quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vestida de fantasia

Sempre que alguém, numa conversa, evoca as lembranças do tempo de criança e traz lembranças de árvores e quintais, frutas e brincadeiras na rua, permaneço calada. Criança de apartamento, mesmo tendo tido o privilégio de dispor de uma fazenda para brincadeiras durante as férias, os dias ali passados não são para mim marcantes. A primeira vista, pode parecer uma futilidade, mas minhas mais marcantes lembranças de infância, são todas associadas a roupas. Na minha infância, meus vestidos eram verdadeiros personagens dos momentos que eu vivi.   


Não fui uma criança saudável, muito pelo contrário. Asmática desde cedo, entrei tarde na escola e mesmo assim, cheia de limitações. Não podia correr, não podia subir escadas, nada de sorvetes ou gelados. Além disso, quando as crises me atacavam, passava dias e dias sem ir para as aulas, geralmente de cama, tomando uma infinidade de remédios e injeções. Cheguei a ser desenganada pelos médicos, que chamaram meus pais e sugeriram que tivessem outro filho, pois não haveria cura para mim. Estavam errados, claro. Mas dentro de um cenário pouco animador como aquele, o que minha mãe podia fazer para me ocupar?

Antes de contar, preciso informar aos mais novos, que nos anos sessenta, poucas eram as pessoas que compravam roupas prontas, nas lojas. Pelo menos ao meu redor isso não acontecia. Num tempo em que poucas eram as mulheres que trabalhavam, quase todo o vestuário das famílias era costurado em casa, ou encomendado às costureiras. Isso implicava em inúmeras provas, palpites, espetadas de alfinetes. Se para algumas crianças isso era um castigo, para mim eram momentos da mais pura felicidade.

Minha mãe era uma exímia costureira. Além de costurar todas as roupas que eu e minha irmã mais velha usávamos, ela ainda costurava para amigas e conhecidas. Da máquina Singer de pedal iam saindo vestidos tirados das revistas Manequim, Figurino Moderno, A Cigarra. Como eu adorava essas revistas! Acompanhava minha mãe nas bancas de revistas e ganhava dela bonequinhas de papel para recortar. Nas cartelas, além das bonecas, vinham roupinhas que podiam ser trocadas. Como não eram muitas as roupas e eu vivia num universo povoado de modelos, muito cedo comecei a desenhar roupas para minhas bonecas. Minha produção de roupinhas era tanta, que minha mãe as guardava em caixas de papelão que pedia nos supermercados. Eu desenhava o traje completo: Vestidos, saias, bolsas, sapatos. Hoje, lembrando dos cadernos e mais cadernos que preenchi com meus desenhos, me arrisco a dizer que mesmo sem qualquer formação, eu era uma estilista em potencial. Dessa época vem meu gosto pelos assuntos de moda.

Como minha mãe e eu partilhávamos da mesma paixão, logo aprendi a tirar os moldes que vinham nas revistas, geralmente dobrados nas páginas centrais. Eram linhas vermelhas, pretas, azuis e podiam ser retas ou pontilhadas. Após cobertas as linhas, era hora de decalcá-las com papel transparente. Na etapa seguinte, os moldes eram colocados sobre o tecido e então cortados. Eu acompanhava todas as etapas, principalmente quando a roupa seria minha. Muito cedo aprendi a conhecer os tecidos e definir qual a textura adequada pra cada modelo. Aos domingos passeávamos no centro da cidade e olhávamos as vitrines. Assim que chegávamos em casa, eu desenhava as roupas mais interessantes que seriam costuradas depois.  Eu tinha o maior orgulho em dizer que meus vestidos eram feitos pela minha mãe.Creio que este era um dos motivos pelos quais as roupas sempre tiveram uma importância afetiva para mim.

Quando enfim ficavam prontos, minha mãe me concedia a honra de tirar os alinhavos antes de enfim passar o vestido a ferro e declará-lo oficialmente pronto para o uso. Lembro de tantos:  O azul com gola  redonda e bolso xadrez, onde escondi um relógio comprado por meu pai para presentear minha mãe. O bege em shantung, com um ousado escorpião em vinil vermelho desenhado por mim e costurado por minha mãe. Fui com ele para uma cerimônia de primeira comunhão na minha escola causando a maior sensação. Era ousadia demais! O vestido branco em flanela, com fitas bordadas e um elefantinho que usei durante a viagem para Paulo Afonso, a primeira sem meus pais. Vem dessa época meu gosto por roupas e sapatos diferentes. Mesmo sendo eu uma criança, passei a repetir uma das máximas de minha mãe quando o assunto é roupa: " Muito comum, não serve". Num tempo em que a palavra customização não existia, lembro que cortávamos panos de prato com estampas bonitas para aplicar nas minhas roupas, usávamos sacos de pano lavados para fazer vestidos e mil outras coisas.

Na fase da adolescência, usei muitos vestidos desenhados por mim e costurados por minha mãe, que me apoiava e incentivava. Mesmo sem recursos, sempre tivemos muitas roupas, pois se faltava dinheiro, sobrava criatividade. Tudo se reaproveitava e eu ainda herdava as roupas de minha irmã, transformando-as em outras.

Já mocinha, tive uma amiga que era sobrinha de um estilista famoso em Salvador que em seguida teve projeção nacional chegando a ter um quadro num famoso programa feminino. Estive com minha amiga na casa dele algumas vezes e sempre eram ocasiões de encantamento. Lembro ainda hoje de um vestido de algodão cru que ele desenhou para uma amiga, com bolsos num tecido colorido e um ousado decote nas costas. Pois não é que num carnaval ele desenhou duas fantasias para nós? A primeira consistia numa saia longa, com aberturas laterais para as pernas e um bustiê com as alças cruzadas na frente. Parece simples? Sim, só que o tecido era lamê, puro brilho. Assim, minha amiga fez o dela em vermelho enquanto o meu era verde. Mas a segunda fantasia, essa era um acontecimento.
 Eram duas fantasias de odalisca. Bustiê em chita, destas bem coloridas e o cós da saia em voal também em chita. Mas o detalhe fantástico era a proposta que ele nos fez, para que a fantasia ficasse de fato maravilhosa: Deveríamos rebordar todo o estampado da chita em paetês. Lembrando, eram os anos 70, e a chita nem sonhava em ser um tecido cult como agora é. Claro que bordamos. Levamos dias e dias, horas e mais horas com nossos paetês e missangas, rebordando aquele tecido coloridíssimo. A cada ponto, íamos construindo nossas fantasias únicas, com um resultado final que quase não podíamos acreditar. Ficaram lindas!

Outra roupa marcante foi um vestido que vi numa revista. Era lindo, muito bordado, como eu gostava. Mostrei a foto para minha mãe que balançou a cabeça. Afinal, todo recoberto de bordados em ponto cheio, o vestido seria caríssimo. Acatei a decisão, mas nunca me esqueci do vestido. Anos depois, muitos anos depois, uma amiga veio do México com um vestido igual. Aí fiquei sabendo que o vestido que era meu sonho desde criança era um vestido bordado pelas mulheres do México. Tive a oportunidade de ir ao México num momento de mudanças intensas na minha vida e encontrei o vestido dos meus sonhos, exatamente igual ao da revista. Comprei-o e voltei para o hotel com o pacote apertado de encontro ao meu peito. Não era um simples vestido, era a realização de um sonho, num momento em que eu precisava desesperadamente acreditar que eu ainda seria capaz de realizar muitos dos meus sonhos engavetados.

Anos depois, já bem madura, fiz um curso de estilismo rápido em Salvador. Matei as saudades dos desenhos e leituras de assuntos de moda. Concordo com a professora quando ela afirmou que ao vestirmos algo, estamos sempre passando uma mensagem, pois queiramos ou não, a roupa tem um papel importante na composição de nossa aparência e da impressão que causamos. Revendo fotos antigas percebo que sim, os vestidos estavam mesmo em sintonia com os momentos que vivi.  Mas confesso que sinto saudade do tempo em que vestia as roupas que nasciam no meu caderninho de desenho e que ajudaram a modelar a pessoa que hoje sou.