quinta-feira, 17 de março de 2011

Cinzas

Então um dia ela decidiu.
Cansada de ver no armário caixas e mais caixas com fotos de um passado que não voltaria, ela resolveu dar a este arquivo sentimental um destino. É bem verdade que as caixas já não eram tão incômodas como no princípio, quando só o fato de vê-las ali, mesmo sem abri-las, já causava uma dor enorme. Não, não era mais assim. Agora o que elas, as caixas,  provocavam, era um certo desconforto,  uma inadequação em estarem ainda ali, no seu armário.
Não foi surprêsa quando os muitos anos de vida em comum deram para encher uma mala de viagem de tamanho médio. Separar as fotos doeu. Nossa, como eu mudei! Lembro tanto deste dia! Este Natal foi tão feliz... Miserável, aqui ele já estava com ela e eu não sabia. Rasgar foi dando um alívio.
Querosene escorreu pelos sorrisos, manchou beijos, deformou viagens, umedeceu festas.
As primeiras chamas foram tímidas. Depois, como se solicitando permissão do universo, dominaram tudo.
Uma fogueira se formou, e ela sentiu tontura durante todo o tempo em que as chamas arderam.
Cinzas.
Como num filme as cenas se sucedem. Ela suspira. Se tívéssemos consciência de que tudo pode um dia virar cinzas, de que forma viveríamos? Como colocar no centro de nossa vida algo que pode um dia virar cinzas?
Olhando fixamente para aquele fogo, jurou que nunca mais mendigaria o amor de ninguém. Nunca mais justificaria atos injustificáveis de homem nenhum. Nunca mais se adaptaria a situações complicadas, nunca mais faria loucuras justificando-as como atos de amor. Com o mesmo ímpeto tomou outras tantas decisões, destas que nestes momentos todas as mulheres tomam, mesmo que seja para repensar depois. Tudo bem, fazia parte.
Lembrou de Cazuza. Não, raspas e restos não mais lhe interessavam.
No caminho de volta para casa, fez uma força enorme e foi olhando para o céu, lindo, azul, a brisa suave. Sentia dor nas costas e uma moleza enorme no corpo.
Cinzas.
Em casa tomou um banho purificador, perfumou-se com alfazema. Vestiu uma roupa bonita. Foi melhorando.
Havia sentido uma enorme vontade de livrar-se de todas aquelas recordações antes de seguir para uma viagem de autodescoberta. Esperava que agora as trilhas lhe mostrassem novos caminhos. As cachoeiras, quem sabe,  restaurariam sua energia. A força das águas lavaria tudo aquilo que não lhe servisse mais.
Cada vez mais ela se convencia de que ser mulher é antes de tudo,  um ato de coragem.



5 comentários:

  1. Também já fiz isso. O alívio demorou a aparecer. Mas não tenho do que reclamar porque o tempo se encarregou de tudo na hora certa. O tempo é um dos meus melhores amigos.

    Uma coisa genial nessa história toda é que agora você tem mais espaço para guardar as fotos em que eu estou! Hehe... E não vale me transformar em cinzas. Nem mesmo para me eternizar nas águas do mar de Salvador. Eu quero ser uma lembrança para sempre!

    Tia Vânia, vou lembrar sempre de você...

    Beijão

    Natasha

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  2. Tashinha querida,

    presente cor de rosa que Brasília me deu,
    nem se preocupe, que este risco você não corre.
    Beijos, beijos, beijos!

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  3. Legal!
    Fico pensando que os habitantes deste mundo digital de hoje em dia não têm mais recordações que queimar - físicas, quero dizer: fotos (quem as revela?), cartas e cartões (tudo email e quejandos digitais). O máximo que farão será apertar uma tecla DEL com força. Pra mais vigor dramático, um SHIFT DEL! E mesmo assim me pareceria faltando alguma coisa...

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  4. Vânia querida,

    Vivemos, em momentos distintos, processos semelhantes...
    Também chorei diante de cinzas, mas me senti imensamente digna daquilo, digna do que tinha tido coragem de fazer por mim (ou pelo que restou de mim naquele momento).
    Se o amor nos eterniza, a dor de amor nos engrandece.
    Se a dor nos engrandece, que dizer da coragem de suplantá-la?

    bjs mais que admiradores!

    Josie

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  5. Vaninha,

    [Suspiro]
    Muito obrigada por ter tido coragem, só digo isso.
    Vou linká-lo no Apenas Mulheres de Verdade.

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