sábado, 13 de março de 2010

Epílogo

Buenos Aires, maio de 2008


Na minha infância sempre era este o titulo do último capitulo dos livros.
Nos livros de aventura, queria dizer que o herói cansado, mas cheio de glórias voltava para casa. Se fosse livro de mistério, o detetive e o chefe de policia, depois de solucionado o mistério, tomavam um cherry, acariciavam os bigodes e faziam comentários genéricos sobre a vida, o que nos fazia fechar o livro com uma sensação de paz, um leve sorriso...

Minha mala está quase pronta, são oito e meia e mais ou menos ao meio dia vou para o aeroporto.
Ontem o dia foi corrido: Museu de Arte Latino Americana (Botero, Di Cavalcanti, Frida, Portinari, Tarsila do Amaral), Livraria El Ateneo (um sonho), Museu do Tango (imperdível), Show de Tango no Café Tortoni (uma boa despedida), o Teatro El Colon fechado para reforma e muita, muita caminhada.

Tenho um livro que adoro e se chama "Os Pés Alados de Mercúrio". Lá o autor conta suas viagens pelo mundo numa outra proposta e nos mostra que toda viagem é sempre interna e externa. Há muito tempo queria conhecer Buenos Aires e Santiago. Hoje sei que vim na hora certa, da forma certa e na companhia certa: a minha.

Há anos atrás, me senti insegura quando, sozinha na Alemanha, precisava decidir se iria ou não a Berlim.

Fiquei com medo: chegaria sozinha, mais ou menos nove da noite, entendendo um mínimo de alemão e teria que pegar a chave da casa onde ficaria (no bairro turco e onde o dono não iria estar) na casa de outra pessoa do mesmo prédio.

Mas aí veio o empurrão via fone: “Como você vai saber que tem coragem se você não se testar?”

Em muitos momentos da minha vida tenho lembrado disso e o resultado sempre tem sido muito bom. Por esta e por muitas razões, a essa pessoa, minha gratidão eterna.

Em Berlim, quando horas depois tomei um maravilhoso banho de banheira na casa de alguém que jamais conheci, senti na pele o significado da palavra "possibilidade".

Ontem, ao chegar por volta de uma da manhã aqui, no Hostal onde me hospedei em Buenos Aires, me dei conta de que as francesas tinham ido para o Uruguai e, como Seu Mario e dona Martha não ficam aqui, a chave do casarão estava na minha bolsa.

Desci do táxi, olhei para o prédio de quatro andares, abri o portão, atravessei o corredor enorme e deserto, meus passos faziam toc, toc, no silêncio absoluto...

Chamei meu elevador metálico, cheguei ao terceiro andar e chave enorme na mão, entrei e me vi sozinha na casa de quatro quartos.

Lembrei de Berlim, vi que é possível sim, e fui dormir muito feliz.

Um comentário:

  1. Vaninha,
    Li tudinho, com olhos famintos e respiração contida...beleza transbordando por todos os lados...fêz-me lembrar o seu sorriso fácil, a sua contagiante alegria, o seu "gosto" pelas pessoas...
    É muito gostoso ver pessoas queridas crescendo, ficando ainda mais bonitas...
    Todo o carinho do mundo ora vc!
    Beijos
    Valney

    ResponderExcluir