terça-feira, 28 de junho de 2011

As Meninas das Mercês

Fachada do Colégio Nossa Senhora das Mercês em Salvador

Nos últimos dias ando aproveitando mais um dos benefícios do mundo virtual: a possibilidade de localizar e fazer contato com pessoas distantes. Foi criado no Facebook um grupo de ex-alunas da escola onde cursei o primário, o ginásio e o primeiro colegial. Essa escola, como eram as boas escolas femininas das décadas de 60 e 70, era uma escola religiosa, ou como se diz popularmente, um colégio de freiras.

No site da escola consta que foi fundado em 1735 pela jovem baiana Úrsula Luísa de Monserrat. O Convento Nossa Senhora das Mercês sempre foi dedicado à obra educativa das Ursulinas. Inicialmente, era o Educandário com alunas internas.  Posteriormente, a partir de 03.02.1897, também com externato, criou-se o Colégio Nossa Senhora das Mercês.
 
Set de 1969, minha primeira comunhão
 
Nessa escola cheguei em 1967, vinda de uma escolinha bem menor e fiquei encantada. Minha irmã mais velha já estudava lá, e eu sonhava com o dia em que finalmente usaria a camisa de polyester, a saia azul marinho de pregas e o sapato vulcabrás. Fiquei encantada com tudo, os grandes espaços, a quantidade de alunos e salas, a "roça", área enorme, cheia de árvores onde brincávamos no recreio. Havia no entanto uma outra diferença. Se na minha escolinha anterior nós, os alunos, éramos tratados como sobrinhos pelas "tias", na minha nova escola, no Colégio Nossa Senhora das Mercês, eu conheci o rigor de uma nova disciplina.

Creio que todas as pessoas que estudaram em colégios de freiras são unânimes em afirmar quais eram as principais características dessas escolas: Boa formação e disciplina rígida. Não era mais o tempo da palmatória, mas havia castigos, suspensões, expulsões, broncas e reclamações, muitas. Fomos educadas para respeitar incondicionalmente nossos professores e quando eles entravam na sala de aula, nos levantávamos e só sentávamos com a sua autorização.   Mas isso fazia parte dos padrões vigentes e não havia, na época, outra forma de educação possível, pelos menos nas chamadas boas escolas.

Havia aula de religião e EMC (Educação Moral e Cívica). Houve um ano letivo em que até, a música que dava início ao recreio era "Eu te amo meu Brasil" da dupla Dom  e Ravel.  Eram outros tempos, e como não havia cadernos com fotos de galãs, aprendemos facilmente o Hino Nacional nos hasteamentos da bandeira dos quais participávamos  regularmente e também por estar ele na contracapa de nossos cadernos. Ainda sobre cadernos e livros, para mim era um momento de extremo prazer ajudar minha mãe a forrar ou encapar os livros com plástico transparente. Após encapados, de vez em quando minha  mãe permitia que eu colocasse um decalque, daqueles que eram antes molhados com água....coisas do passado.

A estrutura hierárquica da escola era formada por uma madre superiora, uma diretora e uma secretária, todas freiras. Lembro da bondosa Madre Beatriz, da qual todas gostávamos, lembro da Madre Sophia Mil'homens e seu nome tão inadequado para uma freira. Lembro da terrível Irmã Alayde, diretora mais que linha dura, Irmã Emanuel, que nos preparou para a primeira comunhão e Irmã Efigênia, nossa professora de Religião. Mas nenhuma se comparava à fantástica Madre Maria Luiza.

Baixinha, miúda, de idade indefinida, ela permanecia na porta para nos receber com seu inesquecível "Bom diaaaaaaaaaaaaaa". Com olhar atento, observava tudo, principalmente o comprimento das nossas saias, que tinham um padrão estabelecido de x centímetros acima dos joelhos. Algumas colegas mais afoitas, ao sair da escola para a rua, dobravam a bainha para dentro e a prendiam com durex. Mas houve um caso que serviu de exemplo: Uma aluna chegou na escola com a saia do uniforme curtíssima e a Madre Maria Luiza não pensou duas vezes: Com as mãos desfez a bainha mandado a infratora de volta para casa para que todos na rua vissem que uma "aluna das Mercês" não podia usar saia curta. Muitos anos se passaram e mesmo depois de sair da escola, ainda passava pela Avenida Sete e via Madre Maria Luiza bem velhinha na porta observando a chegada das alunos. De vez em quando, ao encontrar o portão de entrada aberto, eu sentava num dos bancos e tentava entender, como aquele espaço tão restrito era na minha infância simplesmente descomunal...

Como a escola funciona em um convento, também havia outras freiras que lá moravam e, nos meus primeiros anos, algumas alunas internas. Não sei bem porque, mas eu morria de pena das colegas internas. Imaginava mil coisas, que eram maltratadas, que não tinham mãe, sei lá que fantasias mais. Na hora do almoço ninguém vinha buscá-las, o que me deixava de coração apertado. Lembro bem das Marias. Maria Galvão, simpática, forte, um terror no "baleado". Maria Tavares, com seu jeito de índia e comportamento super quieto. Havia ainda uma outra Maria, de cujo sobrenome não lembro, mas lembro que ela ajudava na cantina, servindo um pãozinho delícia inesquecível e um cachorro-quente feito apenas com um pão francês, uma salsicha e mostarda. Não há uma explicação possível, mas nunca, jamais houve um cachorro-quente melhor que aquele.

As professoras, geralmente mulheres, permaneciam lá durante muitos anos. Praticamente todas as professoras que tive foram antes professoras de minha irmã. Algumas até, foram professoras de mães de colegas minhas. Fazendo um esforço de memória: No primário fui Aluna de Maria Eugênia Pondé. No ginásio vieram Marise (Matemática), Dona Walquíria e Gracinha (Geografia), Dailva (Ciências), Dona Helena (Canto) , Dona Antonia (a temida e fantástica professora de Matemática), Dona Marinalva (História), Débora (Francês) ,Calíope (Desenho geométrico ), Leila (Geografia) , Eliane (História), Dona Lourdes e Marise  (Português). Houve ainda Gracinha Pessoa, professora de Português jovem que morreu num acidente. Foi  substituída por Branca de Neve Rocha que nos levou ao Forum para assistir a um julgamento para depois decidirmos se Capitu (Dom Casmurro) era culpada ou inocente. Para mim foi uma experiência inesquecível. O filho dessa professora até foi meu namorado. Lembranças, lembranças.

Havia dois professores. Essas exceções eram Professor Armando de Ciências e  o nosso professor de Educação Física, Valfrides, já naquela época um senhor de certa idade. Lembrei agora de um detalhe: Quando menstruadas, tínhamos o direito de não participar da aula de educação física. Bastava na hora da chamada, na fila, levantarmos o dedo indicador e dizer: "Dispensa mensal". Simples assim.

Um momento de grande controvérsia vivido pela escola foi a difícil transição da saia de pregas para a calça jeans, já adotada pela maioria dos colégios em meados da década de 70. Uma opção encontrada pelas freiras para que suas alunas não ficassem "iguais a todo mundo" foi optar por uma esquisitíssima calça de tergal verde, com a qual convivemos por alguns anos. Para combinar, passamos a usar uma blusa branca com o escudo da escola impresso em verde.Quando enfim, por pressão dos pais a calça jeans foi adotada, já era meu último ano lá, que coincidiu também com a abertura para a chegada dos alunos. Sim, alunos homens. Era o ano de 1976.

Sai da Merces, fiz  vestibular, faculdade, entrei para o mundo do trabalho. Com algumas das colegas eu ainda encontrava em aniversários, passeios, visitas. Então eis que um dia, logo após o carnaval de 1998, encontro na rua uma ex-colega que não via há muito tempo. A conversa foi rápida, mas sai decidida a organizar um "Encontro das Meninas das Mercês".


IV Encontro das Meninas das Mercês - nov/2004

Se fosse contar tudo que envolveu esta aventura, num tempo em que não se usava tanto a internet, não chegaria ao final desse texto. Mas fiz, não só um, mas cinco encontros. O desafio de localizar as colegas usando a lista telefônica é um capítulo a parte. Mas havia também aquelas que tinham acesso a outras e que  iam chamando, trazendo cada vez mais gente. De início, ao falar com algumas ao telefone, percebia alguma resistência. Mas com alguma paciência, consegui realizar o primeiro encontro. Como muitas alegavam não lembrar dos nomes, prividenciei crachás que foram entregues na chegada. Com o sucesso do primeiro encontro, decidi pelos encontros anuais. Cheguei a realizar um sonho, o de fazer um dos encontros na própria escola, em novembro de 2004. Foi um trabalho hercúleo, mas quarenta colegas compareceram. Recolhi dinheiro na minha conta, encomendei  buffet, lembrancinhas, imprimi texto da música "Andança" para cantarmos junto com nossa professora de canto, como fizemos na década de 60, contratei  fotógrafo. Foi um trabalho louco, mas ao final o resultado foi muito bom. 

Com a minha mudança para Brasília, tentei com o grupo que elas se organizassem para que os encontros continuassem. Tínhamos então um Banco de dados com nome, telefone e email de todas.A cada encontro aliás, eu entregava a cada uma a versão impressa do Banco de dados, para que elas mantivessem contato. Bastaria que alguém assumisse, mas isso não aconteceu. As amigas se encontram nos pequenos grupos, mas um grande encontro não acontece desde 2006.

A boa notícia é a criação do grupo de Ex Alunas das Mercês no Face. Um grupo maior, não só da minha turma mas de diversas pessoas que passaram pela escola. Acredito nesta idéia. Temos tantas boas histórias, tantas lembranças legais. Vamos tirá-las das gavetas!


Nesses encontros e nas conversas que tive com as colegas o sentimento da grande maioria em relação a  ter sido uma "Menina das Mercês" é um só: Saudade. Saudade de uma escola que nos educou e nos trouxe conhecimento, num tempo em que ainda havia espaço para a ingenuidade.
 
Garanto que se receber um convite para participar de um encontro das ex-alunas das Mercês, se for num final de semana, imediatamente, dentro do espírito do meu blog, estarei "De mala pronta!"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Dia dos Namorados



Constantin-Brancusi-O-Beijo-1909
 
Recebi de uma amiga uma mensagem mais ou menos assim: "Que importa se eu passar o Dia dos Namorados sem namorado? Afinal, eu não passo o dia do Índio com um um índio, nem o Dia da Árvore com uma árvore  nem o Dia de Finados com um defunto..." Pode ser, pode ser, faz sentido. Mas que passar o Dia dos Namorados ao lado de um bom namorado é bom demais, isso é.


Comecei cedo a comemorar o Dia dos Namorados. Ainda não tinha quinze anos e junto com as colegas de escola, fazia mil planos para o grande dia. Cada uma de nós sonhava com o bicho de pelúcia que ganharia. Sim, pois para nós, naquela época,  não podia existir presente melhor.  O primeiro bichinho que ganhei era um cachorrinho preto e branco que balançava a cabeça. Não chegou a ser uma surpresa, pois já no primeiro namorado, descobri que se para nós, mulheres,  comprar um presente para o amado é um programa e tanto, para eles pode ser uma verdadeira tortura. Assim, para minha surpresa, meu namorado pediu que eu saísse, escolhesse o presente e avisasse a ele onde comprar. Na mesinha de cabeceira durante todo o tempo que durou a nossa história, e doado depois que o namoro acabou, o cachorrinho foi testemunha de um namoro intenso entre dois librianos. Outros bichinhos vieram, até que um dia comecei a achar que eles ocupavam espaço e juntavam poeira. Talvez tenha sido nesse momento que aprendi a levantar, sacudir a poeira -  não a dos bichos - e dar a volta por cima. Mas vamos em frente.

Tive muitos namorados, e sempre gostei de comemorar as datas importantes. Mesmo quando ouvia o insuportável discurso de "sou contra o consumismo, isso não leva a nada, é invenção do comércio e outras desculpas mais, não me abalava. Sou uma lady. Assim, ouvia e ao final colocava meu ponto de vista: Não abria mão e ponto. A comemoração acontecia. Num restaurante chique, numa pizzaria , num barzinho ou  em casa curtindo uma comidinha feita com amor, ao som de uma boa música e à  luz de velas, o importante sempre, era comemorar, curtir a sensação de amar e ser amada. Antes que as filas tornassem os restaurantes inviáveis nesse dia, adorava escolher locais especiais para conhecer e jantar de mãos dadas , roupa nova, perfume e maquiagens caprichados, claro. Acho que toda mulher faz isso. Por que? Porque isso nos deixa felizes, ora. Precisa razão maior?

 Já passei Dias dos Namorados inesquecíveis, passei outros assim assim, e vivi um que foi um verdadeiro filme de terror. O que determina a qualidade do dia, para mim, é a qualidade da relação. Não adianta fazer festa com o coração apertado, a dúvida machucando, a insegurança gelando a alma.

Este ano passarei a data sem namorado. Decidi então reunir algumas amigas na mesma situação para juntas comemorarmos a amizade. Abrirei mais uma vez os salões da minha quitinete para um almoço. Cozinharemos, assistiremos a um filme, riremos muito e a vida com certeza seguirá seu curso. Ainda pretendo passar outros Dias dos Namorados bem acompanhada. Não, não sonho mais com um príncipe encantado e dispenso os bichinhos de pelúcia.  O que quero é acordar no dia 13 com o coração ainda em festa e a certeza de que estou vivendo uma boa história.