quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Reciclagem do Amor


Sou uma libriana com ascendente em libra.
Segundo os astrólogos, não há para mim uma salvação possível.

Se para os librianos o amor já é o centro da vida, imagine quando isso vem potencializado pelo ascendente.

Mas, corajosa que sou, aqui e ali tiro proveitos do DNA astrológico e direciono meu amor para muitas coisas: As pessoas, os projetos, os lugares, os livros. Afinal, tem coisa melhor que se apaixonar?

Tem amores, que talvez por terem sido tão orgânicos na nossa vida,  acabam se desfazendo com suavidade, os rios os levam, sem causar mal a ninguém. Esses são os amores que conseguimos reciclar, transformar em amizade , sentir uma enorme gratidão pelos momentos vividos, compreender a marcha e ir tocando em frente.

Mas há amores, que como os plásticos, demoram muito, muito tempo para se decompor. Matam tartarugas, engasgam golfinhos, poluem o curso da vida. São os amores tóxicos.

Que fazer? O ideal seria claro, não precisar passar por eles. Mas uma vez na chuva, cuidemos para que não permaneçamos molhados por muito tempo. Se não dá pra reciclar lá, reciclemos cá, nosso coração e nossa alma.

Fácil não é, mas mais difícil ainda é viver arrastando o lixo afetivo pra lá e pra cá, não?

O Ouro e a Prata de cada um


No mês passado, um colega de trabalho e um grupo de amigos realizou uma viagem fantástica, cruzando o Deserto do Atacama, Bolívia, Peru e claro, Machu Picchu. Paisagens belíssimas, desafios enormes e muitas descobertas. Entre essas, a constatação das condições sub humanas a que são submetidos os trabalhadores das minas em Potosi, na Bolívia.
 
Mesmo já tendo conhecimento do fato, não deixei de ficar bastante tocada.
Olhando as fotos da mina em Potosi e lendo a descrição das condições sub humanas a que os trabalhadores são submetidos, voltei no tempo, há quase 30 anos, quando lá estive.

Antes da viagem, havia lido "As Veias abertas da América Latina" o que, aliado ao conhecimento dos guias que contavam a triste história do roubo e saque a que o Peru e Bolívia foram submetidos, me deixaram com uma imagem bem realista do que foi a colonização espanhola naquelas bandas.
Bem, o tempo passou e eis que me vejo anos depois na Espanha.

A nossa guia era formada em arquitetura, mulher cultíssima e muito, muito entusiasmada em nos contar a história de seu país. Aconteceu então que numa das muitas igrejas visitadas, ela começa a nos mostrar as belas imagens sacras, segundo ela, decoradas com o "ouro e a prata trazidos das nossas colônias".

Caetano já dizia que "O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar?"

O fato é que voltei para Potosi, lembrei dos relatos dos guias, revias crianças de rostos queimados de sol e pés descalços. Lembrei das mães que carregam os filhos nas costas e sentam no chão para vender suas chompas multi coloridas. Lembrei dos bandos de lhamas e alpacas, que nos olham dos pontos mais altos da Cordilheira. Lembrei da pobreza, da miséria e aos poucos meus olhos de encheram de lágrimas. De início discretas, depois, aos poucos, se transformaram num choro convulsivo.

A guia, surpresa, me elogiava, era tão lindo ver alguém se emocionar com a arquitetura espanhola...

Guardei meus motivos para mim.
Ninguém daquele grupo me entenderia...
 
Recomendo a todos uma visita ao blog onde está a cobertura completa da viagem do meu amigo:

www.foradacidade.com

O Chão da Praça


 
Em meio a muitas arrumações, tv ligada, vejo os preparativos para o Carnaval da Bahia. Vontade de ir para lá? Nenhuma. O atual Carnaval com seus espaços delimitados,  suas musas marombadas e ego nas alturas em nada me seduz.
É bem verdade que já gostei muito de Carnaval, como boa baiana que sou. Minha primeira lembrança está associada às caretas, que eram máscaras que os foliões usavam durante os festejos. Feitas em tecido barato, com inacreditáveis orelhas em espuma, serviam também para aterrorizar as crianças. Segundo a lenda, certa vez, saí com minha babá para ver o Carnaval e meus pais, devidamente fantasiados, chegaram para brincar comigo. Fiquei apavorada. Havia também uns tubos plásticos que enchíamos de água para jogar nas pessoas. Era a nossa ingênua lança perfume, que geralmente vinham acompanhadas dos confetes e serpentinas.
De acordo com o site http://www.nossadica.com/carnavaldesalvador.php, nas décadas de 60 e 70, o centro da cidade, por onde hoje desfilam os trios elétricos, era uma espécie de sambódromo local. Agremiações como Juventude do Garcia, Filhos do Tororó, Diplomatas de Amaralina, Ritmistas do Samba, Ritmos da Liberdade, Bafo da Onça e a Escola de Samba do Politeama disputavam a atenção dos foliões com sua bateria, seus sambas-enredo e fantasias. As famílias colocavam as cadeiras nas calçadas para apreciar os desfiles. Lembro muito desta época e também dos primeiros trios. 
 O Trio Elétrico, como ficou conhecido mundialmente, é um veículo equipado com um potente equipamento de som e um palco montado em um plano superior, onde se apresentam os artistas durante um percurso pré determinado.A história do trio elétrico esta intimamente ligada a criação de um instrumento musical, conhecido hoje como guitarra baiana, que por genialidade foi concebido pelos mesmos que depois criariam o trio elétrico. Lembro que eram poucos os trios. Tão poucos que Caetano estava certo ao afirmar que Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu. Era tão grande o intervalo entre um trio e outro, que descíamos pulando a Avenida Sete até a Praça Castro Alves, que era mesmo "do povo". Depois subíamos de volta a ladeira para esperar outro trio. Não havia violência ou preocupações. No início da adolescência, eu ia sozinha para a rua encontrar minhas amigas e nunca nada aconteceu a mim ou a elas. Eram mesmo, outros tempos. 
Moraes Moreira
Como eu gostava das músicas de Carnaval. Caetano, Moraes Moreira, Armandinho e outros lançavam sucessos todos os anos, eram músicas bonitas, que podíamos ouvir durante o ano inteiro: A Filha da Chiquita Bacana, Pombo Correio, Chão da Praça,Chame Gente, Zanzibar.  Nos últimos instantes do Carnava havia encontros de trios, que eram verdadeiros acontecimentos. Tive a oportunidade de ver Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Gal Costa, Caetano, todos eles ali, ao nosso alcance, cantando de graça para todos que estivessem naquele clima de alegria. Assim era o Carnaval que curti.

Com a chegada dos anos 80, surge uma figura que começa a mudar a cara do Carnaval da Bahia. Até então, com exceção daqueles que eram músicos consagrados, não havia ainda estrelas no nosso Carnaval. Isso, até o surgimento de Luiz Caldas e em consequência, do Axé music.
 

De  acordo com o  blog http://herculanoneto.blogspot.com/2009, o  termo axé music foi cunhado pejorativamente pelo crítico musical Hagamenon Brito, em 1987, para designar a música para dançar produzida na Bahia naquela época e foi ingenuamente adotado pela mídia local. A palavra axé é derivada do yorúbá e quer dizer força; music é um mero cognato inglês que não agrega valores, apenas expõe nosso espírito de colonizado, talvez o afã de soar tão universal e palatável como a soul music ou a black music tenha sido mais forte que o axé.
 
Um dos seus precursores, o cantor e compositor Luiz Caldas, num artigo publicado pela impressa soteropolitana, reivindica com unhas e dentes o título de criador de axé music (o ritmo) munido de documentos e datas, só faltando pedir um teste de DNA – assemelhando-se ao pai que desconhecia a paternidade e agora tenta recuperar o amor do filho em uma dessas novelas da tv.
 
No ano em que Luiz Caldas surgiu, foi estimulada uma competição, em que o Rio e Salvador disputaram o título de cidade que atrairia mais turistas no Carnaval. Com a vitória de Salvador, Luiz Caldas foi alçado a condição de estrela nacional, com uma superexposição na mídia que na época, não era tão comum. Com a crescente divulgação do Canaval baiano, hoje é comum ver cantoras de axé ocupando espaços jamais imaginados, como apresentadores de TV, e até mesmo atuando em novelas. Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Cláudia Leite representam bem este momento. No seu rastro grupos e danças que são lançados a cada ano, podendo durar um ou vários carnavais. O Carnaval da Bahia é sem dúvida um grande evento onde se investem milhões e onde poucos ganham muito.


Não tenho dados estatísticos nem resultados de pesquisas. Apenas lembranças e percepções.

Moradora do Campo Grande, um dos circuitos da folia, assisti a cada ano o espaço para a população ser suprimido para que fossem instalados os camarotes.

Se antes eu aguardava ansiosa a passagem dos trios, com o passar do tempo e o verdadeiro engarrafamento de blocos que se forma no carnaval, fui me cansando, cansando, até que um dia assumi que não queria mais fazer parte daquela festa. Foi uma decisão tranquila, principalmente por já ter aproveitado tanto.  Fico feliz ao saber dos milhares de turistas que correm para a minha cidade em fevereiro. Afinal, mesmo diferente da que tive, felicidade é felicidade.
 
E para ficar bem atualizada com o novo modelo, guardei as muitas lembranças que tenho num camarote que montei no meu coração.