sábado, 7 de maio de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
A princesinha come-come
(Para os queridos colegas da Dipes/Diage)
Num reino distante, vivia uma linda princesinha. Ela era doce, alegre e seus cabelos formavam lindos cachinhos dourados. Ela se parecia com as outras princesas em muitos aspectos. Mas tinha um, que era diferente.
Enquanto as outras princesas gostavam de passear pelo bosque, colher flores, bordar e tocar harpa, a nossa princesa gostava de uma coisa: comer. E muito. Grandes pratos de comida, sanduíches estratosféricos, sorvetes e Milk shakes duplos. Por causa disso, sem que ela soubesse, seus súditos a chamavam de “princesinha come-come”.
Num dia em que todos no castelo se preparavam para uma grande festa, a princesinha acordou atrasada. Quando chegou à cozinha não havia mais ninguém e o que é pior, ela não encontrou nada para comer.
A princesinha ficou preocupada: como iria fazer para conseguir comida? Já sei, pensou ela, vou ter que pedir ajuda e se dirigiu para o grande salão.
Antes de chegar ao salão ela encontrou um nobre fidalgo. Ele era uma pessoa querida por todos e sempre estava pronto para ajudar.
- Fidalgo! Fidalgo! Por favor, me ajude! Estou com fome e não sei onde encontrar comida!
O fidalgo olhou para a princesa e ficou pensativo.
- Alteza, eu adoraria ajudar, mas... É que estamos organizando esta grande festa e todo o orçamento está sob minha responsabilidade. Neste castelo ninguém gasta nem uma moeda de ouro sem me consultar, disse ele, com uma pontinha de orgulho.
- Mas fidalgo, estou com fome! Gritou a princesa. Por favor, me ajude.
- Nobre senhorita, comprometo-me a ajudar assim que me reunir com os cavaleiros, afinal, estou também organizando uma competição... e foi saindo.
A princesa saiu desanimada. Sua fome só aumentava. Comida, comida, comida, comida, pensava distraída quando esbarrou numa das damas do castelo.
- Nobre dama, que bom encontrá-la! Preciso de... começou a princesa. Só então ela notou que havia algo diferente com a dama. Ela usava vários agasalhos, um gorro, cachecol, grossas meias e luvas, apesar do lindo dia de sol que estava fazendo. A dama parecia estar com muita pressa:
- Princesa, perdoe-me, estou com muita pressa, preciso me enrolar nos meus cobertores, falou a dama, aflita.
- A senhora está com frio? Por acaso está doente? Perguntou a princesa.- Não, princesa. Mas é que com o frio que está fazendo, com certeza em breve vai nevar. Sua Alteza deveria procurar o Visconde, disse a dama enquanto se afastava rapidamente.
Ah! O Visconde era uma das pessoas mais queridas do castelo. Estava sempre sorrindo, mostrando suas lindas covinhas no rosto. A princesa foi correndo ao seu encontro:
- Senhor Visconde, senhor Visconde!
- Linda princesa, em que posso ajudá-la?
- Comida, comida, comida, comida... repetia a princesa sem parar.
- Hum, deixe-me ver. Disse o fidalgo. Estou preparando a divulgação desta festa. Desenhei alguns cartazes, pensei também em fazer uma filmagem...Será que poderia divulgar também este fato, a sua fome?
- Como? Eu preciso é de comida e não de divulgação, disse a princesa.
- Mas a fome é em si um fato relevante, insistiu o Visconde, poderíamos desenhar uma enorme boca....Afinal, numa comunicação eficaz precisamos...O Visconde nem percebeu que a princesa foi saindo de fininho...
Que fazer? A princesa decidiu descer para o pátio, com certeza lá encontraria alguém para ajudá-la. Nem bem chegou ao pátio e se deparou com sua tia, que carregava uma mala redonda, destas de carregar chapéus.
- Tia, tia, me ajude, por favor. Estou sem comer até agora, e não sei onde conseguir comida.
Sua tia, que era muito bondosa, lhe deu um abraço e disse:
- Minha querida, infelizmente hoje não posso ajudar. Eu já tinha marcado esta viagem, e, como você pode ver, estou de mala pronta. Por que você não procura ajuda com o Conde?
Boa idéia! O conde era conhecido como uma pessoa muito boa, com certeza ele iria ajudá-la. Foi em busca do conde, e encontrou-o às voltas com os escudos e armaduras da cavalaria. Ela expôs a ele seu problema. O conde suspirou:
- Então. Por acaso Sua Alteza planejou acordar tarde e sentir fome a esta hora?
- Claro que não! Respondeu a princesa confusa.
- Este é o problema deste castelo! Ninguém planeja nada! Onde já se viu? Tinha que planejar! Agora quer que eu consiga comida! Assim não dá! Veja meu problema: chamaram cavaleiros demais e agora não tem armadura para todos. Ninguém planejou, não planejam. Como é que eu vou dar jeito agora?
A princesa desistiu e foi saindo de fininho. A condessa que vinha chegando, veio ao seu encontro:
- Princesa, ouvi sua conversa com o conde. Posso ajudá-la?
- Viva! Viva! Gritou a princesa, já imaginando as deliciosas iguarias que iria saborear.
- Vamos ver se entendi, disse a condessa. Você acordou tarde.
- Sim, sim, disse a princesa.
- Foi até a cozinha e não achou comida.
- Isso, isso, isso, disse a princesa empolgada.- E não havia ninguém para ajudá-la.
- Certo! Gritou a princesa.
- Então, se é assim, “we have a situation”, disse a condessa. Posso ajudá-la.
- Oba, oba, oba!
- Estou chegando da vila, tenho aqui comigo um delicioso chá de asas de dragão, bifes de serpentes e pão preto.
- Eu quero Cheeseggburger, sanduíche de bacon, brigadeiro, Milk shake, pizza, sorvete!
- Mas Sua alteza precisa cuidar da sua qualidade de vida... Começou a condessa
Não gosto de nada disso! E saiu correndo pelos jardins.
A princesa correu, correu, correu até que ouviu que alguém a chamava.
Olhou para trás e percebeu que embaixo de uma árvore estava um grupo de damas reunidas. E o que era melhor: Estavam fazendo um picnic. Entre elas, estavam algumas de suas primas.
Uma delas, a que a chamara, perguntou:- Aonde vai com tanta pressa?
A princesa contou sua história e sua prima a tranquilizou.
- Fique conosco: temos pão, queijo, frutas, mel, bolos e doces.
A princesa não pensou duas vezes: serviu-se de pão com queijo ao mesmo tempo em que enchia a mão de uvas verdinhas, deliciosas.
Sua prima, que aproveitava para brincar com sua linda filhinha, ria da princesa:
_ Cuidado, não vá se engasgar.
Outra prima sorriu para ela:
_ Só agora fiquei livre. Sabe como sou, eu que cuido das audiências do rei, e enquanto elas não acabam não tenho descanso.
A outra prima respondeu:
_ Sempre nos encontramos quando temos uma folga e fazemos este picnic. Você sempre será bem vinda.
A princesinha sorriu feliz, limpando as bochechas sujas de bolo e mel. Passaram o resto da tarde juntas, até a hora em que todas foram se preparar para a grande festa da noite. Para a felicidade da princesa, a mesa estava farta e cheia das coisas que ela mais gostava. Foi uma noite muito feliz!
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Mãe, só tem uma!
Durante estas férias relaxantes, recebi a visita de minha mãe. Mãe é mãe, claro, mas a minha foge um pouco ao padrão convencional. Oitenta e dois anos, muitíssimo disposta e alegre, estar com ela sempre é divertido. Nessa sua segunda visita, ela gostou ainda mais de Brasília. Como minha micro casa está bem organizadinha agora, nós pudemos também curtir estar em casa e relaxar. Foram só cinco dias, mas o suficiente para recarregar minhas energias de filha.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Quatro anos em Brasília
![]() |
| conjuncoesdavida.blogspot.com |
Tentei começar de outra forma, mas não tem jeito, tem que ser assim: Parece que foi ontem e parece mesmo.
No dia 27 de Abril de 2007 acordei ansiosa. Afinal, mesmo tendo uma convivência de 15 anos com a cidade e grandes e queridos amigos aqui, uma coisa é viagem a serviço e outra coisa, bem diferente é se mudar com mala e sonhos.
Para evitar choro, não aceitei nenhum dos bondosos oferecimentos para me levar ao aeroporto. Queria que minha nova vida tivesse início com o som da batida da porta do táxi. Meus pais, imagino com que esforço, desceram comigo no elevador e ficaram ali, obedientes e quietinhos por trás das grades do prédio. O motorista acelerou e meus pensamentos voaram.
A decisão de mudar para Brasília veio após muita reflexão. Minha vida precisava de mudanças. Eu era feliz em Salvador mas minha vida era extremamente previsível. Eu estava insatisfeita pessoal e profissionalmente. Então, num domingo qualquer, numa dessas tardes de ruas calmas, andando por uma praça em Salvador, senti uma angústia forte e dentro de mim uma voz falou: Preciso de uma nova vida. Aí, comecei o processo de construção.
Mas voltando ao dia 27 de Abril, no aeroporto tive a surpresa de encontrar duas amigas queridas que não se conformaram e foram se despedir de mim: Mamy e Ivone. Tomamos café e demos boas risadas. Recebi também um abraço da mãe de Carlos Alberto que levou uma encomenda para que eu entregasse a ele, já que aqui em Brasília ele, meu amigo há quase trinta anos, estaria me esperando como sempre. Isso, era o que eu achava.
Chegando ao aeroporto da cidade por mim escolhida para a minha nova vida, pego as malas e me encaminho para a saída. Jamais poderia imaginar o que me esperava.
Após chegar ao saguão, percebo que ao invés de um amigo, havia uma comitiva: Carlos, Humberto, Soraya e Regina. Que surpresa boa! Carlos, bancando o fotógrafo, tira, de forma bem teatral várias fotos da minha chegada. Depois, me entrega uma peruca azul garimpada creio eu, em alguma performance teatral. As meninas me entregam um belo buquê de girassóis, minhas flores preferidas. Imediatamente coloquei a peruca. Precisa dizer alguma coisa sobre as caras de espanto das pessoas em volta?
Depois dos beijos e abraços, Carlos Alberto como de vez em quando dizia, nos chamou: Vamos pegar a limousine. Esta era a forma como ele se referia a vários carros que já teve. Fomos saindo e quando de repente, na calçada... Havia uma limousine! Eu não podia acreditar, uma limousine com motorista e tudo. O motorista aliás, gentilíssimo, estava do lado de fora com a porta aberta nos aguardando. Dentro do carro, que parecia mais um salão de festa, cidra e taças para brindar a minha chegada. O motorista havia na véspera conduzido a Miss Brasil num tour por Brasília e eu estava ganhando de presente dos meus maravilhosos amigos o mesmo tour de presente.
E que tour era esse? Ora, passeio por Brasília e seus pontos turísticos com direito a parada para fotos. Foi hilário. A cada parada, descíamos todos, ante o espanto dos moradores e demais turistas. Que celebridades eram aquelas, passeando de Brasília a bordo de uma limousine? Na parada na Ponte JK então, foi um frisson. Esqueci de contar, que para dar um toque ainda mais irreverente, no DVD do carro, um show de ... Reginaldo Rossi, cantor que sempre animava nossas festas em Salvador quando queríamos dar um toque brega. Nem isso faltou.

Rodamos, rodamos, rodamos. Depois fomos devolver a limousine e procurar algum lugar para comer. Nossa noite acabou em pizza. Por mais que tentasse, nunca poderia agradecer o suficinte a forma carinhosa e surpreendente com que fui recebida. Sabendo que era um dia muito especial, meus amigos inovaram na recepção, que foi alegre e descontraída.
Ter tido tão calorosa recepção certamente influenciou a minha chegada. Nos dias que se seguiram tive uma adaptação fácil, sem estranhamentos. Gosto de morar aqui. Gosto do silêncio da cidade, da programação cultural, de andar no Parque, do lugar onde moro. Tinha alguns amigos aqui e fiz novos, vivi histórias, me reinventei. Aqui também decidi escrever as crônicas, criei o blog, voltei a dirigir. Conheci grupos, participei de várias atividades onde conheci pessoas novas. Profissionalmente, nestes quatro anos fiz trabalhos novos e desafiantes, aproveitei todas as oportunidades que surgiram e aproveitarei as que ainda virão. Estou feliz.
Sou muito grata a todas as pessoas com quem convivo e que de certa forma constituem a minha família em Brasília. Em relação a isso, no filme Sob o sol da Toscana, há um momento em que a protagonista percebe que uma família não precisa ser formada por pessoas unidas por laços de sangue. Numa bela cena, estão reunidas numa mesa pessoas de origens distintas e que acabaram formando uma família. Aqui, assim como no filme, tenho amigos de diferentes procedências e nos reunimos sempre. Estar sozinha aqui é um fato, mas em nenhum momento me sinto solitária. Não acho as pessoas de Brasília diferentes das demais, nem tive qualquer problema de adaptação. Esta cidade, com seus grandes espaços, linhas retas e algumas curvas, definitivamente me conquistou.
Mas voltando ao dia 27 de Abril, no aeroporto tive a surpresa de encontrar duas amigas queridas que não se conformaram e foram se despedir de mim: Mamy e Ivone. Tomamos café e demos boas risadas. Recebi também um abraço da mãe de Carlos Alberto que levou uma encomenda para que eu entregasse a ele, já que aqui em Brasília ele, meu amigo há quase trinta anos, estaria me esperando como sempre. Isso, era o que eu achava.
Chegando ao aeroporto da cidade por mim escolhida para a minha nova vida, pego as malas e me encaminho para a saída. Jamais poderia imaginar o que me esperava.
Após chegar ao saguão, percebo que ao invés de um amigo, havia uma comitiva: Carlos, Humberto, Soraya e Regina. Que surpresa boa! Carlos, bancando o fotógrafo, tira, de forma bem teatral várias fotos da minha chegada. Depois, me entrega uma peruca azul garimpada creio eu, em alguma performance teatral. As meninas me entregam um belo buquê de girassóis, minhas flores preferidas. Imediatamente coloquei a peruca. Precisa dizer alguma coisa sobre as caras de espanto das pessoas em volta?
Depois dos beijos e abraços, Carlos Alberto como de vez em quando dizia, nos chamou: Vamos pegar a limousine. Esta era a forma como ele se referia a vários carros que já teve. Fomos saindo e quando de repente, na calçada... Havia uma limousine! Eu não podia acreditar, uma limousine com motorista e tudo. O motorista aliás, gentilíssimo, estava do lado de fora com a porta aberta nos aguardando. Dentro do carro, que parecia mais um salão de festa, cidra e taças para brindar a minha chegada. O motorista havia na véspera conduzido a Miss Brasil num tour por Brasília e eu estava ganhando de presente dos meus maravilhosos amigos o mesmo tour de presente.
E que tour era esse? Ora, passeio por Brasília e seus pontos turísticos com direito a parada para fotos. Foi hilário. A cada parada, descíamos todos, ante o espanto dos moradores e demais turistas. Que celebridades eram aquelas, passeando de Brasília a bordo de uma limousine? Na parada na Ponte JK então, foi um frisson. Esqueci de contar, que para dar um toque ainda mais irreverente, no DVD do carro, um show de ... Reginaldo Rossi, cantor que sempre animava nossas festas em Salvador quando queríamos dar um toque brega. Nem isso faltou.

Rodamos, rodamos, rodamos. Depois fomos devolver a limousine e procurar algum lugar para comer. Nossa noite acabou em pizza. Por mais que tentasse, nunca poderia agradecer o suficinte a forma carinhosa e surpreendente com que fui recebida. Sabendo que era um dia muito especial, meus amigos inovaram na recepção, que foi alegre e descontraída.
Ter tido tão calorosa recepção certamente influenciou a minha chegada. Nos dias que se seguiram tive uma adaptação fácil, sem estranhamentos. Gosto de morar aqui. Gosto do silêncio da cidade, da programação cultural, de andar no Parque, do lugar onde moro. Tinha alguns amigos aqui e fiz novos, vivi histórias, me reinventei. Aqui também decidi escrever as crônicas, criei o blog, voltei a dirigir. Conheci grupos, participei de várias atividades onde conheci pessoas novas. Profissionalmente, nestes quatro anos fiz trabalhos novos e desafiantes, aproveitei todas as oportunidades que surgiram e aproveitarei as que ainda virão. Estou feliz.
Sou muito grata a todas as pessoas com quem convivo e que de certa forma constituem a minha família em Brasília. Em relação a isso, no filme Sob o sol da Toscana, há um momento em que a protagonista percebe que uma família não precisa ser formada por pessoas unidas por laços de sangue. Numa bela cena, estão reunidas numa mesa pessoas de origens distintas e que acabaram formando uma família. Aqui, assim como no filme, tenho amigos de diferentes procedências e nos reunimos sempre. Estar sozinha aqui é um fato, mas em nenhum momento me sinto solitária. Não acho as pessoas de Brasília diferentes das demais, nem tive qualquer problema de adaptação. Esta cidade, com seus grandes espaços, linhas retas e algumas curvas, definitivamente me conquistou.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Viagem poética ao Uruguai
Desde que decidi que iria nas férias ao Uruguai, recebi muitas dicas. As percepções, no entanto, eram díspares. Uma amiga, ao saber que começaria meu roteiro em Montevidéu, perguntou curiosa: Mas onde fica isso mesmo? Já um amigo que esteve lá recentemente foi taxativo: Tudo bem, mas lá não tem nada. No entanto, fiquei totalmente contagiada pelo entusiasmo de uma colega, que se transforma ao falar da capital uruguaia. Chega a dizer que, se possível fosse, moraria lá depois de aposentada. Juntando tudo isso ao fato de ser um país que eu ainda não conhecia e mais uma promoção imperdível da Gol, arrumei a mala, dessa vez me superando: uma calça jeans no corpo e mais uma, camisetas, um casaco e várias echarpes. Chega uma hora que dá uma preguiça carregar coisas que você não vai usar e a esta altura da vida e tantas viagens depois, já tenho uma noção clara do que é preciso para passar cinco dias em um lugar.
Tudo pronto, eis que a poesia começa a entrar na história. Ao anunciar minha intenção no Facebook, meu amigo Izó me presenteia com uma poesia de um autor uruguaio que virou música de Milton Nascimento: Guardanapos de Papel. Ouvi-la me deu uma sensação boa de afeto, de simpatia por um lugar que ainda não conhecia. Cantei e assobiei a canção em vários momentos durante a viagem. Clique e se deixe levar...
http://mais.uol.com.br/view/152113
Sim, mas o que achei do Uruguai? Bem, gostei muito. País pequeno, organizado, tranquilo. Montevidéu tem ruas arborizadas, ótimas para caminhadas. Pena que muitas das pessoas que encontrei passem o tempo repetindo como numa gravação Buenos Aires é maior, Buenos Aires tem mais opções... É uma pena, mas em minha opinião, o Uruguai merece uma visita de todos aqueles que tenham olhos para apreciá-lo.
Além da capital, visitei também Colonia do Sacramento, a cidade mais antiga do Uruguai, fundada pelo português Dom Manuel Lobo para fazer frente aos espanhóis que então dominavam Buenos Aires. Por sua localização estratégica, foi um dos principais alvos das batalhas protagonizadas por Portugal e Espanha ao longo do século 17, quando disputavam a divisão das terras do Novo Mundo.
Após diversos conflitos pela posse do local, finalmente um acordo foi firmado em 1750, no qual Portugal entregava a disputada Colônia para a Espanha. Mesmo assim, missionários jesuítas discordaram do pacto, permanecendo ali até 1762, quando os espanhóis enfim tomaram o lugar. A arquitetura colonial que restou caracteriza uma fisionomia distinta e única no país: ruas estreitas de pedra iluminadas por antigos lampiões, casas cobertas com telhas de barro e decoradas com tradicionais azulejos lusitanos. Localizada a 180 Km de Montevidéu e a 50 Km de Buenos Aires, Colônia - como é simplesmente conhecida - é uma das mais importantes portas do Uruguai. Com o lema "Ia puerta está siempre abierta, entre sin fiama?' ("a porta está sempre aberta, entre sem bater"), esta pequena cidade de 20 mil habitantes recebe milhares de turistas de todas as partes do mundo. Foi declarada Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade. Outro detalhe: todos os turistas que visitam Buenos Aires reservam um dia para um passeio de Barco a Colônia, pela facilidade de acesso.

Já em Punta Del Leste, fiquei pasma com as mansões e preços praticados lá. Mas o que me fascinou mesmo foi a visita ao Casapueblo, antiga casa de verão do artista uruguaio Carlos Páez Vilaró e é agora uma cidadela-escultura que inclui um museu, uma galeria de arte e um hotel chamado Hotel Casapueblo que fica dentro da estrutura. Ele está localizado em Punta Ballena, próximo de Punta Del Este. Um dos filhos do artista, Carlos Miguel, foi um dos dezesseis uruguaios sobreviventes do acidente aéreo da Força Aérea Uruguaia Vôo 571 que caiu nos Andes em 13 de outubro de 1972.
Outra curiosidade é saber a origem dos versos Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada de Vinicius de Moraes. Amigo de Vilaró,Vinicius passou uns tempos na Casapueblo. A tal da casa, na trova improvisada pelo poetinha numa manhã diante do mar para as filhas do artista, dizia no contexto: Mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró.

Tudo pronto, eis que a poesia começa a entrar na história. Ao anunciar minha intenção no Facebook, meu amigo Izó me presenteia com uma poesia de um autor uruguaio que virou música de Milton Nascimento: Guardanapos de Papel. Ouvi-la me deu uma sensação boa de afeto, de simpatia por um lugar que ainda não conhecia. Cantei e assobiei a canção em vários momentos durante a viagem. Clique e se deixe levar...
http://mais.uol.com.br/view/152113
Sim, mas o que achei do Uruguai? Bem, gostei muito. País pequeno, organizado, tranquilo. Montevidéu tem ruas arborizadas, ótimas para caminhadas. Pena que muitas das pessoas que encontrei passem o tempo repetindo como numa gravação Buenos Aires é maior, Buenos Aires tem mais opções... É uma pena, mas em minha opinião, o Uruguai merece uma visita de todos aqueles que tenham olhos para apreciá-lo.
Além da capital, visitei também Colonia do Sacramento, a cidade mais antiga do Uruguai, fundada pelo português Dom Manuel Lobo para fazer frente aos espanhóis que então dominavam Buenos Aires. Por sua localização estratégica, foi um dos principais alvos das batalhas protagonizadas por Portugal e Espanha ao longo do século 17, quando disputavam a divisão das terras do Novo Mundo.
Após diversos conflitos pela posse do local, finalmente um acordo foi firmado em 1750, no qual Portugal entregava a disputada Colônia para a Espanha. Mesmo assim, missionários jesuítas discordaram do pacto, permanecendo ali até 1762, quando os espanhóis enfim tomaram o lugar. A arquitetura colonial que restou caracteriza uma fisionomia distinta e única no país: ruas estreitas de pedra iluminadas por antigos lampiões, casas cobertas com telhas de barro e decoradas com tradicionais azulejos lusitanos. Localizada a 180 Km de Montevidéu e a 50 Km de Buenos Aires, Colônia - como é simplesmente conhecida - é uma das mais importantes portas do Uruguai. Com o lema "Ia puerta está siempre abierta, entre sin fiama?' ("a porta está sempre aberta, entre sem bater"), esta pequena cidade de 20 mil habitantes recebe milhares de turistas de todas as partes do mundo. Foi declarada Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade. Outro detalhe: todos os turistas que visitam Buenos Aires reservam um dia para um passeio de Barco a Colônia, pela facilidade de acesso.

Já em Punta Del Leste, fiquei pasma com as mansões e preços praticados lá. Mas o que me fascinou mesmo foi a visita ao Casapueblo, antiga casa de verão do artista uruguaio Carlos Páez Vilaró e é agora uma cidadela-escultura que inclui um museu, uma galeria de arte e um hotel chamado Hotel Casapueblo que fica dentro da estrutura. Ele está localizado em Punta Ballena, próximo de Punta Del Este. Um dos filhos do artista, Carlos Miguel, foi um dos dezesseis uruguaios sobreviventes do acidente aéreo da Força Aérea Uruguaia Vôo 571 que caiu nos Andes em 13 de outubro de 1972.
Outra curiosidade é saber a origem dos versos Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada de Vinicius de Moraes. Amigo de Vilaró,Vinicius passou uns tempos na Casapueblo. A tal da casa, na trova improvisada pelo poetinha numa manhã diante do mar para as filhas do artista, dizia no contexto: Mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró.
Andei pelas ruazinhas de Colonia num dia de sol e muita calma. No último dia de minha viagem, conta fechada no hotel, saio para dar uma voltinha de despedida. Mentalmente ia cantarolando a música de Mílton, grata por mais uma viagem onde tudo deu certo. Então de repente a fachada de um restaurante me chama a atenção. Chego mais perto, e descubro que no vidro está escrito...um poema! E que poema.
O poema, dedicado ao poeta Mario Benedetti, fala da necessidade de parar, deixando por um momento nossas obrigações do cotidiano e então, olhar para si mesmo, lembrar do passado sem remorso, valorizando aquilo que de fato foi importante. Entrei no restaurante encantada. Afinal não é todo dia que se encontra um poema estampado numa vitrine. Minha viagem estava se encerrando da forma como começou, poética.
Lá dentro, ganhei de uma senhora que atendia no balcão dois cartões com poesias de Mario Benedetti. Poeta e escritor uruguaio, ele escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. Dos dois poemas que recebi, destaco Cuando éramos niños, pela sabedoria que encerra e por me fazer sair desse pequeno país envolta numa nuvem de poesia e paz.
Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.
luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era un océano
la muerte solamente
una palabra
ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en los cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.
ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.
Aeroporto, mala despachada, sinto que falta alguma coisa. Depois do café forte com uma barra de chocolate amargo, busco na bolsa uma caneta. Agora sim, levanto da mesa deixando para trás meu agradecimento bem no estilo uruguaio. Fim.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Carnaval em Minas
Passei meu Carnaval em Minas, circulando entre Tiradentes, São João Del Rey e BH. Mesmo com uma chuva que não tirou o bloco da rua em quase nenhum momento, eu me diverti bastante. Fui sozinha e pude então seguir meu ritmo, curtir as cidades e conversar muito com as pessoas, coisa que adoro. Apaixonada que sou pelo artesanato mineiro, consegui garimpar coisas muito interessantes, principalmente bordados, meu ponto fraco.
Eu havia visitado Tiradentes há alguns anos, em outro momento da minha vida. Lembro que estava a caminho das cidades históricas e em Tiradentes permanecemos apenas algumas horas, o suficiente para me deixar encantada. Desde então, acalentava o sonho de voltar com calma e andar sem pressa, a pé ou de Maria Fumaça. Decidi então vir passar o Carnaval.
Já faz algum tempo que não sei o que é viajar para lugares lotados, com gente por toda parte. Mesmo sabendo que seria o caso, resolvi vir assim mesmo e não me arrependi. Tudo bem, rodoviária lotada, gente por toda parte, engarrafamentos, mas se " a alma não é pequena", tudo acaba valendo a pena.
As cidades são bem conservadas, relativamente tranquilas, com um astral muito gostoso. Era examente isso que eu estava procurando, uma mistura de descanso e novidades. Visitei uma comunidade chamada "Bichinho", onde se encontra uma vila de artesãos que vendem seus trabalhos por um preço mais em conta. Encontrei lá uma artesã cujos trabalhos eu já havia comprado em São Paulo e Brasília. São casinhas de madeira que reproduzem todo tipo de estabelecimento. Foi muito legal conhecer alguém cujo trabalho adorna minha casa e saber toda a história da criação das casinhas.
Sobre a culinária mineira, geralmente procuro evitar os pratos da linha "Artérias em pânico", e provando aqui e ali, descobri um prato delicioso: O Ora-pro-nóbis. Na verdade, já tinha ouvido falar nesse prato pela amiga Ju, que é mineira, claro. Só que geralmente ele vem acompanhado de frango e eu pedi puro, quer dizer, as folhas, simplesmente temperadas e cozidas. Que sabor! É uma planta rica em proteínas que apresenta folhas suculentas e comestíveis e tem flores lindas que duram apenas um dia. Tem 25,4% de proteína; vitaminas A, B e C; minerais como cálcio, fósforo e ferro. Passa ao alimento bela cor verde inclusive em pão e macarrão, enriquece saladas, refogados, sopas, omeletes, tortas e o arroz-com-feijão. Descobri tudo isso na rede e procurei a receita para quem quiser se aventurar:
Frango com Ora-Pro-Nóbis
Ingredientes:
2 1/2 kg de frango picado
6 dentes alho amassados
1 colher (sopa) de colorau
1 xícara óleo de soja
2 xícaras de caldo de galinha
2 maços ora-pro-nóbis (sem talo)
Sal
Preparo:
Lave bem o frango com limão.
Além disso, pude tirar fotos com roupas de época, coisa que já fiz e queria muito fazer de novo. Desta vez, na estação de São João, andando entre trens e vagões. Até fiz uma produção em homenagem ao blog, com mala e tudo. Gostei demais. Resumindo, valeu!
Ingredientes:
2 1/2 kg de frango picado
6 dentes alho amassados
1 colher (sopa) de colorau
1 xícara óleo de soja
2 xícaras de caldo de galinha
2 maços ora-pro-nóbis (sem talo)
Sal
Preparo:
Lave bem o frango com limão.
Coloque o alho e óleo em uma panela e junte o colorau.
Refogue o frango até prefritar. Cubra com água até cozinhar bem.
Misture o ora-pro-nóbis, tampe a panela por cinco minutos sem mexer.
Sirva com arroz e angu. Rende 08 porções
Além disso, pude tirar fotos com roupas de época, coisa que já fiz e queria muito fazer de novo. Desta vez, na estação de São João, andando entre trens e vagões. Até fiz uma produção em homenagem ao blog, com mala e tudo. Gostei demais. Resumindo, valeu!
Sentimento uruguaio
Recebi de um amigo querido, ao saber que estou de mala pronta para Montevidéu. Criada por um uruguaio, Leo Masliah, sob título “Birromes y servilletas”,essa canção foi vertida para o português pelo carioca Carlos Sandroni, com o nome “Guardanapos de papel”, quase uma tradução literal da letra original.
Tem uma versão musicada de Milton também: http://mais.uol.com.br/view/152113
Sem dúvida, lindo fundo musical para meus passeios na próxima semana.
Biromes Y Servilletas
Tem uma versão musicada de Milton também: http://mais.uol.com.br/view/152113
Sem dúvida, lindo fundo musical para meus passeios na próxima semana.
Biromes Y Servilletas
En Montevideo hay poetas, poetas, poetas
Que si bombos ni trompetas, trompetas, trompetas
...Van saliendo de recónditos altillos, altillos, Altillos
De paredes de silencios, de redonda con puntillo
(..)
Andan por las calles escribiendo, y viendo y viendo
Lo que vem lo van diciendo y siendo y siendo
Ellos poetas a la vez que se pasean, pasean, pasean
Van contando lo que vem y lo que no, lo fantesean
(..)
Miran para el cielo los poetas, poetas, poetas
Como si fueran saetas, saetas, saetas
Arrojadas al espacio que un rodeo, rodeo, rodeo
Hiciera regresar para clavarlas en Montevideo
quinta-feira, 17 de março de 2011
Cinzas
Então um dia ela decidiu.
Cansada de ver no armário caixas e mais caixas com fotos de um passado que não voltaria, ela resolveu dar a este arquivo sentimental um destino. É bem verdade que as caixas já não eram tão incômodas como no princípio, quando só o fato de vê-las ali, mesmo sem abri-las, já causava uma dor enorme. Não, não era mais assim. Agora o que elas, as caixas, provocavam, era um certo desconforto, uma inadequação em estarem ainda ali, no seu armário.
Não foi surprêsa quando os muitos anos de vida em comum deram para encher uma mala de viagem de tamanho médio. Separar as fotos doeu. Nossa, como eu mudei! Lembro tanto deste dia! Este Natal foi tão feliz... Miserável, aqui ele já estava com ela e eu não sabia. Rasgar foi dando um alívio.
Querosene escorreu pelos sorrisos, manchou beijos, deformou viagens, umedeceu festas.
As primeiras chamas foram tímidas. Depois, como se solicitando permissão do universo, dominaram tudo.
Uma fogueira se formou, e ela sentiu tontura durante todo o tempo em que as chamas arderam.
Cinzas.
Como num filme as cenas se sucedem. Ela suspira. Se tívéssemos consciência de que tudo pode um dia virar cinzas, de que forma viveríamos? Como colocar no centro de nossa vida algo que pode um dia virar cinzas?
Olhando fixamente para aquele fogo, jurou que nunca mais mendigaria o amor de ninguém. Nunca mais justificaria atos injustificáveis de homem nenhum. Nunca mais se adaptaria a situações complicadas, nunca mais faria loucuras justificando-as como atos de amor. Com o mesmo ímpeto tomou outras tantas decisões, destas que nestes momentos todas as mulheres tomam, mesmo que seja para repensar depois. Tudo bem, fazia parte.
Lembrou de Cazuza. Não, raspas e restos não mais lhe interessavam.
No caminho de volta para casa, fez uma força enorme e foi olhando para o céu, lindo, azul, a brisa suave. Sentia dor nas costas e uma moleza enorme no corpo.
Cinzas.
Em casa tomou um banho purificador, perfumou-se com alfazema. Vestiu uma roupa bonita. Foi melhorando.
Em casa tomou um banho purificador, perfumou-se com alfazema. Vestiu uma roupa bonita. Foi melhorando.
Havia sentido uma enorme vontade de livrar-se de todas aquelas recordações antes de seguir para uma viagem de autodescoberta. Esperava que agora as trilhas lhe mostrassem novos caminhos. As cachoeiras, quem sabe, restaurariam sua energia. A força das águas lavaria tudo aquilo que não lhe servisse mais.
Cada vez mais ela se convencia de que ser mulher é antes de tudo, um ato de coragem.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Reflexões de uma mulher no espelho
Diego Velásquez, Vênus ao Espelho (1647)
Nunca esquecerei o olhar daquela mulher.
Aparentemente não tinha nada de especial. Meio baixinha, meio cheinha, como tantas outras.
O cabelo meio crespo e assanhado, como tantos outros.
Mas o olhar...
Ah, o olhar...
Outro detalhe que a diferenciava das outras era que ela estava nua, e me olhava com um olhar entre surpreso e feliz. Eu poderia até jurar ter visto naqueles olhos uma ou duas lágrimas. Aí notei que aquela mulher, apesar de nua, estava emocionada. Como nada dizia, tentei ler em seus olhos que sentimento seria esse, capaz de emocionar aquela mulher que me olhava nua. Primeiro seus olhos me disseram para não me preocupar, pois ela estava em paz. Depois li em seus olhos que aquela mulher havia vivenciado um rito de passagem. E que, apesar de toda a ansiedade que antecedeu esse momento, ele acabou sendo um momento imensamente feliz. Notei sua aparência cansada, e ela me acenou positivamente. Seu corpo estava cansado, mas seu coração estava leve como há muito tempo ela não experimentava.
E que som era este, vindo não sei de onde? Seria chuva?
Nesta hora, ela me sinalizou para que eu não fizesse barulho, pois não estava só. Descobri aí que o som vinha de um chuveiro. Quem se banharia lá? Nesta hora, então, eis que surge o homem com o qual ela havia dividido aquele momento.
Notei sua pele, o corpo forte, a expressão tranquila, a forma atenciosa de tratá-la e abraçá-la. Num instante em que ele se distraiu, ela me confessou que havia experimentado coisas jamais antes sentidas! Também me relatou que não havia o que temer; aquele homem, escolhido por ela para ser seu parceiro no rito de passagem, jamais lhe faria mal algum. Sensível, soube compreendê-la e, num determinado momento, afirmou ter visto sua aura nas cores azul e violeta. Selaram um pacto de amizade e, como se sabendo que será pouco o tempo do encantamento, conversaram longa e detidamente sobre suas vidas. A sensação que ela teve foi que tudo fazia parte de um roteiro de um filme e que cada um desempenhava ali um papel já traçado em algum lugar do universo.
Ela jura que saiu de lá totalmente apaixonada. Não! Por ele, não! Por ela!
Sim, porque foi grande o amor que ela sentiu ao ouvir a própria voz dizendo a ele como e onde queria que a tocasse, beijasse... O amor virou paixão quando ouviu a própria voz pedir mais e mais e mais... Ao ouvir os próprios gritos, ela soube que finalmente podia assumir o amor, que ela se amava e muito, e que, diferente de outros amores, este jamais teria fim...
Outra coisa ela me disse, mas achei difícil de acreditar. Ela jurou que, num determinado momento, enquanto ele se banhava, ao se olhar no espelho, nua, deitada naquela cama redonda, viu, como num clipe antigo de Michael Jackson, seu rosto se transformar em vários outros: viu surgirem as fisionomias de todas as suas amigas, depois viu surgirem rostos de várias mulheres desconhecidas, novas e velhas, negras e brancas, ricas e pobres. Soube então que cada mulher ao se descobrir, ao se permitir um rito de passagem buscando sua transformação, está na verdade transformando a todas as mulheres, seres ligados por um laço invisível na busca da realização, da paz, do amor...
Como já disse, nunca esquecerei o olhar daquela mulher.
Depois disto já a encontrei várias vezes, e seu olhar não mudou. É como se agora carregasse com ela uma força antes desconhecida, uma paz, uma tranquilidade... É como se soubesse que outros ritos virão, e que, a cada um deles, uma nova mulher vai surgir. Mais segura, mais consciente, mais feliz...
Mais mulher.
Uma experiência no Amazonas
Estar no Amazonas é uma experiência única.
A viagem é também para dentro: conhecemos novos sabores e paisagens, novas formas de pensar e ver o mundo. Rompemos nossos próprios preconceitos.
Manaus, cidade que tentei entender nos dois dias em que lá estive. Espalhada como os braços do rio, quente e úmida mas receptiva, acolhedora.
O encontro dos rios Negro e Solimões ensina a convivência próxima dos diferentes: Os rios correm 17 quilômetros lado a lado e não se misturam...
O curso BB Educar no assentamento, esta sim, a grande aventura.
Cinco dias sem espelho, sem celular, sem internet, sem "rádio e sem notícia das terra civilizada".
Calor de mais de 40 graus, transporte escasso, mas a turma super motivada.
Histórias de onças, comuns na região.
Uma aluna me contou que certo dia, ouviu um alvoroço no galinheiro. Pensou que fosse ladrão. Ao chegar lá, surpresa: Uma onça!
Perguntei de imediato o que ela fez. Tranquila me respondeu que após o tiro certeiro dado pelo marido, ela não pestanejou: Fatiou a invasora, fritou com bastante alho e cebola, chamou os vizinhos e fizeram a festa. Coisas da floresta...
Banhos ao ar livre. De manhã bem cedo, de biquini tomo meu banho no chuveiro do lado de fora da escola. Inesquecível a sensação, água gelada correndo sobre o corpo, tenho como cenário a floresta. Corajosa, ainda me arrisquei num mergulho no igarapé que conheci num passeio com os alunos.
Tantos sabores...
Pacu, tambaqui, pirarucu, tucunaré.
Tanto o que lembrar...
Formamos 24 alfabetizadores.
Atuei com Mariza, que só conhecia de vista e foi muito, muito legal.
Mulher guerreira, doce, séria e engraçada.
Os alunos fizeram uma apresentação para nos homenagear relatando o que o curso representou para eles.
Ficou lindo!
Algumas falas de alunos:
Marisa (agente de edemias, ou seja, analisa as placas para ver se a pessoa contraiu malária)
"Quando chego no INCRA tem gente que diz que eu não sou assentada. Só por que ando de salto alto! Pensam que assentado tem que andar sujo de terra e desarrumado. Eu não! Sou assentada mas ando nos trinque!
Olga ( agricultora, assistiu ao curso com dois tumores, levantava de vez em quando, respirava fundo. voltava)
"Professora Vânia, eu amo você muito. Vou rezar pra Deus todo dia e ele vai te fazer muito feliz"
Seu Santana (agricultor)
"Eu penso que se a gente não tem transporte melhor é porque a gente não se une".
Seu "baiano" ( motorista do ônibus que transporta os alunos, criador de abelhas)
"Quero te apresentar... minha abelha rainha" - ao me apresentar a sua esposa.
Saudades de todos.
Tarumã-Mirim (AM), agosto de 2009
domingo, 13 de março de 2011
Parabéns para o Blog!
Queridos amigos e amigas,
Hoje é um dia muito especial. Há exatamente 1 ano, nascia o http://www.todemalapronta.blogspot.com/.
Inicialmente, a idéia era falar apenas sobre viagens, mas as histórias teimavam em sair. Os personagens reais ou quase, reclamavam seu espaço, queriam a todo custo vir a público.
Entreguei os pontos entregando-me ao teclado.
Desde então, foram muitas as partilhas, trocas, comentários e ensinamentos que recebi de todos aqueles que de alguma forma me estimularam a manter este espaço.
O Blog completa um ano com cinquenta e quatro textos, mais de tres mil acessos de pessoas distribuidas por cento e noventa e cinco localidades distintas.
De coração, só tenho a dizer:
Muito obrigado!
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