segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Sobre ídolos e fãs

                                                                                                                  
     Se formos procurar no dicionário o que é fã, vamos encontrar “admirador exaltado”. Aliás, o fã e o fanático, às vezes caminham juntos.Só às vezes.
       Na minha adolescência, nunca tive ídolos. Via amigas e colegas suspirarem por cantores e artistas mas eu, sinceramente, gostava de vários deles, mas nunca de forma avassaladora. Jamais colei a foto de quem quer que fosse nos meus cadernos e pastas. Não havia cadernos com fotos de artistas, isso só veio depois. Sendo assim, meus cadernos ostentavam na capa mensagens cívicas como exigia a época e nos verso,o que se via era o Hino Nacional. Inclusive, procurando na rede foto de um desses cadernos, descobri um blog que é uma verdadeira pérola: Recomendo uma visita ao blog http://www.carissimascatrevagens.blogspot.com. A pesquisa, os textos e as imagens são  verdadeiros mergulhos no passado.


    Bem, mas o tempo passou, foi-se o ginásio, o segundo grau, e eis que a tão sonhada universidade chegou. Comecei a trabalhar no mesmo ano em que passei no vestibular. Um emprego muito legal, diga-se de passagem:Fui ser vendedora da H. Stern do Aeroporto de Salvador.
   Somando o salário e as comissões, dava para pagar a faculdade e para bancar meus maiores objetos de desejo na época: os discos.


   Era o ano de 1979 e meu gosto musical havia se ampliado bastante. Além dos clássicos da MPB e das musicas que ouvia no radinho de pilha,  eu andava interessadíssima na música produzida na América do Sul. Neste movimento, curtia os shows do Grupo Tarancón no Teatro Vila Velha. Como nos divertíamos nesses shows! Músicas do folclore boliviano,  tais como "Senhora Chichera", "La Mariposa", "Boquita de Cereza", "Canción y Huayño" e "Tinku" além de composições do próprio grupo com arranjos interessantíssimos. Lembro que um dos integrantes do grupo começava a pintar um painel no início do show e ao final, o painel estava pronto. Andei fuçando na rede e encontrei muita coisa desse grupo, mas o que me interessa são as canções da primeira formação do Tarancón. São  lindas e para mim, muito marcantes.

Além do Tarancón, eu ouvia nas festas da  faculdade muitos artistas novos. Entre eles uma cantora me marcou: A argentina  Mercedes Sosa.

Foi um caso de paixão logo na primeira audição. Assalariada, podia me dar ao luxo de comprar vários discos, entre eles uma preciosidade: A Arte de Mercedes Sosa. Esta série consistia em dois discos, o que dava em torno de vinte e quatro músicas, todas tocantes, poéticas, fortes: Volver a los 17 (adoro!), Gracias a la Vida, Los Hermanos e muitas outras. Motivo de orgulho, eu costumava levar meu álbum duplo para a casa das amigas, onde o ouvíamos acompanhando a letra das canções no encarte.
   A vida seguia seu curso normal, até que um dia nos chega a notícia bombástica: Mercedes Sosa se apresentaria em Salvador. Dá para imaginar o reboliço que foi? Não se falava em outra coisa, e eu contava os dias para o show. Eu só esqueci um detalhe: Eu trabalhava das três da tarde às nove da noite e o show seria num dia de semana.
Bem,meu entusiasmo era maior que tudo e nem me passava pela cabeça a possibilidade de não ir. Primeiro tentei trocar de turno com as colegas da manhã. Casadas e mães, nenhuma delas aceitou minha proposta apesar de meus veementes apelos. A solução seria pedir ao chefe para faltar no dia. Como já disse, era o meu primeiro emprego e eu não tinha  nem maldade nem desconfiômetro. Imaginava que a conversa com o chefe seria uma simples formalidade. Afinal, o que importava o trabalho diante da realização do meu sonho?
   Meu chefe era uma pessoa bondosa e educadíssima. Angolano, já havia sido gerente em outras filiais. Ouviu minha história com atenção e respeito. Ao final, disse-me que o que eu estava a pedir não seria possível, imagina se todos que aqui estão resolvem que querem ir a shows, Dona Vânia?
   Sai da sala anestesiada, pois até então via o trabalho como possibilitador e não como impedimento para o que quer que fosse.Foi o primeiro não que recebi no trabalho. No dia do show apesar de muito triste, trabalhei normalmente, imaginando  como estariam se divertindo os meus amigos.
   No dia seguinte, estou eu trabalhando, e por um instante fiquei sozinha na loja. Ao arrumar uma das prateleiras, ouço às minhas costas um  buenas tardes numa voz grave. Virei-me para atender e estaquei, completamente paralisada: Em pé na minha frente, sorrindo,estava Mercedes Sosa.
  Eu não esbocei qualquer reação. Ela me cumprimentou de forma natural. Mas para mim,o tempo tinha parado. Devem ter sido segundos, até que eu comecei a falar sem parar. Falei das músicas que gostava, dos discos que tinha, de como gostávamos dela no meu grupo e, até mesmo que meu chefe não permitira minha ida ao show. Ela ouviu tudo com a maior paciência. A uma certa altura da conversa, ela perguntou meu nome e o que ele significava. Expliquei que Vânia  na verdade é um apelido de "Ivan". Vem do russo antigo, e quer dizer "presente de Deus". Ela achou muito interessante. 

   Depois de algum tempo, chegaram pessoas da produção do show e ficaram ali, conversando e olhando as vitrines. Na despedida, agradeci e  falei que ela era linda. Ela sorriu e disse que não, que eu era linda, e que eu não ficasse triste, pois ela ainda faria muitos shows e num deles, certamente eu poderia ir.
    Então, as duas mulheres se despedem na porta da loja com um abraço afetuoso que uma delas até hoje não esqueceu.
   E de fato elas se reencontraram. Não mais em Salvador, não mais numa loja de aeroporto. Vinte e nove anos depois, a moça que ficava atrás do balcão aguarda ansiosa surgir no palco de um teatro em Brasília a mulher de sorriso largo e voz grave. Mas ela não veio. Não aquela.

    Na platéia lotada a expectativa é imensa. Então, amparada pelos seguranças, surge uma mulher idosa, que se locomove com dificuldade. As palmas e assobios explodem. Sem ensaio prévio, todos se levantam em sinal de respeito e admiração. A moça que trabalhou na H. Stern constata a ação do tempo não só na cantora, mas nela própria. Foi-se a ingenuidade, veio a sabedoria. Contabiliza as perdas e ganhos, sonhos, esperanças, recomeços.

   O show começa. Gracias a la vida, entoa a cantora, e a moça suspira feliz e agradecida por tudo que viveu. Yo tengo tantos hermanos, sim, pensa a moça, tenho amigos e amigas queridos, meus irmãos de coração. El tiempo passa...Sim, pensa a moça, e que bom que ele passa, que crescemos e nos reinventamos a cada dia. Sólo le pido a Dios que el dolor no me sea indiferente, que la reseca muerte no me encuentre vacío y solo sin haber hecho lo suficiente. Sim, sim. Que possamos um dia partir desta vida com a sensação de ter vivido uma vida com sentido, concorda ela. Cambia, tudo cambia. Tudo muda, certamente, aplaude feliz a moça.
     As canções se sucedem. Simpática, a cantora conversa com a platéia após cada música.O final do show se aproxima. Mercedes Sosa faz um pausa, suspira. Olha para a platéia e sorri. Sua voz grave inunda o teatro:Volver a los 17... Até então só emocionada, a moça, que um dia contou que seu nome é um apelido de Ivan, agora chora convulsivamente. Percebe que ao seu redor são muitas as pessoas que enxugam os olhos com discrição, ou que como ela, choram abertamente. Se va enredando, enredando...não só o musgo na pedra, mas todos os seres humanos na corrente da vida, se enredam, desenredam, cortam e criam laços. Vinte e nove anos se passaram desde aquele encontro, pensa na platéia com o rosto banhado em lágrimas, a mulher que um dia foi uma moça que queria ir a um show. No palco, última música, Mercedes alerta: Mas é preciso ter força, é preciso ter raça é preciso ter sonho, sempre... Retirada às pressas do palco, aparentando um mal estar, a cantora não mais retornou. A moça, no fundo do seu coração, sabia que nunca mais a veria.

      Mercedes Sosa morreu aos 74 anos em Buenos Aires, pouco mais de um ano após o show em Brasília. A cantora havia trabalhado intensamente até poucas semanas antes de sua morte. Em 2008, havia dito que continuaria cantando "até os últimos dias", como uma cigarra. Deixou uma legião de fãs espalhados pelo mundo. Entre eles,  uma mulher que esperou vinte e nove anos para enfim realizar o sonho de ver no palco aquela, de cujo talento e generosidade ela sempre será fã.












quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Sobre Rodas

Era um desejo antigo, o medo também.
A vontade era enorme, a resistência também.
Mas um dia, dia que foi hoje, eu abri as minhas asas.
Dei a partida num motor há muito parado.
Com os devidos cuidados, fui saindo de mansinho.
Olhei para os lados e me encontrei sorridente.
O coração mudava a toda hora de marcha.
Sob o meu comando, fui vencendo trajetos.
Esplanada e Ministérios,
palácios e árvores.
Retas e curvas,
subidas e descidas.
Ao parar no estacionamento do trabalho, percebi que chegou a hora.
Desliguei o motor e no silêncio ouvi a minha voz: Consegui!


                                       
                                                                                  05.01.2011