domingo, 21 de março de 2010

A educadora e o cachorro

                                                                                                
                        
Nas minhas andanças como educadora corporativa por este país afora vivi algumas situações inusitadas. Essa foi uma delas.
Interior de São Paulo, cidade cortada  por serras, clima de montanha. Na hora de buscar um hotel, deparei-me com uma dificuldade: Só havia na região hotéis fazenda, distantes, ótimos para férias e complicadíssimos para quem tem que estar no local do curso antes das oito. Após negociações com os representantes do convênio, ficou acertado que um carro da prefeitura me levaria todos os dias ao local do curso e me traria de volta, pois não havia transporte do centro para o hotel.
O hotel, um capítulo a parte. Pertencia a uma família de árabes e era ricamente decorado. Precisei negociar o preço, pois a diária ultrapassava o valor que eu recebia de verba hospedagem. Foi necessária a intermediação do gerente do Banco local para que o valor a ser pago estivesse de acordo com as minhas possibilidades. Assim, horas depois me vi instalada num quarto inteiramente decorado com tapetes, onde dormi sentido-me a própria Sherazade.
A manhã do primeiro dia de aula transcorreu normalmente. Após o almoço, no retorno, percebo um movimento diferente no fundo da sala. Um cachorro pequeno, muito pequeno mesmo havia se infiltrado na sala e, deitado no colo de uma das alunas, ouvia atento minha preleção. Apesar de considerar que os ensinamentos não seriam de muita valia para o visitante, concordei em que ele ali permanecesse desde que não criasse tumulto. Comportadíssimo, o cãozinho permaneceu até o final da aula, tendo inclusive sido alimentado com pãezinhos molhados na hora do lanche.
Após as despedidas do dia, recolho meu material, pego minha pasta e bolsa. Ao me dirigir para a saída, eis que uma das serventes da escola se aproxima correndo:
- Professora, a senhora não vai levar o seu cachorro?
- Não, não é meu cachorro, ele apareceu e as meninas pediram que ele ficasse, expliquei a ela. A moça me lançou um olhar preocupado:
- Esta rua é cheia de cachorros enormes, ele é pequeno, deve ter dias de vida... Se ficar aqui os cachorros vão estraçalhar ele... não vai sobrar nada...
Fiquei estática. Aos meus pés, uma minúscula criatura me olhava com olhos suplicantes. Ao meu lado, a servente me trazia a visão de um apocalipse canino. Pedaços do cãozinho nos dentes das feras da rua. Que fazer? Não podia levar o cachorro para um hotel luxuoso como aquele. Claro que não, seria um absurdo. Pois eu levei.
A primeira reação negativa veio do motorista da Prefeitura que me aguardava para o retorno ao hotel. Ao me ver chegar com bolsa no ombro, pasta numa mão e cachorro na outra ele me perguntou:
- A senhora vai levar isto para o hotel? Sabe que é proibido...
Expliquei a ele os riscos que a pequena criatura corria, a possibilidade de nem ver o sol nascer no dia seguinte, enfim. Nem um pouco sensibilizado, ele me levou para o hotel.
Fui entrando devagarzinho e chegando ao balcão, aproximaram-se os donos: os dois irmãos com seus bigodes a La Saddan Hussein e a irmã, alta, forte, mas dona de um olhar bondoso.
Os irmãos já chegaram gritando:
-“Non cachorro, non cachorro, non cachorro!”
A irmã se aproximou de mim, inclinou-se e examinou a criatura apavorada que eu carregava. Balançando a cabeça ela suspirou:
-“Pobrecito, pobrecito, pobrecito.”
Tentei argumentar, falei dos cachorros enormes, os irmãos falaram dos tapetes, eu falei que ele era pequeno, eles falaram que ele sujaria o hotel, falei que seria apenas uma noite, eles disseram que ele faria barulho, enfim, fui ficando sem argumentos. Mas como eu permanecia parada no meio do saguão, a irmã chamou os irmãos para o lado e os três discutiram acaloradamente. Percebi que no meu colo o cachorrinho já se arriscava a olhar o teto, os quadros, o movimento. 
Nesse momento, o irmão mais velho se aproxima. A decisão: Concordaram que eu ficasse só aquela noite com o cachorrinho, mas no dia seguinte eu teria que dar um jeito. Agradeci, feliz da vida com minha boa ação e só então lembrei que eu não entendia nada de cachorros, nunca os tive, prefiro os gatos, que aliás, eu adoro. Bem, subi para o quarto, fechei o novo hóspede no  box do banheiro enquanto eu enrolava todos os tapetes e os encostava no canto da parede. Depois desci, providenciei jornais para forrar o banheiro, improvisei uma barreira para que ele não viesse para o quarto, consegui pão molhado no leite para o jantar da “criança canina”, enfim, um trabalhão.
Após o banho, me preparo para dormir. No quarto, ocupo uma das camas de solteiro e relaxo. De repente, ouço algo estranho. Um choro? Abro os olhos com dificuldade e percebo que os gemidos vinham do banheiro. Levantei e ao abrir a porta, sou recebida com pulinhos e rabinho abanando. Minha nossa, brincar a essa hora? Lembro então que sou uma educadora e explico a aquele ser que era tarde, que ele não podia fazer barulho, que eu precisava dormir e que no dia seguinte encontraríamos um novo dono para ele. Volto para a cama, deito e os gemidos recomeçam. Levanto, retorno ao banheiro e carrego a criaturinha para o quarto. Coloco-o na outra cama. Ele se deita de barriga para cima sobre a bela colcha de matelassê e dorme imediatamente. Exausta, entrego os pontos, afinal eu também precisava dormir. 

No dia seguinte acordo e imediatamente olho para o lado. Meu companheiro de quarto se espreguiça, boceja, totalmente à vontade. Examino a cama, ufa! Limpinha. Quando descemos para o café, encontro o primeiro irmão logo na escada. Ele lembra:
- “Hoje dono, hoje dono”.
Chegando à escola, sou recebida na porta pelas alunas. Explico a situação, mostro que não tenho como levar o cachorro mais um dia para o hotel e peço que elas decidam o futuro do bichinho, já que moravam na cidade e conheciam pessoas que talvez se interessassem por ele.
Mais um dia que transcorre normalmente, o curso flui, a participação aumenta. Final do dia, quando me dirijo para a porta, quem está lá abanando o rabinho? Não, não, não. Nem pensar. Nesse momento ouço passos. Era ela, a servente.
- O porteiro disse que nasceram quatro e só sobrou este. Os outros os cachorros mataram...
Explico a ela que não tenho mais como levar o cachorrinho para o hotel, pergunto se na casa dela não há espaço, enfim. Ela me diz que já tem cachorros demais enquanto vejo o carro da prefeitura se aproximando.Ela não se dá por vencida:
- É. Então este aí tá condenado mesmo... O cachorro preto já tá rondando a escola, olha ele ali.
Olhei na direção indicada e vi um cachorro preto enorme e magro. Ele para no outro lado da rua enquanto alguma coisa pequena se esconde atrás de minhas pernas. O motorista me cumprimenta e abre a porta. O cachorro preto atravessa a rua lentamente e se aproxima, língua de fora, ameaçador. A servente balança a cabeça e suspira. Pego o cachorrinho no colo e entro no carro.
Nem precisa dizer como fui recebida no hotel. Parecia que o mundo ia se acabar. Expliquei para a irmã toda a história, que o cachorrinho era um sobrevivente, que eu precisava de mais tempo para arrumar um dono, perguntei se ela não conhecia ninguém... Ganhei mais um dia, mas sabia que não haveria outro.
No dia seguinte, ao chegar à escola, uma surpresa me aguardava. Estávamos usando uma sala em uma escola de ensino fundamental e a história do cachorrinho abandonado havia se espalhado. No lado de fora da sala, uma mãe me aguardava.
- Professora, por quanto a senhora vende seu cachorro? Minha filha está doida por um cachorrinho e se a senhora vender...
Nem precisa dizer da minha felicidade. Entreguei o cachorrinho para a menina, que imediatamente o carregou, enchendo-o de beijos. Todas as minhas alunas vieram se despedir dele, a servente veio correndo ver a cena e, no final do dia, voltei para o hotel aliviada. Aos três irmãos que aguardavam minha chegada no saguão, contei que o antigo hóspede havia finalmente encontrado uma família.

2 comentários:

  1. Eu adoro essa história do cachorro!!!!!!!! hehe!

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  2. Pois é,

    apesar de gostar muito mais de gatos, nãotive coragem de abandonar um filhotinho sabendo que suas chances de sobrevivência seriam mínimas.
    Acredito que aquela família amorosa está com ele até hoje e que ele vive seguro e feliz.

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