domingo, 7 de abril de 2013

Modelando uma nova vida

Se há alguns anos alguém me dissesse que eu passaria meus finais de semana às voltas com pontos e linhas e que abriria mão de agitos e saídas noturnas, eu teria muita dificuldade em acreditar. Pois é justamente o que estou vivendo agora.

Há uns dois ou três anos, eu comecei a me preocupar com a minha vida "pós Banco", afinal, queira ou não, e no caso eu quero, chegará o dia em que eu, como tantas outras pessoas, darei o "sai" no ponto eletrônico pela última vez. O que me deixava ansiosa era não saber o que fazer quando o tempo finalmente fosse todo meu, depois de trabalhar 31 anos ininterruptamente.

Louca por viagens como sou, claro que meu primeiro impulso foi pensar em trabalhar como guia de turismo. Fiz de tudo: Busquei cursos, dicas, literatura na área e nada dava certo. Ao viajar com minha mãe para Israel e ao perceber o que faz de fato um guia, voltei decidida que não seria esta a ocupação da minha nova vida. O que seria então? Aí, na forma de vários acontecimentos, a Moda entrou ou melhor, voltou para a minha vida.                                                                                
Estudar moda é um retorno ao meu tempo de criança, quando desenhava vestidos e ajudava minha mãe nas costuras. Daí a me matricular num curso de Design de Moda foi um pulo. Nos desenhos de hoje, volto no tempo e vejo aquela menina sentada no chão, cercada de papeis por todos os lados. Gosto demais das aulas de desenho, a cada desafio vencido, me sinto mais feliz e realizada.
 
No curso tudo é novidade. Afinal, são tantos anos longe de um curso de graduação, que nem lembrava mais de certas coisas. Sou a aluna mais velha da turma, o que me deixa numa situação digamos, confortável. Gosto de todas as disciplinas e de todos os professores. Viajo nas aulas de História da Arte e História da Indumentaria. As aulas na máquina industrial são as mais desafiantes, mas agora, aos poucos, vou melhorando. Faço as tarefas com o maior prazer, sou pontual e assídua. Ah, a maturidade...
 
É um enorme desafio, pois além de trabalhar oito horas por dia, encaro as aulas de segunda a sexta-feira das 19h15 às 22h50. Puxado, mas faço isso na maior alegria. Mesmo chegando em casa tarde já aconteceu de chegar tão animada que encarei tarefas de recorte e colagem até de madrugada. E para fazer de madrugada, só coisa muito boa mesmo.
 
 Minha vida se transformou: Minha kit está quase ..."um pedaço de Saigon", uma bagunça que não consigo arrumar nunca. Para cada disciplina uma sacola com os materiais mais diversos: Tecido, linha, botões, papel, lápis, borracha, arame, cola, fita crepe, palitos para churrasco, tesouras, revistas. A mala do carro virou depósito, e meus finais de semana são voltados para os textos do curso. 

Como não tenho formação nessa área, apesar de sempre ter tido interesse por Moda, procuro aproveitar as oportunidades que surgem, como palestras, exposições e eventos. Estive numa palestra com Walter Rodrigues e em outra com Cristina Franco mediada pelo coordenador do nosso curso. Em todas elas a certeza de que para se fazer Moda, é preciso muito, muito estudo e pesquisa. Estou montando uma pequena videoteca com filmes sobre Moda e claro, comprei alguns livros. São fantásticos, cheios de fotos lindas e inspiradoras. Ainda não sei o que vou fazer após a conclusão do curso pois são tantas as opções e caminhos nessa área, quero fazer mais cursos e me testar em várias ocupações. Em breve, haverá tempo para tudo o que a minha imaginação e coragem desejarem.
 
Na minha última viagem ao Sul consegui fazer uma visita ao Museu da Moda e me encantei com tudo o que vi. Trajes de diversas épocas, réplicas de roupas de personagens famosos do cinema, uma ala inteira dedicada à Princesa Diana. Foi um passeio delicioso e sai de lá com algumas idéias. É o que venho dizendo para minhas amigas: Eu acho que agora me achei.

E lá se vão três anos...

 
 
 
Com o texto "O que aprendi com Odair José" inaugurei meu blog em março de 2010.
Hoje, três anos, 121 textos e 20.000 acessos depois, rolo suas telas e me sinto feliz. Muita coisa mudou na minha vida e meu blog é testemunha disso.
A todos que curtiram, leram e me estimularam, 20.000 vezes obrigado!

domingo, 3 de março de 2013

A Bula do apocalipse

Quando antigamente alguém queria se referir a uma pessoa que lia muito, dizia que a dita cuja lia “até bula de remédio”. Pois é, eu sou dessas.
Durante a gripe da qual começo a me despedir sem saudades, fui ao médico que conforme o costume receitou um remédio. Caríssimo, por sinal. Mas a garantia de melhora rápida me fez comprá-lo, revoltada pela inexistência de um genérico. ...Infelizmente, chás, mel e outras receitas caseiras não são suficientes para curar minhas gripes. Nem os remédios que compramos sem receitas nas farmácias. Tenho que tomar antibiótico mesmo.
Bem, eu estava tão mal, mas tão mal, que nem me passou pela cabeça ler a bula, o que seria meu procedimento habitual. Almocei, seguindo as orientações do médico e tomei o dito cujo. Nem trinta minutos se passaram, e veio tudo de vez: enjoo, boca seca, dor de estômago, tontura, um horror. Só aí fui ler a bula. E que bula!
O texto começa de forma suave: “O medicamento pode provocar reações adversas como dor de cabeça, tontura, distúrbio cardio vascular, vômitos, dores abdominais e diarreias”.
Ufa, quer dizer que eu ainda estava no lucro...
Bem, mas a bula prossegue: “Em casos raros, reações anafiláticas podem ocorrer, até o choque, potencialmente letal após a primeira administração”.
Socorro! Medo! Pânico!
Aí, a bula me ameaça: “A interrupção do tratamento antes do prazo recomendado provocará a piora da doença”.
Help!
Bem, mas aí foi dando um sono, um sono e apaguei total. Quando acordei, surpresa! Estava viva e me sentindo um pouco melhor.
Passados três dias, cá estou quase boa, feliz por ter sobrevivido. Para quem quer viver fortes emoções, é só passar na farmácia mais próxima e comprar um “Avalox”.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Reciclagem do Amor


Sou uma libriana com ascendente em libra.
Segundo os astrólogos, não há para mim uma salvação possível.

Se para os librianos o amor já é o centro da vida, imagine quando isso vem potencializado pelo ascendente.

Mas, corajosa que sou, aqui e ali tiro proveitos do DNA astrológico e direciono meu amor para muitas coisas: As pessoas, os projetos, os lugares, os livros. Afinal, tem coisa melhor que se apaixonar?

Tem amores, que talvez por terem sido tão orgânicos na nossa vida,  acabam se desfazendo com suavidade, os rios os levam, sem causar mal a ninguém. Esses são os amores que conseguimos reciclar, transformar em amizade , sentir uma enorme gratidão pelos momentos vividos, compreender a marcha e ir tocando em frente.

Mas há amores, que como os plásticos, demoram muito, muito tempo para se decompor. Matam tartarugas, engasgam golfinhos, poluem o curso da vida. São os amores tóxicos.

Que fazer? O ideal seria claro, não precisar passar por eles. Mas uma vez na chuva, cuidemos para que não permaneçamos molhados por muito tempo. Se não dá pra reciclar lá, reciclemos cá, nosso coração e nossa alma.

Fácil não é, mas mais difícil ainda é viver arrastando o lixo afetivo pra lá e pra cá, não?

O Ouro e a Prata de cada um


No mês passado, um colega de trabalho e um grupo de amigos realizou uma viagem fantástica, cruzando o Deserto do Atacama, Bolívia, Peru e claro, Machu Picchu. Paisagens belíssimas, desafios enormes e muitas descobertas. Entre essas, a constatação das condições sub humanas a que são submetidos os trabalhadores das minas em Potosi, na Bolívia.
 
Mesmo já tendo conhecimento do fato, não deixei de ficar bastante tocada.
Olhando as fotos da mina em Potosi e lendo a descrição das condições sub humanas a que os trabalhadores são submetidos, voltei no tempo, há quase 30 anos, quando lá estive.

Antes da viagem, havia lido "As Veias abertas da América Latina" o que, aliado ao conhecimento dos guias que contavam a triste história do roubo e saque a que o Peru e Bolívia foram submetidos, me deixaram com uma imagem bem realista do que foi a colonização espanhola naquelas bandas.
Bem, o tempo passou e eis que me vejo anos depois na Espanha.

A nossa guia era formada em arquitetura, mulher cultíssima e muito, muito entusiasmada em nos contar a história de seu país. Aconteceu então que numa das muitas igrejas visitadas, ela começa a nos mostrar as belas imagens sacras, segundo ela, decoradas com o "ouro e a prata trazidos das nossas colônias".

Caetano já dizia que "O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar?"

O fato é que voltei para Potosi, lembrei dos relatos dos guias, revias crianças de rostos queimados de sol e pés descalços. Lembrei das mães que carregam os filhos nas costas e sentam no chão para vender suas chompas multi coloridas. Lembrei dos bandos de lhamas e alpacas, que nos olham dos pontos mais altos da Cordilheira. Lembrei da pobreza, da miséria e aos poucos meus olhos de encheram de lágrimas. De início discretas, depois, aos poucos, se transformaram num choro convulsivo.

A guia, surpresa, me elogiava, era tão lindo ver alguém se emocionar com a arquitetura espanhola...

Guardei meus motivos para mim.
Ninguém daquele grupo me entenderia...
 
Recomendo a todos uma visita ao blog onde está a cobertura completa da viagem do meu amigo:

www.foradacidade.com

O Chão da Praça


 
Em meio a muitas arrumações, tv ligada, vejo os preparativos para o Carnaval da Bahia. Vontade de ir para lá? Nenhuma. O atual Carnaval com seus espaços delimitados,  suas musas marombadas e ego nas alturas em nada me seduz.
É bem verdade que já gostei muito de Carnaval, como boa baiana que sou. Minha primeira lembrança está associada às caretas, que eram máscaras que os foliões usavam durante os festejos. Feitas em tecido barato, com inacreditáveis orelhas em espuma, serviam também para aterrorizar as crianças. Segundo a lenda, certa vez, saí com minha babá para ver o Carnaval e meus pais, devidamente fantasiados, chegaram para brincar comigo. Fiquei apavorada. Havia também uns tubos plásticos que enchíamos de água para jogar nas pessoas. Era a nossa ingênua lança perfume, que geralmente vinham acompanhadas dos confetes e serpentinas.
De acordo com o site http://www.nossadica.com/carnavaldesalvador.php, nas décadas de 60 e 70, o centro da cidade, por onde hoje desfilam os trios elétricos, era uma espécie de sambódromo local. Agremiações como Juventude do Garcia, Filhos do Tororó, Diplomatas de Amaralina, Ritmistas do Samba, Ritmos da Liberdade, Bafo da Onça e a Escola de Samba do Politeama disputavam a atenção dos foliões com sua bateria, seus sambas-enredo e fantasias. As famílias colocavam as cadeiras nas calçadas para apreciar os desfiles. Lembro muito desta época e também dos primeiros trios. 
 O Trio Elétrico, como ficou conhecido mundialmente, é um veículo equipado com um potente equipamento de som e um palco montado em um plano superior, onde se apresentam os artistas durante um percurso pré determinado.A história do trio elétrico esta intimamente ligada a criação de um instrumento musical, conhecido hoje como guitarra baiana, que por genialidade foi concebido pelos mesmos que depois criariam o trio elétrico. Lembro que eram poucos os trios. Tão poucos que Caetano estava certo ao afirmar que Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu. Era tão grande o intervalo entre um trio e outro, que descíamos pulando a Avenida Sete até a Praça Castro Alves, que era mesmo "do povo". Depois subíamos de volta a ladeira para esperar outro trio. Não havia violência ou preocupações. No início da adolescência, eu ia sozinha para a rua encontrar minhas amigas e nunca nada aconteceu a mim ou a elas. Eram mesmo, outros tempos. 
Moraes Moreira
Como eu gostava das músicas de Carnaval. Caetano, Moraes Moreira, Armandinho e outros lançavam sucessos todos os anos, eram músicas bonitas, que podíamos ouvir durante o ano inteiro: A Filha da Chiquita Bacana, Pombo Correio, Chão da Praça,Chame Gente, Zanzibar.  Nos últimos instantes do Carnava havia encontros de trios, que eram verdadeiros acontecimentos. Tive a oportunidade de ver Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Gal Costa, Caetano, todos eles ali, ao nosso alcance, cantando de graça para todos que estivessem naquele clima de alegria. Assim era o Carnaval que curti.

Com a chegada dos anos 80, surge uma figura que começa a mudar a cara do Carnaval da Bahia. Até então, com exceção daqueles que eram músicos consagrados, não havia ainda estrelas no nosso Carnaval. Isso, até o surgimento de Luiz Caldas e em consequência, do Axé music.
 

De  acordo com o  blog http://herculanoneto.blogspot.com/2009, o  termo axé music foi cunhado pejorativamente pelo crítico musical Hagamenon Brito, em 1987, para designar a música para dançar produzida na Bahia naquela época e foi ingenuamente adotado pela mídia local. A palavra axé é derivada do yorúbá e quer dizer força; music é um mero cognato inglês que não agrega valores, apenas expõe nosso espírito de colonizado, talvez o afã de soar tão universal e palatável como a soul music ou a black music tenha sido mais forte que o axé.
 
Um dos seus precursores, o cantor e compositor Luiz Caldas, num artigo publicado pela impressa soteropolitana, reivindica com unhas e dentes o título de criador de axé music (o ritmo) munido de documentos e datas, só faltando pedir um teste de DNA – assemelhando-se ao pai que desconhecia a paternidade e agora tenta recuperar o amor do filho em uma dessas novelas da tv.
 
No ano em que Luiz Caldas surgiu, foi estimulada uma competição, em que o Rio e Salvador disputaram o título de cidade que atrairia mais turistas no Carnaval. Com a vitória de Salvador, Luiz Caldas foi alçado a condição de estrela nacional, com uma superexposição na mídia que na época, não era tão comum. Com a crescente divulgação do Canaval baiano, hoje é comum ver cantoras de axé ocupando espaços jamais imaginados, como apresentadores de TV, e até mesmo atuando em novelas. Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Cláudia Leite representam bem este momento. No seu rastro grupos e danças que são lançados a cada ano, podendo durar um ou vários carnavais. O Carnaval da Bahia é sem dúvida um grande evento onde se investem milhões e onde poucos ganham muito.


Não tenho dados estatísticos nem resultados de pesquisas. Apenas lembranças e percepções.

Moradora do Campo Grande, um dos circuitos da folia, assisti a cada ano o espaço para a população ser suprimido para que fossem instalados os camarotes.

Se antes eu aguardava ansiosa a passagem dos trios, com o passar do tempo e o verdadeiro engarrafamento de blocos que se forma no carnaval, fui me cansando, cansando, até que um dia assumi que não queria mais fazer parte daquela festa. Foi uma decisão tranquila, principalmente por já ter aproveitado tanto.  Fico feliz ao saber dos milhares de turistas que correm para a minha cidade em fevereiro. Afinal, mesmo diferente da que tive, felicidade é felicidade.
 
E para ficar bem atualizada com o novo modelo, guardei as muitas lembranças que tenho num camarote que montei no meu coração.
 
 




quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vestida de fantasia

Sempre que alguém, numa conversa, evoca as lembranças do tempo de criança e traz lembranças de árvores e quintais, frutas e brincadeiras na rua, permaneço calada. Criança de apartamento, mesmo tendo tido o privilégio de dispor de uma fazenda para brincadeiras durante as férias, os dias ali passados não são para mim marcantes. A primeira vista, pode parecer uma futilidade, mas minhas mais marcantes lembranças de infância, são todas associadas a roupas. Na minha infância, meus vestidos eram verdadeiros personagens dos momentos que eu vivi.   


Não fui uma criança saudável, muito pelo contrário. Asmática desde cedo, entrei tarde na escola e mesmo assim, cheia de limitações. Não podia correr, não podia subir escadas, nada de sorvetes ou gelados. Além disso, quando as crises me atacavam, passava dias e dias sem ir para as aulas, geralmente de cama, tomando uma infinidade de remédios e injeções. Cheguei a ser desenganada pelos médicos, que chamaram meus pais e sugeriram que tivessem outro filho, pois não haveria cura para mim. Estavam errados, claro. Mas dentro de um cenário pouco animador como aquele, o que minha mãe podia fazer para me ocupar?

Antes de contar, preciso informar aos mais novos, que nos anos sessenta, poucas eram as pessoas que compravam roupas prontas, nas lojas. Pelo menos ao meu redor isso não acontecia. Num tempo em que poucas eram as mulheres que trabalhavam, quase todo o vestuário das famílias era costurado em casa, ou encomendado às costureiras. Isso implicava em inúmeras provas, palpites, espetadas de alfinetes. Se para algumas crianças isso era um castigo, para mim eram momentos da mais pura felicidade.

Minha mãe era uma exímia costureira. Além de costurar todas as roupas que eu e minha irmã mais velha usávamos, ela ainda costurava para amigas e conhecidas. Da máquina Singer de pedal iam saindo vestidos tirados das revistas Manequim, Figurino Moderno, A Cigarra. Como eu adorava essas revistas! Acompanhava minha mãe nas bancas de revistas e ganhava dela bonequinhas de papel para recortar. Nas cartelas, além das bonecas, vinham roupinhas que podiam ser trocadas. Como não eram muitas as roupas e eu vivia num universo povoado de modelos, muito cedo comecei a desenhar roupas para minhas bonecas. Minha produção de roupinhas era tanta, que minha mãe as guardava em caixas de papelão que pedia nos supermercados. Eu desenhava o traje completo: Vestidos, saias, bolsas, sapatos. Hoje, lembrando dos cadernos e mais cadernos que preenchi com meus desenhos, me arrisco a dizer que mesmo sem qualquer formação, eu era uma estilista em potencial. Dessa época vem meu gosto pelos assuntos de moda.

Como minha mãe e eu partilhávamos da mesma paixão, logo aprendi a tirar os moldes que vinham nas revistas, geralmente dobrados nas páginas centrais. Eram linhas vermelhas, pretas, azuis e podiam ser retas ou pontilhadas. Após cobertas as linhas, era hora de decalcá-las com papel transparente. Na etapa seguinte, os moldes eram colocados sobre o tecido e então cortados. Eu acompanhava todas as etapas, principalmente quando a roupa seria minha. Muito cedo aprendi a conhecer os tecidos e definir qual a textura adequada pra cada modelo. Aos domingos passeávamos no centro da cidade e olhávamos as vitrines. Assim que chegávamos em casa, eu desenhava as roupas mais interessantes que seriam costuradas depois.  Eu tinha o maior orgulho em dizer que meus vestidos eram feitos pela minha mãe.Creio que este era um dos motivos pelos quais as roupas sempre tiveram uma importância afetiva para mim.

Quando enfim ficavam prontos, minha mãe me concedia a honra de tirar os alinhavos antes de enfim passar o vestido a ferro e declará-lo oficialmente pronto para o uso. Lembro de tantos:  O azul com gola  redonda e bolso xadrez, onde escondi um relógio comprado por meu pai para presentear minha mãe. O bege em shantung, com um ousado escorpião em vinil vermelho desenhado por mim e costurado por minha mãe. Fui com ele para uma cerimônia de primeira comunhão na minha escola causando a maior sensação. Era ousadia demais! O vestido branco em flanela, com fitas bordadas e um elefantinho que usei durante a viagem para Paulo Afonso, a primeira sem meus pais. Vem dessa época meu gosto por roupas e sapatos diferentes. Mesmo sendo eu uma criança, passei a repetir uma das máximas de minha mãe quando o assunto é roupa: " Muito comum, não serve". Num tempo em que a palavra customização não existia, lembro que cortávamos panos de prato com estampas bonitas para aplicar nas minhas roupas, usávamos sacos de pano lavados para fazer vestidos e mil outras coisas.

Na fase da adolescência, usei muitos vestidos desenhados por mim e costurados por minha mãe, que me apoiava e incentivava. Mesmo sem recursos, sempre tivemos muitas roupas, pois se faltava dinheiro, sobrava criatividade. Tudo se reaproveitava e eu ainda herdava as roupas de minha irmã, transformando-as em outras.

Já mocinha, tive uma amiga que era sobrinha de um estilista famoso em Salvador que em seguida teve projeção nacional chegando a ter um quadro num famoso programa feminino. Estive com minha amiga na casa dele algumas vezes e sempre eram ocasiões de encantamento. Lembro ainda hoje de um vestido de algodão cru que ele desenhou para uma amiga, com bolsos num tecido colorido e um ousado decote nas costas. Pois não é que num carnaval ele desenhou duas fantasias para nós? A primeira consistia numa saia longa, com aberturas laterais para as pernas e um bustiê com as alças cruzadas na frente. Parece simples? Sim, só que o tecido era lamê, puro brilho. Assim, minha amiga fez o dela em vermelho enquanto o meu era verde. Mas a segunda fantasia, essa era um acontecimento.
 Eram duas fantasias de odalisca. Bustiê em chita, destas bem coloridas e o cós da saia em voal também em chita. Mas o detalhe fantástico era a proposta que ele nos fez, para que a fantasia ficasse de fato maravilhosa: Deveríamos rebordar todo o estampado da chita em paetês. Lembrando, eram os anos 70, e a chita nem sonhava em ser um tecido cult como agora é. Claro que bordamos. Levamos dias e dias, horas e mais horas com nossos paetês e missangas, rebordando aquele tecido coloridíssimo. A cada ponto, íamos construindo nossas fantasias únicas, com um resultado final que quase não podíamos acreditar. Ficaram lindas!

Outra roupa marcante foi um vestido que vi numa revista. Era lindo, muito bordado, como eu gostava. Mostrei a foto para minha mãe que balançou a cabeça. Afinal, todo recoberto de bordados em ponto cheio, o vestido seria caríssimo. Acatei a decisão, mas nunca me esqueci do vestido. Anos depois, muitos anos depois, uma amiga veio do México com um vestido igual. Aí fiquei sabendo que o vestido que era meu sonho desde criança era um vestido bordado pelas mulheres do México. Tive a oportunidade de ir ao México num momento de mudanças intensas na minha vida e encontrei o vestido dos meus sonhos, exatamente igual ao da revista. Comprei-o e voltei para o hotel com o pacote apertado de encontro ao meu peito. Não era um simples vestido, era a realização de um sonho, num momento em que eu precisava desesperadamente acreditar que eu ainda seria capaz de realizar muitos dos meus sonhos engavetados.

Anos depois, já bem madura, fiz um curso de estilismo rápido em Salvador. Matei as saudades dos desenhos e leituras de assuntos de moda. Concordo com a professora quando ela afirmou que ao vestirmos algo, estamos sempre passando uma mensagem, pois queiramos ou não, a roupa tem um papel importante na composição de nossa aparência e da impressão que causamos. Revendo fotos antigas percebo que sim, os vestidos estavam mesmo em sintonia com os momentos que vivi.  Mas confesso que sinto saudade do tempo em que vestia as roupas que nasciam no meu caderninho de desenho e que ajudaram a modelar a pessoa que hoje sou.

























sexta-feira, 29 de junho de 2012