quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Arrumando a casa para 2012




2011 vai se despedindo.
2012 me acena por trás de uma colina. Coloca a cabeça pra fora, mas logo se esconde. Ainda não chegou a hora dele, eu entendo.
O mês de dezembro mexe comigo. Sou destas pessoas que gostam muito do Natal e do Ano novo. Não ligo para presentes, meu presente é mais importante.
O que adoro é  a sensação de recomeço.
Acredito e faço promessas para o ano que se inicia. Juro que não mais farei muitas coisas e que começarei outras tantas. Se cumpro? Como diria Julio Iglesias, às vezes sim, às vezes não..."
Ouço um assovio. Viro a cabeça e vejo 2012 andando de um lado para outro, impaciente. Calma, calma, falta pouco.
É que ainda falta fazer o balanço, organizar as coisas, limpar os armários e gavetas da casa e da alma. Ano novo não combina com bagunça.
Começo a faxina. Varro as tristezas, passo um pano nas decepções e sacudo o pó das estradas que não mais trilharei. Afinal, novos caminhos se abrirão.  Abro a geladeira e jogo fora tudo que não cheira bem:  As inseguranças, as palavras inadequadas, a falta de paciência e amor com o outro, os medos. Na hora de descartá-los, percebo que todos eles estão na categoria dos reciclados. Vão, voltam, se transmutam, voltam de novo. É a vida.
Água e sabão para lavar a rigidez e o  apego ao que é  conhecido  e que impede os avanços necessários.
Dou uma última olhada. Agora sim, posso por a casa em ordem.
Nas prateleiras, coloco as vitórias, pois quero encontrá-las facilmente quando a confiança em mim balançar. As descobertas, coloco em saquinhos de tecido, para que eu precise fazer um pequeno esforço para chegar a elas. As alegrias ocupam um jarro bem no centro da minha mesa. Não posso esquecer de regá-las todos os dias.
Em pequenos potinhos coloco porções de amor por mim e pelos que me cercam. Assim eu os levo na bolsa, no bolso, deixo nas gavetas, para emergências.
 A solidariedade está num lindo vidro de perfume que ganhei de uma amiga. Dou uma borrifada em mim antes de sair de casa. O vermelho "paixão pela vida" é a cor do meu batom. Sobre meus lábios passo a língua para nunca, jamais esquecer este gosto.
Fiel a meus princípios, comprei mais uma mala, diferente de todas que já tive. Uma mala cheia de flores e folhas, bem colorida, como deve ser a vida. Para mim, a mala representa movimento, mesmo que não haja uma viagem envolvida.  Afinal, às vezes a viagem para dentro de nós é muito mais rica que qualquer roteiro turístico. 
Em 2012 quero me ver em constante movimento, quero ousar mais, quero explorar novos caminhos e possibilidades.
Mas acima de tudo, em 2012 quero ser ainda mais feliz.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

De mala pronta e novo visual

  

Para comemorar os 10.000 acessos, o blog está com novo visual. Basta rolar a tela, que todos os textos aparecem, simples assim. Clicou no título, pronto!

Os números que aparecem nos quadrinhos pretos ao lado dos textos representam a quantidade de comentários que cada texto recebeu. Não há limite de tempo nem de número de comentários, pode ficar à vontade para deixar seu recado,  ok?

As letras escuras sobre fundo branco tornam a leitura mais confortável para os olhos (Valeu Aninha Paula!) 

Então? Arrume a mala, e boa leitura!

10.000 Acessos!




Dizer que estou feliz é muito pouco.
Minha alegria é tanta que ultrapassa os limites do meu corpo.
Quando vejo o mapinha aqui, no pé da página do Blog ( dê uma olhada) e vejo que tem gente de todas as partes do mundo acessando, fico maravilhada com as possibilidades que esta ferramenta nos oferece.
A todos que passaram por aqui, o meu muito obrigado.
Obrigado pelas visitas, comentários, sugestões e partilha.
A Danilo Menezes, que um dia no ano de 2006 me sugeriu ter um blog, um agradecimento especial, com carinho e saudade.
Beijos!


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Saindo da jaula


Recentemente uma colega viajou para NY a fim de realizar um sonho: Ver de perto um grupo musical que marcou a sua adolescência. Claro que não foram poucas as manifestações em contrário, usando como principal justificativa a zoolológica: "É mico!".  Eu, particularmente, tenho uma definição para  estes micos comportamentais. Mico seria então o resultado de delegar aos outros o poder de definir o que é certo para você. Há momentos em que chego a achar que o que há é muita gente dentro das jaulas, com receio de tudo, com medo até dos olhares dos outros. E haja policiamento, afinal, dependendo do censor, quase tudo é mico. Felizmente, minha amiguinha foi, tietou seu ídolo e segue vivendo feliz, driblando gorilas,  chipanzés e orangotangos.

Tenho a sorte de ter uma mãe absolutamente desencanada, que há alguns anos criou esta máxima: "Não tenho tempo a perder, estou na terceira idade". Daí que se ela estiver na sessão de CDs do mercado e der vontade de dançar ao som de alguma música, ela dança. Simples assim. E se olharem? Problema deles, diz minha mãe, do alto da sabedoria dos seus oitenta e tres aninhos. Nunca me esqueço que certa vez, na Ilha de Itaparica, na Bahia, vínhamos nós andando pela praia. De repente, não mais que de repente, eis que vem em sentido oposto Aloísio Mercadante, de quem minha mãe é fã assumida. Assim que o viu, ela não pensou duas vezes,  antes de sair correndo e se pendurar no pescoço do perplexo senador. Para muitas pessoas, um mico. Para ela, um inesquecível momento de felicidade. Entre as duas opções,  qual escolher? Atire a primeira banana,  quem nunca pagou um suposto mico que se transformou num momento de grande realização.

Mesmo não estando ainda na terceira idade, vejo nessas atitudes muita sabedoria, afinal, se não temos que nos submeter a todo instante a quem quer que seja, a vida fica muito mais interessante. Assim, procuro levar minha vida,  dentro do possível,  fazendo aquilo que me deixa feliz.


Como exemplo, costumo dizer que eu "não sou uma pessoa em tons de bege". Digo isso porque gosto de roupas diferentes, às vezes exóticas demais para algumas pessoas, que acredito se incomodem mesmo com as minhas escolhas estéticas. Que fazer?

Respeito o ponto de vista delas, mas sinceramente não me importo. Já aconteceram coisas assim: Um dia fui trabalhar com um vestido escuro e uma sapatilha rosa choque. Uma determinada pessoa olhou para meus pés pela primeira vez, pela segunda, e na terceira vez não se conteve: "Que mico, um sapato rosa choque!". Outra pessoa uma vez me disse: "Eu nunca usaria uma coisa dessa". Respeito as pessoas com suas roupas beges, pretas e conjuntos em tons sóbrios, desde que isso traduza uma preferência. Mas percebo que em alguns casos, o que existe é um receio de "pagar mico". Enquanto isso, a vida corre lá fora...

Outro exemplo, eu não sei andar de bicicleta. Então, meu vizinho querido que tem duas bicicletas se ofereceu para me dar umas aulas no Parque. Ora, imediatamente pensei em colocar rodinhas em uma das bicicletas, o que fez meu amigo recuar: "Com bicicleta de rodinhas não! Que mico!" Por mais que ele afirme agora que tudo bem, as aulas nunca aconteceram, creio eu, que por motivos símios.


E os adolescentes? Esses são implacáveis. Tudo vira mico quando se trata de enquadrar os pais, ou forçá-los a seguir o padrão que os filhos acham que é o certo. Tenho uma amiga queridíssima que sofre um patrulhamento cerrado dos dois filhos,  já rapazes. Ambos não dão trégua: "Minha mãe, que mico!", é o que mais se ouve quando esta amiga, um primor de alegria e naturalidade, faz coisas com as quais os "patrulheiros" não concordam. No final, claro, tudo acaba em boas risadas.

Lembro que quando ela esteve em Brasília me visitando, decidimos visitar o Palácio da Alvorada. Em lá chegando, ela resolve tirar uma foto com um dos Dragões da Independência. Imóvel, ele ouviu da minha amiga um pedido: "Seu Dragão, licença aqui, é só uma foto", enquanto pousava ao lado do dito cujo. Claro que os filhos piraram ao saber da história. Mas no álbum, lá está ao lado do "Dragão", o flagrante de mais um momento hilário da minha amiga. Com ela, ao longo de mais de trinta anos de amizade, tenho aprendido muito sobre autenticidade, alegria e descontração.

O  blog  http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br, traz a seguinte informação: 

" Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o ato de pagar o mico merece a atenção de muita gente. Tanto que ensejou a publicação de um livro - A Arte de Pagar Micos e King Kongs - Viver sem Culpas – escrito por Regina Araújo e editado pela Qualitymark EdItora, cuja sinopse diz  que “Nesta irreverente obra, a autora mostra que pagar micos pode ser extremamente divertido e proveitoso tanto na vida profissional quanto nos relacionamentos pessoais. Este livro é resultado de vários anos coletando casos protagonizados ou testemunhados pela autora, que procura mostrar que pagar micos é aceitar na marra que o acaso faz parte das nossas vidas, mas também é uma oportunidade de aproveitar situações imprevistas para ressaltar a individualidade”.

E então?

Qual o último mico que você pagou? E o resultado?



























domingo, 13 de novembro de 2011

A arte e os artistas

No ano em que conclui minha graduação eu tinha, para comemorar o grande feito, duas opções: Uma delas, a formatura com solenidade e a outra, viajar. A primeira opção nunca me atraiu. Eu já trabalhava e os custos da festa, altíssimos,  correriam por minha conta. E isso num tempo em que não havia a metade da pirotecnia das formaturas de hoje. As reuniões com a comissão eram um tédio, e geralmente eu dava um jeito de sair antes do final. Numa delas, a última da qual participei, uma das organizadoras deixou claro para o grupo sua preocupação com o fato de alguma das formandas ir ao baile com uma "roupa ridícula" e com isso prejudicar as fotos do álbum que ela faria. Nessa noite sai do grupo decidida a me formar sem solenidade.

Como meu melhor amigo estava saindo de férias e iria visitar seus parentes em Minas, fiquei tentada, pois em 1986, poucos eram os locais que eu conhecia. Além disso, ele iria também a uma cidade que, segundo eu acreditava,  não teria outra oportunidade de conhecer: Brasília.

Assim, em meados daquele ano, desembarcamos numa cidade diferente de tudo que eu conhecia. Não houve paixão, nem rejeição, apenas uma sensação de perplexidade. Coisas que me marcaram: A inacreditável piscina de ondas, as avenidas livres, onde os carros se espalhavam à vontade, sem sombra de engarrafamentos, a boate Zoom, simplesmente enorme, e a Torre de TV. Era o ano do RPM  e suspirávamos pelos ombros que Paulo Ricardo revelava ao cantar London, London. Bons tempos, sem dúvida.

Numa das foto da viagem, eu contemplo do alto da torre a cidade e seus grandes espaços então vazios. Se na época alguma cigana lesse minha mão e me revelasse que morar ali estava no meu destino, seguramente eu riria muito. Imagine, morar em Brasília!

Lembrei de tudo isso hoje, após mais uma manhã de domingo na Feira da Torre de TV, desta vez com um objetivo diferente. Estou cursando uma pós graduação em Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas e o módulo atual trata de arte popular. Assim, lá estava eu de caderno e máquina em punho para fotografar as obras de arte e entrevistar os artistas.

Nos últimos  anos, a Feira da Torre atravessava um momento de total descaso por parte dos órgãos de turismo. Cartão postal da cidade, a Torre há muito precisava de uma manutenção. Seu elevador que permite que do alto se tenha uma vista em 360 graus da cidade, permaneceu por um longo período desativado.  As barracas, cobertas de lona preta, lembravam de longe uma favela, e para os artesãos, o descaso contribuía para afastar os turistas e os visitantes locais.

Mas, depois de um longo período de abandono, a Feira da Torre está com um novo visual, as barracas ganharam um novo espaço e estruturas modernas. A fonte foi reinaugurada no ano passado  e fez o maior sucesso com sua dança de águas e variação de cores.

 A Torre, que foi inaugurada  há mais de 40 anos, está fechada para reforma. O projeto restaura a construção original e cria novas estruturas no espaço hoje ocioso. Uma grande escada de concreto vai ligar o piso mais elevado - que abriga a Torre, efetivamente - ao platô baixo, onde estão instaladas a fonte e as novas barracas. Escadas rolantes e elevadores para pessoas com deficiência física devem facilitar a acessibilidade no local. O espaço, antes ocupado pela feira popular, receberá obras de paisagismo, com a instalação de bancos, jardins e áreas sombreadas para abrigar os turistas. Que bom que lembraram da sombra, isto é importantíssimo nos meses de seca em Brasília.


Foi neste ambiente que passei meu domingo tentando um novo olhar sobre artistas  tantas vezes vistos. Minha primeira entrevistada foi uma senhora nascida na Ilha da Madeira e que comercializa seus quadros e deliciosos pastéis de Belém. Morando no Brasil há 25 anos, sua pintura delicada sempre mostra pássaros voando e o motivo ela me explicou naquele melodioso português de Portugal: Querida, é que não há de haver vida sem as aves a voar no céu.

Ainda conversamos muito sobre os bordados da Ilha da Madeira e novamente me veio aquela vontade de passar uma temporada em Portugal...estudando Português. Este é um sonho antigo e do qual ainda não desisti. Só está aguardando o tempo certo. Estive em Portugal há muitos anos na categoria turista. Por todos os motivos, o país merece uma visita mais demorada.

Bem, voltando ao trabalho, meu querido amigo Danilo Menezes, que hoje mora no Canadá e  tem um blog maravilhoso, o  Festa dos Sentidos, me disse uma vez ainda no Banco, que eu era uma jornalista frustrada. Pode ser, pode ser. Adoro ouvir histórias. Sou capaz de passar horas ouvindo, para mim cada pessoa é um universo a ser descoberto. Bem, mas a pesquisa tinha que continuar e após um pastel de Belém com um cafezinho que ganhei, lá fui eu, em busca de novas pessoas com sua arte e história.

O sol antes tímido agora estava forte e na Feira já se ouviam os primeiros acordes do grupo de capoeira que lá se apresenta aos domingos. O aroma da muitas comidas típicas também já impregnava o ar e o vento trazia o cheiro dos pastéis, acarajé, churrasco, maniçoba e pipoca. Mesmo depois de tanto tempo, ainda considero a Feira da Torre um ótimo programa de domingo.


A segunda entrevistada foi uma pintora que, nascida numa família onde todos pintavam, abraçou a arte como destino. Seus quadros geralmente retratam paisagens que todos podemos jurar pertencer a locais onde já estivemos. Ela me explica que as cachoeiras, por exemplo, são frutos de sua imaginação, não retratando cachoeiras específicas, e que ela se diverte sempre que alguém afirma diante de um quadro: Eu já estive lá!  De acordo com esta pintora, houve um tempo em que era mais rentável a venda de quadros na Feira, mas hoje, com o grande número de galerias e exposições de arte, a concorrência torna a comercialização dos quadros nesse espaço mais difícil. Ainda segundo ela, nas galerias as pessoas não pechincham, ao passo que na Feira...

Satisfeita com as pinturas, fui em busca de algo diferente. Algo em que as mãos se movimentassem de forma distinta, que se envolvessem também com outro tipo de material. Andei pra lá e pra cá e enfim, algo me chamou a atenção. Numa barraca, diversos objetos eram expostos do  lado de fora. Flores, cabides, cestos, objetos de palha trançada. Entrei e aguardei.


A mais falante das minhas entrevistadas um dia foi taquígrafa. Segundo me afirmou, a agilidade no traço adquirida na profissão, facilitou sua vida quando, anos e filhos pequenos depois, decidiu trabalhar em casa.

Começou a trabalhar com flores, depois com cestas e com o passar do tempo, com toda uma variedade de peças que hoje ela comercializa na sua barraca. Com orgulho ela me explica que utiliza anilina alemã para suas flores, pois, na sua opinião, a duração da nacional compromete a qualidade do trabalho. Demonstra entusiasmada como fazer certo tipo de flor, utilizando como base uma folha típica do cerrado, enquanto atende aos clientes que vão chegando. Como várias pessoas que vivem do artesanato, as dificuldades não a desanimam. Segundo afirmou, a  alegria de ver alguém levar para casa uma coisa criada por ela  não tem preço. Desde o início da conversa, prestei muita atenção em suas mãos. Ao final, ela me confidencia que trabalha muito com soda cáustica e que com o tempo, até suas digitais estão se modificando...


Peço autorização para fotografar suas mãos e ela, para minha surpresa, solta os cabelos e retoca o batom. Fico na dúvida por um instante. Mas só por instante. Devidamente autorizada, coloco aqui a foto desta artista representando todos os artesãos da Feira da Torre.  Só três foram ouvidos, mas há tantas e tantas histórias a serem contadas, inclusive a da simpaticíssima artesã que faz lindas roupas pintadas e mantém um orfanato com muitas crianças. Ela seria uma das minhas opções, mas nesse dia não a encontrei.

Neste módulo do curso onde estudamos Arte e Cultura Popular, algumas das discussões são : O artesanato é arte? A arte popular é inferior à erudita? O termo "popular" é afinal ideológico? Por que nas feiras de artesanato nos sentimos tão a vontade para pechinchar o preço que é cobrado pelo artista?

É, ainda vou aprender muito neste curso.









sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Trinta anos de trabalho

Será o tempo que passa rápido mesmo ou será que nós, que  não percebemos o seu ritmo,  constantemente nos pegamos surpresos a cada fato? 

Não diria exatamente que estou surpresa, mas pensando bem, esse tempo passou muito  rápido. Pois já se passaram mais de trinta anos que entrei no mercado de trabalho, trinta anos que tive a minha carteira assinada.
Fui criada para trabalhar. Minha mãe, que sempre foi dona de casa, não queria para as duas filhas um destino semelhante. Desde crianças ouvíamos de minha mãe a expressão " quando você trabalhar"  ao invés do "quando você casar". Assim fomos criadas. Casamento, se acontecesse, tudo bem. Mas o trabalho, este sim era o nosso objetivo.

Minha irmã assim que entrou na faculdade, aos dezenove anos, passou no seu primeiro concurso público. Sim, também havia isso. Como nosso pai sempre foi autônomo, minha mãe nos queria com segurança e salário no dia certo, sem sobressaltos. Então minha irmã começou a dura vida de conciliar oito horas de trabalho com as aulas na Universidade Federal, onde as aulas acontecem em todos os turnos. Ainda no segundo grau, a via chorar em casa pela perseguição sofrida cada vez que pedia ao chefe autorização para ir para uma aula ou prova. Decidi que não queria isso para min.

Bem, o ano de 1979 chegou, e com ele o vestibular. Aprovada na Federal e na Católica, fui conversar com meu pai, pois eu havia decidido que cursaria a Católica, cujas aulas eram concentradas num turno e que, era paga. Ele me ouviu em silêncio, parecendo concordar. Ao final, para minha surpresa, ele me comunicou que havia, durante toda a vida, pago as melhores escolas e cursos para mim e minha irmã. Se agora, eu havia decidido estudar numa faculdade particular, tudo bem. Contanto que eu pagasse.

De início, fiquei revoltada. Afinal, como todo filho que tem tudo, eu queria continuar tendo, sem esforço. Também não tinha certeza se conseguiria trabalho, era tudo tão novo... Mas aí, mais uma vez  minha mãe veio em meu auxílio, me apresentando aos "Classificados" dos jornais. Não havia internet e a sessão de empregos aos domingos era consulta obrigatória para quem queria uma vaga em estágio, trabalho ou mesmo nos concursos públicos.

Nos "Classsificados" encontrei meu primeiro emprego, na H. Stern, no Aeroporto que ainda se chamava 2 de Julho. Lá aprendi a abrir mão de algumas coisas em benefício dos demais no ambiente de trabalho. Se por um lado via minhas amigas participando de eventos para estudantes enquanto eu trabalhava, inclusive aos finais de semana, por outro lado o mundo do trabalho cada vez mais me fascinava. Aprendi  coisas que o  curso de Administração jamais me daria.  Aprendi  a ser responsável, a me relacionar com desenvoltura, a ser disponível e dedicada. Desde maio de 79, me tornei para sempre independente.

Depois da H.Stern, ainda fui estagiária na Xerox do Brasil e no falecido Banco Econômico. Depois passei no meu primeiro concurso, na Caixa Econômica e no mesmo ano, no Banco do Brasil. O curioso é que na Caixa eu trabalhava num ambiente muito legal, era relativamente perto de casa, enfim, tudo muito tranquilo. Quando, numa quarta-feira de Cinzas, ainda no clima do Bloco Camaleão, recebi um telegrama do Banco me convocando para ir morar no interior, tendo inclusive de trancar a faculdade para isso, não pensei duas vezes. Fui. E nunca, nem por um instante, me arrependi dessa decisão ao longo destes vinte e oito anos.

Olhando para o passado, mais uma vez sou grata a meus pais, cuja exigência hoje me permite fazer planos para o futuro, quando decidir me aposentar de meu emprego estável. A sensação de missão quase cumprida se  por um lado é alegre, por outro lado vai dando uma saudade antecipada. A cada evento de despedida de colega que aposenta eu, invariavelmente, choro muito. Acho que é um dos ritos de passagem mais importantes da nossa vida. Pela forma como construi minha vida profissional, mesmo sabendo que me envolverei com mil coisas após aposentada, sei que sentirei muita saudade. Afinal, fosse ela um top, um sueter, ou uma básica, eu sempre vesti a camisa do BB.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

9000 acessos!

Obrigado a todos pela atenção, estímulo, comentários e visitas.

Sigo contando histórias, partilhando a vida...

Beijos!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Um Aniversarau



Gosto de comemorar aniversários de formas diferentes.
Este ano me veio a idéia de fazer um aniversarau, mistura de aniversário com sarau.
Música, prosa, poesia, os amigos participando...
Deu muito certo e estou com vontade de repetir, não o aniversário, mas o sarau.
Poderia ser de um só autor.
Poderia ser de um só tema.
Poderia ser de um só período, ou ainda, poderia ser ao gosto dos convidados.
Mil idéias e a vontade de seguir criando por mais cinquenta e dois anos...

domingo, 2 de outubro de 2011

Detalhes tão pequenos de um Rei

Se há uns três anos alguém me convidasse para um show de Roberto Carlos, eu, que sou uma lady, educadamente declinaria, mas por dentro ficaria pensando: Que ideia, onde já se viu? Não já basta o especial "Chester", que todo Natal tem que ter? Nem pensar!
Só que o tempo passa...

Fui uma criança que viveu intensamente a Jovem Guarda. Nos programas da nossa TV preto e branco víamos encantados os artistas da época e lembro de ter completado um álbum com figurinhas de todos eles. Copiávamos o estilo de Wanderléia, dançávamos ao som de Renato e seus Blue Caps, curtíamos os Golden Boys e o Trio Esperança, além de acompanhar a disputa entre Jerry Adriani e Wanderley Cardoso. Mas nenhum dos cantores tinha o carisma de Roberto Carlos.

Lançado no mercado num momento em que os jovens começavam a ditar comportamentos, e que uma grande  gravadora viu nele potencial para se tornar um superstar, ele e seu amigo Erasmo Carlos compuseram canções inesquecíveis.Entre elas, O Calhambeque, Festa de Arromba, Eu te darei o Céu, Quando, entre outras. Tímido, mas desde sempre dotado de um charme especial aliado à imagem de bom moço, sua aparição deixava as fãs enlouquecidas. Os filmes Roberto Carlos em Ritmo de Aventura e O  Diamante Cor de Rosa levaram milhares de pessoas aos cinemas. Em seu livro Noites Tropicais, onde traça um panorama da MPB, da Bossa Nova ao surgimento dos sertanejos, Nelson Motta afirma que,  nos anos 60:

   " O Brasil inteiro, dos vovôs aos netinhos, e da classe A a Z, cantou Quero que Vá Tudo pro Inferno e, mesmo entre as novas gerações mais sofisticadas e politizadas, que torciam o nariz para a Jovem Guarda simplória e alienada, Roberto começou a ganhar admiradores. E, principalmente, admiradoras. Nas mesas dos bares de Ipanema, a princípio timidamente, mas depois com entusiasmo, simpatizantes ofereciam teses, interpretações e leituras políticas para a música e seu sucesso: o desejo reprimido do povo de mandar os militares para o inferno, uma mensagem cifrada de rebeldia, metaforizada para escapar da censura. Ou a interpretação sexual de "me aqueça neste inverno" como slogan libertário. Tudo pretexto para gostar de Roberto Carlos sem parecer simplório ou alienado. Mesmo entre os músicos, onde ainda era considerado vulgar e superficial, Roberto começava a ser reconhecido pela doçura de seu timbre, por sua afinação, pela precisão de seu fraseado e pelo inegável charme com que cantava. Afinal, ele tinha começado imitando João Gilberto, argumentavam jovens sofisticados, já atraídos irresistivelmente pelo charme de Roberto Carlos. Como o Brasil inteiro."
   
Com a chegada da adolescência e da rebeldia, conheci outros estilos musicais e Roberto Carlos passou a ser uma referência do passado. Ainda gostava das músicas da Jovem Guarda e algumas clássicas como Detalhes, Como é Grande o Meu Amor por Você e O Portão, que até hoje vivo cantarolando: Eu voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é meu lugar.  Não gostava dos especiais de fim de ano pois os achava repetitivos e previsíveis e também não fui solidária com a sua defesa das baleias, das mulheres de óculos ou das pequenas. Resumindo, não curtia mais mesmo. Até que um fato nos reaproximou.

Após decidir que comemoraria meus cinquenta anos em Salvador, comecei a pensar nos detalhes. Eu queria um slogan para o convite, uma frase que retratasse meu sentimento e o que foram estes cinquenta anos para mim. Procurei nos meus livros textos, poemas, frases de efeito. Pensei em escrever, mas nada me agradava. Um dia, num taxi, presa num engarrafamento, o motorista liga o rádio, e sem autorização, Roberto Carlos entra de novo na minha vida:

Em paz com a vida, e o que ela me trás,
 a fé que me faz,
otimista demais,
se chorei ou se sorri,
o importante é que emoções eu vivi...

Não havia mais o que pensar! Cheguei em casa e esbocei todo o roteiro da festa. Ao final da minha performance, o músico tocaria Emoções, nos daríamos as mãos e depois seria cantado o Parabéns pra você.

 No dia da festa, quando Emoções foi tocada e cantada pelos mais ou menos cento e vinte convidados, uma colega, Zilnai, teve a linda ideia de que todos pegassem as rosas brancas que enfeitavam as mesas e me entregassem. E assim foi feito. Ali, vivendo aquele que foi para mim um "momento lindo", Roberto Carlos estava de volta. 

Dois anos depois, surge a oportunidade de ir pela primeira vez a um show dele. Ainda relutei, achei caro, depois coloquei dificuldades para ir comprar o ingresso, mas tudo conspirou a meu favor. Pela primeira vez teria a oportunidade de ver ao vivo este senhor, que aos setenta anos ainda provoca frenesi aonde quer que vá. Pelo significado especial que a música adquiriu para mim, estava preparadíssima para chorar quando ele cantasse Emoções.

Minha amiga e eu chegamos cedo, o estádio aos poucos vai lotando. Pelo que soubemos depois, havia ali gente de toda parte,  inclusive pessoas que viajaram com este objetivo para Brasília. Plateia predominantemente feminina, além de vários casais. Quase uma hora de atraso, o púbico aplaude, assobia, bate palmas. A orquestra entra, começa um show de luzes. Mesmo só com a banda, a plateia já canta junto. Então, Roberto Carlos chega e o ginásio enlouquece. Eu fico ali parada, imóvel. Suspense. Então ele começa:

Quando eu estou aqui,
eu vivo este momento lindo... 

Previsível? Talvez. Emocionante? Com certeza.
Ali, no meio daquela multidão, constato que mesmo tanto tempo depois,  as observações de Nelson Motta ainda fazem  sentido. A empatia é total. Simpático, ele domina totalmente a  plateia. Do alto dos seus setenta anos, ele seduz, insinua, o público vai ao delírio. No momento "Banquinho e Violão" canta Detalhes com o acompanhamento de um coral totalmente maravilhado.   Num mundo de celebridades instantâneas e de talentos esculpidos nas academias de ginástica, o Rei completa cinquenta e dois anos de carreira. Acredito que essa "realeza" de Roberto Carlos está nessa forma simples de falar sobre o amor, a vida, as perdas e ganhos de uma maneira singela e por vezes ingênua. Gerações e gerações ouviram e se emocionaram com suas canções e com fatos dolorosos de sua vida.  Todos naquele estádio conseguiriam fazer uma ligação de pelo menos uma música de Roberto Carlos com algum momento vivido. Ao se declarar um Amante a Moda Antiga, do tipo que ainda manda flores, ele mexe com o imaginário de uma grande parcela de mulheres, que num recanto bem escondido do coração ainda sonha que isso possa ser possível. E de fato é.  Pelo menos para aquelas que,  ao final do espetáculo, correram para a beira do palco para ganhar uma das disputadíssimas rosas entregues pelo cantor, num ritual muitas vezes repetido, mas nem por isso menos carinhoso.

É Roberto. Eu voltei, e agora pra ficar.  



terça-feira, 27 de setembro de 2011

Tempero astral

Ela entendia de astros, satélites e conjunções. Ele, de panelas e temperos.
Ela receitava florais. Ele preparava banquetes.
Ambos eram fãs de  rock and roll. Mas enquanto o rock era pesado, a relação fluía leve.
Hemisférios diferentes. Entre os dois, um oceano.
Aos poucos se conheciam.  Das teclas brotava a afinidade e pela rede o amor  nascia. Ela consultava os astros, traçava mapas, calculava trânsitos. Enquanto Marte se encaminhava para Aquário, ele dosava o sal e o açúcar, pensando se esta receita daria certo.
Então um dia ela sobrevoou o mar. 
Pediu a Netuno proteção, mas foram Vênus e Mercúrio que sopraram ventos favoráveis. Ele preparou com amor um bolo, cobertura doce de esperança. Júpiter entrou no signo de Touro quando enfim se encontraram. No céu a lua nova prometia renovação, e o novo enfim se deu.
Saturno confundiu papéis e documentos, mas nos mapas dos dois o destino estava selado. Com as  bênçãos de Vênus, ela cruzou de novo o oceano. Cabeça no ombro dele, ela pisca para as estrelas e sorri feliz. 
Um novo país, uma vida nova, ele suspira pensativo. Uma pitada de carinho, duas colheres de compreensão, gotas de afeto, vai ele adicionando na receita saborosa do encontro.
Noite de lua cheia, os grilos cantam enquanto na varanda da chácara um casal olha para o céu. Da cozinha vem o aroma do pão quentinho, polvilhado com amor e esperança. Envolta num xale de lã, ela volta seus olhos azuis para o céu, confiante. Plutão e Urano se aproximam, sinal de vitória certa. 


(Para minha amiga querida, torcendo para que os astros conspirem para a sua felicidade).

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

As pernas e o poder

Aconteceu há muito tempo.

Eu trabalhava numa agência e tinha muito pouca noção da hierarquia da empresa. Naquela época, as agências eram enormes, chegavam a ter mais de 200 funcionários. Meu universo era aquele. Fora do prédio antigo funcionavam estruturas para mim desconhecidas. Mas havia um funcionário que eu tinha certeza que era sim, muito importante.

Não trabalhava no nosso prédio. Homem de meia idade, aparência e fisionomia sóbrias, ele nunca chegava sozinho. Terno e gravata, sempre acompanhado de pelo menos uns três ou quatro funcionários, sua aparição na agência tinha o dom de congelar qualquer cena. As vozes se tornavam murmúrios, os cumprimentos, educados; as mesuras se sucediam, enfim, tudo passava a gravitar em torno dele. Imediatamente, da copa chegava o café, servido em xícaras de porcelana  sobre bandejas prateadas. Reunindo-se com os mandatários da agência , permanecia durante muito tempo a portas fechadas. Ao sair, novamente os sorrisos e mesuras até que ele se retirasse acompanhado de seu séquito deixando atrás de si a aura do poder.

Anos depois, a hierarquia da empresa já não era para mim um mistério. Conhecia estruturas dentro e fora do meu estado, já viajava a serviço e exercia outras atividades fora as da agência. Então num dia de pagamento de salário de funcionários, me vejo no hall da agência e percebo na fila dos aposentados uma fisionomia familiar.

Era dia de agência cheia. Os aposentados utilizavam este dia para reencontro com os amigos, atualização de fatos sobre o Banco e por que não? jogar conversa fora, agora que o tempo a eles pertencia. Mas no meio do burburinho, entre os aposentados, há um deles que não parece interessado em conversa. Impaciente, olha para todos os lados, buscando talvez um conhecido que o livre da fila, do incômodo de permanecer ali em pé, já que os colegas aposentados não aparentavam ter a menor pressa em serem atendidos.

Então, num lampejo me volta a lembrança. Dos murmúrios, do recado urgente para a copa em busca do café, dos sorrisos de cortesia. Sem terno, gravata ou séquito, usando uma camisa esporte e uma inacreditável bermuda, ele agora é um aposentado como qualquer outro. Não resisto e lanço um olhar para suas pernas. Eram pernas feias.

Observando aquele homem na fila sozinho, tentando a todo custo ser reconhecido por alguém que não chega, reflito sobre a solidão do poder. Longe do cargo, na fila, um homem comum, inclusive com um atributo comum de ter pernas feias. Que lembranças lhe povoariam a mente, enquanto inutilmente andava ao longo da fileira de Caixas buscando ajuda? Onde naquela hora repousariam as camisas impecáveis, o terno escuro e o séquito? Onde andaria o séquito?

Dobrados e guardados, na gaveta das lembranças amareladas do poder.

Almoços de Domingo

  Feijão, arroz, galinha assada. Feijão, arroz, carne de porco assada. Aos domingos era ou um, ou outro. Sempre. Mesmo sendo uma família...