assim, alguns tiveram que ocupar outras mesas, entre os quais, a noiva e o sindicalista.



Durante o almoço, observamos que apesar de serem bem diferentes, os dois pareciam estar se divertindo muito. A fisionomia séria do sindicalista de vez em quando se abria em um largo sorriso, acompanhado sempre de risadinhas tímidas da noiva. No trajeto de volta para o curso os dois nos seguiram a uma pequena distância, ainda entretidos em animada conversa. No dia seguinte, almoçamos no mesmo lugar. Para nossa surpresa, antes mesmo de juntarmos as mesas, duas pessoas já trataram de ocupar uma mesa mais reservada: a noiva e o sindicalista. Nesse dia no caixa, provavelmente fazendo a sua parte na busca de uma melhor distribuição de renda, o sindicalista pagou a conta da noiva.


Durante a semana, cada vez mais próximos, a noiva e o sindicalista aproveitavam todos os momentos livres para conversar. Ágil, ele sempre era o primeiro a chegar, deixando displicentemente seus livros pousados na cadeira ao lado. Com a chegada da noiva os livros eram então retirados para que o assento fosse por ela ocupado. Na quinta-feira, penúltimo dia do curso, a turma dividida em grupos organizava oficinas de alfabetização. No turno da tarde, ao darmos início às apresentações, demos por falta de duas pessoas: a noiva e o sindicalista. Minha colega e eu decidimos dar prosseguimento às atividades, deixando para conversar com a enlevada dupla quando do retorno de ambos, o que só veio a acontecer bem mais tarde, ele sorridente, com os olhos brilhantes e ela, como de costume, com o olhar fixo no chão. É importante esclarecer que minha companheira de curso é uma das pessoas mais racionais e equilibradas que conheço. Eu sou mais emoção, impulso. Atuar em dupla com ela era ótimo, pois nos complementávamos.


Sexta-feira, último dia do curso. Minha colega e eu organizávamos as atividades de encerramento do curso, já com saudades da turma e das experiências ali vividas. Hora de começar, percebemos a falta da noiva. Agitado, o sindicalista não tirava os olhos da porta. Nesse instante, ela chegou. Ofegante, pálida, entrou na sala com os olhos arregalados, sem olhar para ninguém. Então, como que em câmara lenta, a noiva deu alguns passos e, lançando um olhar em torno de sala, como se buscasse o apoio de cada um dos colegas, falou com um fio de voz:

- Meu noivo chegou...E, para nossa surpresa, caiu desmaiada ali mesmo, no centro da sala. Eu me apavorei. Gritei para a minha parceira de curso:

- Meu Deus, ela desmaiou!

Ela, calmíssima, simplesmente confirmou diante do corpo estendido no chão:

- De fato, ela está desmaiada.

Foi um Deus nos acuda, todos correram ao mesmo tempo. Uns ligaram para o hospital mais próximo, outros se revezaram para carregar a noiva, outros tentavam em vão reanimá-la. No meio da confusão, só uma pessoa permaneceu imóvel, o olhar perdido no vazio: o sindicalista. Transferida para o hospital, a noiva foi atendida, medicada e diagnosticada como tendo sofrido uma queda de pressão. Retornou do hospital ainda mais frágil, amparada pelo noivo que foi avisado do ocorrido e, solícito, a trouxe de volta para a sala. Fizemos o encerramento no meio da tarde, no mesmo restaurante que nos acolheu durante toda a semana. Em vão tentamos trazer o sindicalista para a mesa coletiva. Novamente sisudo, ele insistiu em ocupar sozinho uma mesa. A mesma mesa na qual ele e a noiva iniciaram esta curiosa história de amor.

domingo, 21 de março de 2010

A educadora e o cachorro

                                                                                                
                        
Nas minhas andanças como educadora corporativa por este país afora vivi algumas situações inusitadas. Essa foi uma delas.
Interior de São Paulo, cidade cortada  por serras, clima de montanha. Na hora de buscar um hotel, deparei-me com uma dificuldade: Só havia na região hotéis fazenda, distantes, ótimos para férias e complicadíssimos para quem tem que estar no local do curso antes das oito. Após negociações com os representantes do convênio, ficou acertado que um carro da prefeitura me levaria todos os dias ao local do curso e me traria de volta, pois não havia transporte do centro para o hotel.
O hotel, um capítulo a parte. Pertencia a uma família de árabes e era ricamente decorado. Precisei negociar o preço, pois a diária ultrapassava o valor que eu recebia de verba hospedagem. Foi necessária a intermediação do gerente do Banco local para que o valor a ser pago estivesse de acordo com as minhas possibilidades. Assim, horas depois me vi instalada num quarto inteiramente decorado com tapetes, onde dormi sentido-me a própria Sherazade.
A manhã do primeiro dia de aula transcorreu normalmente. Após o almoço, no retorno, percebo um movimento diferente no fundo da sala. Um cachorro pequeno, muito pequeno mesmo havia se infiltrado na sala e, deitado no colo de uma das alunas, ouvia atento minha preleção. Apesar de considerar que os ensinamentos não seriam de muita valia para o visitante, concordei em que ele ali permanecesse desde que não criasse tumulto. Comportadíssimo, o cãozinho permaneceu até o final da aula, tendo inclusive sido alimentado com pãezinhos molhados na hora do lanche.
Após as despedidas do dia, recolho meu material, pego minha pasta e bolsa. Ao me dirigir para a saída, eis que uma das serventes da escola se aproxima correndo:
- Professora, a senhora não vai levar o seu cachorro?
- Não, não é meu cachorro, ele apareceu e as meninas pediram que ele ficasse, expliquei a ela. A moça me lançou um olhar preocupado:
- Esta rua é cheia de cachorros enormes, ele é pequeno, deve ter dias de vida... Se ficar aqui os cachorros vão estraçalhar ele... não vai sobrar nada...
Fiquei estática. Aos meus pés, uma minúscula criatura me olhava com olhos suplicantes. Ao meu lado, a servente me trazia a visão de um apocalipse canino. Pedaços do cãozinho nos dentes das feras da rua. Que fazer? Não podia levar o cachorro para um hotel luxuoso como aquele. Claro que não, seria um absurdo. Pois eu levei.
A primeira reação negativa veio do motorista da Prefeitura que me aguardava para o retorno ao hotel. Ao me ver chegar com bolsa no ombro, pasta numa mão e cachorro na outra ele me perguntou:
- A senhora vai levar isto para o hotel? Sabe que é proibido...
Expliquei a ele os riscos que a pequena criatura corria, a possibilidade de nem ver o sol nascer no dia seguinte, enfim. Nem um pouco sensibilizado, ele me levou para o hotel.
Fui entrando devagarzinho e chegando ao balcão, aproximaram-se os donos: os dois irmãos com seus bigodes a La Saddan Hussein e a irmã, alta, forte, mas dona de um olhar bondoso.
Os irmãos já chegaram gritando:
-“Non cachorro, non cachorro, non cachorro!”
A irmã se aproximou de mim, inclinou-se e examinou a criatura apavorada que eu carregava. Balançando a cabeça ela suspirou:
-“Pobrecito, pobrecito, pobrecito.”
Tentei argumentar, falei dos cachorros enormes, os irmãos falaram dos tapetes, eu falei que ele era pequeno, eles falaram que ele sujaria o hotel, falei que seria apenas uma noite, eles disseram que ele faria barulho, enfim, fui ficando sem argumentos. Mas como eu permanecia parada no meio do saguão, a irmã chamou os irmãos para o lado e os três discutiram acaloradamente. Percebi que no meu colo o cachorrinho já se arriscava a olhar o teto, os quadros, o movimento. 
Nesse momento, o irmão mais velho se aproxima. A decisão: Concordaram que eu ficasse só aquela noite com o cachorrinho, mas no dia seguinte eu teria que dar um jeito. Agradeci, feliz da vida com minha boa ação e só então lembrei que eu não entendia nada de cachorros, nunca os tive, prefiro os gatos, que aliás, eu adoro. Bem, subi para o quarto, fechei o novo hóspede no  box do banheiro enquanto eu enrolava todos os tapetes e os encostava no canto da parede. Depois desci, providenciei jornais para forrar o banheiro, improvisei uma barreira para que ele não viesse para o quarto, consegui pão molhado no leite para o jantar da “criança canina”, enfim, um trabalhão.
Após o banho, me preparo para dormir. No quarto, ocupo uma das camas de solteiro e relaxo. De repente, ouço algo estranho. Um choro? Abro os olhos com dificuldade e percebo que os gemidos vinham do banheiro. Levantei e ao abrir a porta, sou recebida com pulinhos e rabinho abanando. Minha nossa, brincar a essa hora? Lembro então que sou uma educadora e explico a aquele ser que era tarde, que ele não podia fazer barulho, que eu precisava dormir e que no dia seguinte encontraríamos um novo dono para ele. Volto para a cama, deito e os gemidos recomeçam. Levanto, retorno ao banheiro e carrego a criaturinha para o quarto. Coloco-o na outra cama. Ele se deita de barriga para cima sobre a bela colcha de matelassê e dorme imediatamente. Exausta, entrego os pontos, afinal eu também precisava dormir. 

No dia seguinte acordo e imediatamente olho para o lado. Meu companheiro de quarto se espreguiça, boceja, totalmente à vontade. Examino a cama, ufa! Limpinha. Quando descemos para o café, encontro o primeiro irmão logo na escada. Ele lembra:
- “Hoje dono, hoje dono”.
Chegando à escola, sou recebida na porta pelas alunas. Explico a situação, mostro que não tenho como levar o cachorro mais um dia para o hotel e peço que elas decidam o futuro do bichinho, já que moravam na cidade e conheciam pessoas que talvez se interessassem por ele.
Mais um dia que transcorre normalmente, o curso flui, a participação aumenta. Final do dia, quando me dirijo para a porta, quem está lá abanando o rabinho? Não, não, não. Nem pensar. Nesse momento ouço passos. Era ela, a servente.
- O porteiro disse que nasceram quatro e só sobrou este. Os outros os cachorros mataram...
Explico a ela que não tenho mais como levar o cachorrinho para o hotel, pergunto se na casa dela não há espaço, enfim. Ela me diz que já tem cachorros demais enquanto vejo o carro da prefeitura se aproximando.Ela não se dá por vencida:
- É. Então este aí tá condenado mesmo... O cachorro preto já tá rondando a escola, olha ele ali.
Olhei na direção indicada e vi um cachorro preto enorme e magro. Ele para no outro lado da rua enquanto alguma coisa pequena se esconde atrás de minhas pernas. O motorista me cumprimenta e abre a porta. O cachorro preto atravessa a rua lentamente e se aproxima, língua de fora, ameaçador. A servente balança a cabeça e suspira. Pego o cachorrinho no colo e entro no carro.
Nem precisa dizer como fui recebida no hotel. Parecia que o mundo ia se acabar. Expliquei para a irmã toda a história, que o cachorrinho era um sobrevivente, que eu precisava de mais tempo para arrumar um dono, perguntei se ela não conhecia ninguém... Ganhei mais um dia, mas sabia que não haveria outro.
No dia seguinte, ao chegar à escola, uma surpresa me aguardava. Estávamos usando uma sala em uma escola de ensino fundamental e a história do cachorrinho abandonado havia se espalhado. No lado de fora da sala, uma mãe me aguardava.
- Professora, por quanto a senhora vende seu cachorro? Minha filha está doida por um cachorrinho e se a senhora vender...
Nem precisa dizer da minha felicidade. Entreguei o cachorrinho para a menina, que imediatamente o carregou, enchendo-o de beijos. Todas as minhas alunas vieram se despedir dele, a servente veio correndo ver a cena e, no final do dia, voltei para o hotel aliviada. Aos três irmãos que aguardavam minha chegada no saguão, contei que o antigo hóspede havia finalmente encontrado uma família.

A namorada


                                                                                                                  Brasília, 12 de junho de 2008


No ano de 2006 em função do trabalho que desenvolvia em Salvador tive o privilégio de conhecer um abrigo de idosos chamado "Abrigo São Gabriel de Idosos de Deus". Havíamos decidido “adotar” uma instituição para receber a nossa ajuda e logo na primeira visita, essa nos conquistou.

Passamos então a divulgar o trabalho ali desenvolvido e uma vez por mês recolhíamos doações com os demais colegas da empresa para repassar ao Abrigo nas nossas visitas mensais, sempre aos sábados. Assim fomos conhecendo melhor as necessidades, o histórico e funcionamento da casa. Os idosos eram carentes, geralmente abandonados pelas famílias, desprovidos de documentação. Alguns eram portadores de doenças crônicas ou com incapacidades físicas. A eles nada mais restava além da dedicação do Irmão Gabriel e dos colaboradores que ajudavam a manter a casa.

Entre os idosos, uma senhora me despertou a atenção desde a minha primeira visita.

Muito bonitinha, mais ou menos setenta anos, cabelos brancos bem curtinhos, sempre penteada e perfumada. Ela sempre se emocionava com a nossa chegada. Segurava meu rosto com as mãos e repetia um refrão que não dava para entender direito, eram sílabas repetidas ao mesmo tempo em que seu corpo balançava de um lado para outro...

As visitas se sucediam e eu me sentia cada vez mais próxima a ela.

Um dia, quando eu e minha colega chegamos ao Abrigo, percebemos que nossa amiga estava com uma agitação fora do normal, gesticulando, chorando muito.

Uma das enfermeiras se aproximou, creio que ela foi medicada e aos poucos se acalmou. Esperamos um pouco, chegamos perto dela, tentando ajudar de alguma forma.

Para nossa surpresa, ela falou com voz clara e pausada, com lágrimas nos olhos:

- Sabe o que eu queria? Eu queria era ser namorada...

De vez em quando penso naquela senhora com carinho e saudade. Afinal, nem sei se ela ainda está entre nós. E sempre no dia 12 de junho lembro daquele momento, em que uma senhora idosa abandonada num abrigo expôs o seu desejo que é na verdade o desejo de todas as mulheres.





sábado, 13 de março de 2010

As malas e eu


Uma pessoa que cria um blog e logo de cara, no título já fala em mala, só pode ser alguém que adora viajar. Pois é, eu adoro. E quando digo que adoro, me refiro a toda e qualquer viagem, seja para uma cidade do interior, seja uma viagem para outro continente. Não importa. Quer me ver feliz? Me dê uma passagem.

Estou sempre às voltas com malas, malas de todos os tamanhos. Pode ser desde uma mochila, para as viagens de final de semana até a minha maior mala, quase um container, que veio comigo na minha mudança de Salvador e que permanece dormindo, atras de um móvel da minha casa.

Além dessas, tenho mais três. Por que? Porque preciso, claro. Tem a mala vermelha, a minha preferida, não só pela cor, mas pela capacidade de elastecer-se quando nas minhas andanças me encanto com mais coisas do que deveria. Tem a mala preta, minha última aquisição, uma pechincha. É uma mala séria, quase sisuda, que não admite excessos, indicada para aquelas viagens a serviço que exigem dedicação total ao trabalho e cujo tempo é curto para bater pernas e fuçar, descobrir, adquirir coisinhas. Ainda na categoria viagem a serviço, tenho também uma mala preta pequena, dessas de aeromoças, pois a meu ver, mochila e trabalho decididamente não combinam.

Na minha próxima viagem, em abril, deverei estrear outra mala. Autorizei minha amiguinha de cabelos em chamas que comprasse em São Paulo outra mala, tamanho médio, híbrida entre mala e mochila, ideal para minhas andanças nos trens europeus...

Uma vez por semana conto com a ajuda de uma moça que arruma a casa e lava minha roupa. Rara é a semana que ela não me encontra arrumando ou desarrumando uma mala . Ela, que é cearense, se diverte : "Ô mulé que viaja!"

Tardes em Brasília


Mudei para Brasília em abril de 2007. Decisão bem pesada, amadurecida. Já conhecia a cidade, tinha também muitos amizades, cultivadas ao longo de quinze anos de viagens a serviço para cá.

Ser soteropolitana não foi um dificultador. Mesmo longe da praia, Brasília tem seus encantos. Entre eles, o silêncio.

Para algumas pessoas, andar pelas quadras e eixos e não ver nenhum pedestre traz uma sensação de melancolia. Pois para mim, não. Gosto de silêncio, de paz, de quietude, de livros. Moro perto do Parque da Cidade e nas minhas caminhadas me delicio com o som dos meus passos.

Aqui as estações são bem marcadas, e as árvores são as vitrines da época da seca, da primavera, do outono. Depois da seca, nas primeiras chuvas o parque veste roupa nova, capricha na produção, é uma festa para os olhos. Durante a seca, os ipês prevalecem soberanos, com suas cores exuberantes, posando para fotos de turistas e locais.
 Nas minhas idas ao parque aproveito para levar minha mochilinha e depois dos exercícios, corro para a pracinha "Eduardo e Mônica". Cercada de banquinhos, a praça homenageia Renato Russo, um filho da terra. Ali coloco minhas leituras em dia. Gosto também de deitar no banco e ficar olhando a copa das árvores, sentindo a brisa no rosto. Depois, por que não? Uma passada na barraca do coco verde para hidratar minha vida candanga.

Eu, que antes não gostava muito dos domingos, aqui passei a curti-los. Tenho um grupo de amigos queridos que encontro praticamente todos os domingos para almoçar, tomar um café, bater um papo. No meu condomínio também fiz novas amizades com pessoas que também não são daqui.  Domingo também é dia de cinema, de refletir, preparar a alma e o coração para a  semana que está chegando.

Morar num lugar onde muita gente veio "de fora" nos dá uma sensação de independência, de liberdade, de protagonismo. E uma coisa é certa: eu gosto de morar aqui. E quando a saudade aperta? Bom, aí é rezar para "Nossa Senhora das Promoções" para conseguir um bom desconto, vaga no vôo e... duas horas depois, estou na Bahia, que segundo Gil, me deu "régua e compasso" para traçar uma vida diferente numa cidade diferente.

Uma vida feliz.


A Mesbla


Brasília, dezembro de 2009

Hoje, após mais um almoço de confraternização, uma colega no carro lembrou da Mesbla.
Quem é mais vivido, lembra.
Ah, a Mesbla!
Foi a loja de departamentos referência da minha infância e eu costumava ir com minha mãe olhar as vitrines no período de Natal. Aos domingos, nariz colado no vidro da loja fechada, escolhia ali meus presentes.
O tempo passou, eu cresci e a Mesbla me acompanhando. Lembro das embalagens vermelhas, com um formato oval nas pontas. No Natal as árvores ficavam cheias de presentes da Mesbla, pois tinha de tudo lá: brinquedos, roupas, e os melancólicos cintos, lenços e meias para presentear pais e tios.
Tinha até uma musiquinha :

Na Mesbla, na Mesbla, o melhor Natal do Brasil,
Compre agora, sem entrada, e só comece a pagar em abril, abril
Abriu as portas do CrediMesbla,
Na Mesbla só se paga em abril!


Fiquei adulta e a Mesbla também. Já não pedia brinquedos, ia sozinha e pagava com meu salário as compras feitas na loja que agora ocupava grandes espaços nos shoppings da cidade. Dessa época lembro da filha de uma amiga que, ainda adolescente, me contou em segredo que quando se sentia triste, corria para a Mesbla para abraçar os enormes ursos de pelúcia que enfeitavam cada ala da seção de brinquedos.

Ainda hoje lembro que um dia, também eu triste, me vejo na loja e não resistí: busquei no urso o abraço que me faltava.

A Mebla, que existe apenas na nossa memória, manteve abertas as suas portas de 1912 a 1999, quando foi decretada sua falência.

A Mulher de roxo


Viví na minha infância cercada de personagens folclóricos. Entre eles, a "Mulher de roxo".

Nunca soube ao certo a história daquela estranha mulher que andava pelas ruas de Salvador, principalmente na Rua Chile, centro comercial a céu aberto que não resistiu à chegada dos Shoppings.

Não importava quantos graus o termômetro marcasse. Ela sempre usava um vestido longo com um inacreditável véu do mesmo tecido: pelúcia. Sim, pelúcia, a mesma usada nos ursos, cachorrinhos e outros bichos. As cores variavam , mas geralmente era ou preto, ou roxo. A boca sempre pintada com um batom vermelho que ultrapassava em muito o limite dos lábios, o que dava a ela uma expressão um tanto quanto trágica.

Bem,ela mendigava sempre entoando o mesmo refrão: "Eu quero um dinheirinho pra comprar o meu almoço", dito numa voz alta e estridente. Detalhe: não aceitava moedas, para ela aquilo não era dinheiro.

Muitas eram as lendas que a cercavam. Lembro da duas mais difundidas. A primeira dizia que a Mulher de Roxo era milionária, que perdeu tudo, enlouqueceu e passou a vagar pelas ruas sem destino. A segunda dizia que tratava-se de uma antiga dona de bordel, e que com o final do negócio, também teria perdido o juízo, etc, etc.

Já na adolescência, lembro que um cineasta baiano daqueles bem alternativos resolveu fazer um documentário sobre esse emblemático personagem. Se chegou a fazê-lo, confesso que não sei.

Nunca corrí dela nas ruas, nunca soube de qualquer ato de violência por ela praticado.Quando, pela mão de minha mãe, eu entrava na Sloper, point da moda em Salvador e local onde a Mulher de Roxo geralmente ficava, nunca sentí medo, pelo contrário. Afinal, desde que me entendo por gente as pessoas me interessam e, no caminho de volta para casa, tentava entender aquela mulher, para mim até hoje um mistério.

Foto retirada de http://blogdogutemberg.blogspot.com

Lançamento do livro "Elas escrevem"


Sempre gostei de escrever, mas só guardava pra mim. Um dia um amigo queridíssimo me incentivou. Achei que era amizade. Tempos depois, mostrei a amigas. Adoraram. Achei que era carinho. Criei coragem e mostrei para uma figura muito crítica. Ele ficou sério: " Escreva!"
Mandei uma crônica para a revista da empresa onde trabalho. Publicaram. Enviei outra crônica para a seleção do livro "Elas escrevem". Será publicada.
Hoje, feliz, acho que é tudo junto: carinho, amizade e...jeito!

Epílogo

Buenos Aires, maio de 2008


Na minha infância sempre era este o titulo do último capitulo dos livros.
Nos livros de aventura, queria dizer que o herói cansado, mas cheio de glórias voltava para casa. Se fosse livro de mistério, o detetive e o chefe de policia, depois de solucionado o mistério, tomavam um cherry, acariciavam os bigodes e faziam comentários genéricos sobre a vida, o que nos fazia fechar o livro com uma sensação de paz, um leve sorriso...

Minha mala está quase pronta, são oito e meia e mais ou menos ao meio dia vou para o aeroporto.
Ontem o dia foi corrido: Museu de Arte Latino Americana (Botero, Di Cavalcanti, Frida, Portinari, Tarsila do Amaral), Livraria El Ateneo (um sonho), Museu do Tango (imperdível), Show de Tango no Café Tortoni (uma boa despedida), o Teatro El Colon fechado para reforma e muita, muita caminhada.

Tenho um livro que adoro e se chama "Os Pés Alados de Mercúrio". Lá o autor conta suas viagens pelo mundo numa outra proposta e nos mostra que toda viagem é sempre interna e externa. Há muito tempo queria conhecer Buenos Aires e Santiago. Hoje sei que vim na hora certa, da forma certa e na companhia certa: a minha.

Há anos atrás, me senti insegura quando, sozinha na Alemanha, precisava decidir se iria ou não a Berlim.

Fiquei com medo: chegaria sozinha, mais ou menos nove da noite, entendendo um mínimo de alemão e teria que pegar a chave da casa onde ficaria (no bairro turco e onde o dono não iria estar) na casa de outra pessoa do mesmo prédio.

Mas aí veio o empurrão via fone: “Como você vai saber que tem coragem se você não se testar?”

Em muitos momentos da minha vida tenho lembrado disso e o resultado sempre tem sido muito bom. Por esta e por muitas razões, a essa pessoa, minha gratidão eterna.

Em Berlim, quando horas depois tomei um maravilhoso banho de banheira na casa de alguém que jamais conheci, senti na pele o significado da palavra "possibilidade".

Ontem, ao chegar por volta de uma da manhã aqui, no Hostal onde me hospedei em Buenos Aires, me dei conta de que as francesas tinham ido para o Uruguai e, como Seu Mario e dona Martha não ficam aqui, a chave do casarão estava na minha bolsa.

Desci do táxi, olhei para o prédio de quatro andares, abri o portão, atravessei o corredor enorme e deserto, meus passos faziam toc, toc, no silêncio absoluto...

Chamei meu elevador metálico, cheguei ao terceiro andar e chave enorme na mão, entrei e me vi sozinha na casa de quatro quartos.

Lembrei de Berlim, vi que é possível sim, e fui dormir muito feliz.

Sonho ou realidade?


Buenos Aires, maio de 2008.


Agora vou contar algumas coisas que não posso afirmar que de fato aconteceram, talvez tenha sido sonho, em alguma cama quentinha por onde dormi...

Em Puerto Varas, fui almoçar num restaurante indicado pelo dono do hotel onde fiquei. Situado no Mercado Central e especializado em frutos do mar, era muito aconchegante.
Era meio tarde, só havia eu de cliente, e foi me dando uma sensação tão boa de gratidão pela vida, por poder viver tudo aquilo, por ter saúde, paz, amigos, família.

Estava o maior silêncio...Então a dona do restaurante perguntou se eu me incomodaria se ela colocasse uma musica para tocar. Falei que não.
Ela começa a procurar numa estante de cds. Escolhe um. A voz de Mercedes Sosa preenche todo o ambiente: ”Gracias a la vida, que me ha dado tanto..."
Comecei a chorar na mesma hora...

Ontem cheguei e me alojei no hostal aqui em Buenos Aires. Descobri na Internet um dia antes de chegar a Buenos Aires este misto de albergue com casa de família. Na verdade, muitas famílias argentinas alugam quartos para turistas. A vantagem maior além do preço, é que há uma interação maior com as pessoas do local e com os outros hóspedes, pois o café da manhã é coletivo, todos podem abrir a geladeira, servir-se, trocar idéias e dicas de viagem.
De hóspedes, além de mim, duas francesas.
Fui tomar meu banho, deitei e de repente, batidas na porta do quarto.
Era a mais velha das duas francesas me chamando para tomar uma taça de champanhe, pois era o aniversario dela.
Levantei, me vesti às pressas e fui para sala.
Então ficamos as duas francesas e eu, o dono do hotel e sua esposa e o encanador.
Pois é, havia um problema no encanamento e foi chamado um encanador, um senhor de idade para dar um jeito. Brindes feitos, parabéns dados, ele (o encanador) pede para cantar um tango em homenagem a aniversariante. Gente, não é que o homem cantava mesmo?
Deu-se então o milagre: a música uniu pessoas que jamais se viram, e que talvez jamais venham a se encontrar de novo. O som daquele tango improvisado me deu a certeza de que sempre, sempre, podemos nos encantar com as belas paisagens, mas as maiores surpresas sempre virão das pessoas.

O problema no aquecimento do chuveiro acabou sendo responsável por mais um momento inesquecível da minha vida...

No dia seguinte, após andar das 10:00 às 20:00, semi morta de cansaço, fui para a minha primeira aula de tango.
A Confiteria Ideal é um estabelecimento antigo, um prédio com os sempre presentes elevadores metálicos e aqueles lustres enormes, espelhos ovais em todas as paredes, um café, um bar e música ao vivo. Além das apresentações dos dançarinos, também é possível, por um precinho bem camarada, matricular-se em aulas avulsas de tango.

Quando entrei pensei estar entrando em um cenário de filme pois tudo era lindo demais.
O que não sei dizer é se aquela que momentos depois arriscava alguns passos de tango com o professor era de fato eu. Parecia comigo, mas não posso garantir.

Fascinada, já não distinguia sonho de realidade!

Águas passadas


Paulo Afonso (BA), julho de 2008


Estive na semana passada em Paulo Afonso (BA) a serviço.
Impossível não lembrar, em lá chegando, que esta cidade foi o destino da minha primeira viagem sem a companhia de meus pais, aos doze anos.
Fiscalizadas por freiras e professoras, lá se foi a minha turma de sexta série, ver de perto a famosa Cachoeira de Paulo Afonso.
Lembro dos corredores do hotel, da aventura de nos reunirmos todas num só quarto, escondido (claro) e ficando acordadas até altas horas...
Na época isso era o máximo em matéria de desobediência.
Lembro da minha dificuldade em ingerir a comida, achava o gosto estranho e só anos depois fui entender que lá se usa coentro demais, o que
para mim complica muito, já que até hoje detesto coentro...
A visão da cachoeira foi inesquecível, linda, barulhenta, fantástica.
Anos depois, retorno ao mesmo ponto. Sem a companhia das freiras, corro ao local da cachoeira: surpresa, reduziu-se a um fio de água.
A abertura da barragem levou consigo a água e o encantamento...
Em silêncio observo as mudanças, na cachoeira, em mim.
Tantas lembranças.
Águas passadas.

O que aprendi com Odair José


Brasília, julho de 1997.

Eu havia acabado de ser aprovada em um processo seletivo interno que me conduziria enfim a trabalhar na área dos meus sonhos: Gestão de Pessoas. Durante três semanas profissionais aprovados de todo o País se reuniram em Brasília para alinhamento, troca de experiências e assistir a palestras de personalidades da área de educação. O entusiasmo era contagiante.

No final de semana chegou a notícia: Odair José se apresentaria em Brasília. Imediatamente alguém sugeriu: e se fossemos todos para o show? Riríamos das músicas bregas, da performance do cantor, compraríamos rosas para entregar a ele bancando as tietes.

Noite do show, saímos do hotel para comprar as flores. No Teatro, platéia escassa. E eis que chega o artista da noite: humilde, acompanhado de dois músicos, roupas puídas, instrumentos gastos. O cantor se depara com a platéia quase vazia e suspira. Para nosso espanto ele pergunta: “Vocês vieram aqui para me ver mesmo?”
Respondemos: “Sim!”

Nessa hora, tudo mudou.
Qual era mesmo a palavra chave da palestra do dia? Comprometimento!
No palco, os músicos que antes pareciam desanimados, renasceram e o cantor se transformou como se a sua frente estivessem centenas de pessoas.

No nosso grupo, o silêncio.
“Acreditar no que se faz”, disse outro palestrante. Observo aquele homem magro, sofrido, tentando levar a uma platéia mínima um entusiasmo de outros tempos. Meus colegas nem piscam, concentrados. Sinto-me pequena, enquanto lembro das palavras ouvidas durante a semana: carreira, sentido, motivação, profissionalismo, entusiasmo, respeito. Quanta pretensão, a nossa...

O show chega ao fim e uma colega pergunta: “O que faremos com as flores?”

Ao invés de responder, outra colega se levanta e caminha decidida para o palco, colocando sobre ele a sua flor.

Naquela noite gelada de julho, dez pessoas que aprendiam a trabalhar com pessoas caminharam para o palco onde Odair José se apresentava e depositaram ali suas flores com respeito e reverência. Afinal, a lição que precisávamos aprender, ele sabia de cor!