sexta-feira, 22 de julho de 2011

Na passarela, Miss...

Amanhã será realizado o concurso de Miss Brasil.

Para a maioria das pessoas vai passar batido, afinal, além dos familiares e daqueles que realmente curtem concursos de beleza, quase ninguém mais lembra de assistir a um longo certame com direito a desfiles, trajes belos e outros nem tanto e, claro, alguns lances divertidos. Isso hoje, mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que os concursos de Misses tinham o poder de parar o país.

Muito cedo os concursos de Misses entraram na minha vida. Para ser mais exata, assim que eu nasci.

Ano de 1959. Pais de uma menina, meus pais aguardavam ansiosos a chegada de um menino. Num tempo em que não havia ultrassonografia, os palpites todos seguiam a linha do senso comum. Assim, meus pais escolheram um nome para o filho que segundo eles acreditavam, estava a caminho: Luiz Armando.
Bem, no dia 06 de Outubro...cheguei!

Então o que fazer? Como nasci no Hospital Português, dirigido por freiras, uma delas  perguntou a minha mãe o nome da criança. Sinceríssima como sempre, minha mãe respondeu que haviam escolhido apenas um nome masculino e só agora ela iria pensar num nome para uma menina. A freira, solícita e preocupada comigo, trouxe algumas revistas para quem sabe, dar alguma ideia de nome para a recém nascida. 

Vânia Beatriz, Miss Minas Gerais 1959
Bem, minha mãe  folheou várias revistas, até que em uma delas ela encontrou uma reportagem sobre a Miss Minas Gerais daquele ano. Ela se chamava Vânia Beatriz.

 Minha mãe gostou do "Vânia " e se deu por satisfeita. Nisso volta a freira, ansiosa pela definição. Nome anunciado, a freira balançou a cabeça, contrariada: "Mas não existe nenhuma santa com este nome! Não existe Santa Vânia! Pobrezinha da criança, não vai ter a proteção de nenhuma santa! Vai ser uma criança desprotegida!

Sem querer arcar com o ônus de tais presságios, minha mãe pegou as revistas de volta, dessa vez para encontrar um nome que combinasse com "Vânia". A freira tentou convencer minha mãe a utilizar o "Maria" , categoria Master em matéria de proteção, como segundo nome. Só que minha irmã era Maria da Graça e minha mãe não quis repetir. Depois de várias tentativas, foi escolhido o "Lúcia", nome de santa e que , prefiro acreditar, fez de mim uma pessoa feliz e protegida.

Bem, mas voltando aos concursos, lembro de um concurso de Miss que foi um verdadeiro acontecimento na Salvador da época. A Bahia e o Brasil viviam uma espécie de frustração em virtude de uma Miss Brasil muito querida ter sido preterida por um detalhe mínimo: as tais duas polegadas.

Martha Rocha
Aos 18 anos, Martha Rocha participou do concurso Miss Bahia, venceu e logo após tornou-se Miss Brasil. Em Julho de 1954, Martha chega aos Estados Unidos e pesquisas já a consideravam eleita a Miss Universo. Martha ficou em 2º lugar e diz a lenda que a perda do o título de Miss Universo para a americana Miriam Stevenson se deveu a duas polegadas a mais nos quadris. O segundo lugar lhe rendeu a  fama absoluta. Depois do concurso, Martha Rocha tornou-se referência nacional de beleza.

Apesar de não ter levado o título, Martha Rocha era um dos orgulhos da Bahia. Eis então que em 1968 outra Miss, por coincidência também Marta, uma professora de inglês, acabou trazendo para a Bahia o sonhado título de Miss Universo.

Naquela época, os concursos de Misses eram verdadeiros acontecimentos. Havia torcidas, mobilização, palpites. As transmissões via Embratel não eram ainda uma realidade e as torcidas acompanhavam todo o concurso pelo rádio. Era muita emoção. As revistas O Cruzeiro, Manchete e Fatos e Fotos faziam inúmeras reportagens sobre o tema e os comentaristas escreviam artigos louvando os dotes desta ou daquela candidata.

Nos concursos havia desfile em traje típico, traje de gala e maiô. Havia uma musiquinha, que descobri há pouco tempo chamar-se "Canção das Misses" , tema dos concursos de Miss Brasil. Marcas registradas:  Os maiôs Catalina, O Pequeno Príncipe, livro preferido de nove entre dez Misses, a figura hilária da "Mãe de Miss", criaturas sempre prontas para armar barracos em defesas de suas filhas, o parecer dos jurados , "Todas são lindas, só pode escolher uma?". Não sei se é verdade, mas vem dessa época a história de uma Miss que,  indagada sobre o seu hobby preferido, não pensou duas vezes: "Eu tenho dois, um rosa e um azul".

No ano em que Marta Vasconcelos foi eleita, lembro de ter tentado ficar acordada, junto com meus pais, que torciam colados no rádio transglobe Philco. Só que os concursos de Miss Universo eram todos realizados nos Estados Unidos, e feitas as adaptações de fuso horário, terminavam muito tarde. A uma certa altura entreguei os pontos e fui dormir, sabendo apenas que a minha conterrânea estava entre as 15 finalistas.

Marta Vasconcelos

No dia seguinte acordei e encontrei meus pais na maior alegria. Tínhamos uma Miss Universo! Na Salvador de 1968, ter uma baiana como representante da beleza máxima era muita coisa.

Lembro da chegada de Marta, que, recebida com todas as honras, desfilou em carro aberto sob uma chuva de papel picado.  Com coroa, manto e cetro, ela acenava para uma multidão que cantava uma marchinha especialmente composta para a ocasião e que tocava no rádio a toda hora:

Foi preciso outra Martinha,
sem muitas polegadas afinal,
pra trazer pra baianinha rainha,
o trono da beleza universal.

Todo o Brasil está pulando de alegria,
Martinha, Martinha da Bahia!

Algum tempo depois, a TV Itapoan divulgou o vídeo do concurso e pudemos ter acesso às imagens, principalmente do instante do anúncio do resultado. Encontrei na net este vídeo, verdadeiro mergulho no passado. Convém lembrar que assistíamos com tradução de um locutor daqui, que também emitia seus comentários. Observando esse video pode-se notar que não existia ainda a padronização da beleza, cada uma tinha seu jeito de ser, sua singularidade. Na época, a beleza tinha que ser natural mesmo, não eram admitidas cirurgias plásticas nem outros artifícios.

 O vestido usado no concurso foi exposto numa loja da principal rua do comércio de Salvador, a Av. Sete de Setembro e claro, minha mãe me levou para vê-lo. Era um fascínio,eu nunca tinha visto tanto luxo num vestido só. Algum tempo depois, a nossa Miss se casou levando para a porta da igreja centenas de pessoas.

Vera Fischer
Os concursos de Miss Brasil e Miss Universo do ano seguinte eu também acompanhei. Afinal, Miss é Miss até passar a faixa e todos queriam saber quem sucederia a nossa representante. No mesmo ano, ganhei de minha madrinha uma boneca e escolhi para seu nome o da nova Miss Brasil, uma catarinense que, nem sonhávamos na época, ainda daria muito o que falar: Vera Fischer.

O tempo passou, mudamos nós, mudaram os concursos. As top models passaram a ser o padrão ditado de beleza e os concursos de misses já não são tão atrativos. Arrisco dizer que se tornaram até meio bregas. Outro dia, passeando pelos canais de TV, descobri um concurso apresentado por Adriane Galisteu. Extremamente parecidas, e, na sua maioria adeptas do silicone, as moças desfilavam com aquele andar de modelos de passarela. Outros tempos, sem dúvida.

Volto a pensar nos concursos de outrora e me veio uma curiosidade: O que terá acontecido com aquela moça, que um dia saiu de Salvador para vencer um concurso nos Estados Unidos, desbancando moças lindas vindas de todas as partes?

Pesquiso aqui e ali e afinal encontro. O resultado me deixou muito feliz.
Como diria  o Pequeno Príncipe: “As estrelas são todas iluminadas... Será que elas brilham para que cada um possa encontrar a sua?”
Pelo que li, Marta encontrou um jeito novo de brilhar.

         MARTA VASCONCELOS Miss Universo 1968

Formou-se em Psicologia na Bahia e foi uma integrante ativa da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Em 2000, migrou para os Estados Unidos, onde obteve mestrado em Saúde Mental e Aconselhamento pelo Cambridge College.

Hoje, a ex-Miss Universo continua bela e elegante, mas exibe garras afiadas em defesa de vítimas de violência doméstica no Estado de Massachusetts, muitas delas imigrantes brasileiras. Só este ano, ela já recebeu dois prêmios pelo trabalho que desempenha numa organização não governamental de apoio às comunidades de língua portuguesa.

“Ter sido Miss Universo será sempre um orgulho pra mim, uma massagem no meu ego. Mas o reconhecimento pelo trabalho de combate à violência doméstica tem um valor especial. É uma atividade em que, de fato, eu consigo fazer o bem para outras pessoas.”



(Fonte: Blog do Paulo Nunes)






domingo, 17 de julho de 2011

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