segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Saindo da jaula


Recentemente uma colega viajou para NY a fim de realizar um sonho: Ver de perto um grupo musical que marcou a sua adolescência. Claro que não foram poucas as manifestações em contrário, usando como principal justificativa a zoolológica: "É mico!".  Eu, particularmente, tenho uma definição para  estes micos comportamentais. Mico seria então o resultado de delegar aos outros o poder de definir o que é certo para você. Há momentos em que chego a achar que o que há é muita gente dentro das jaulas, com receio de tudo, com medo até dos olhares dos outros. E haja policiamento, afinal, dependendo do censor, quase tudo é mico. Felizmente, minha amiguinha foi, tietou seu ídolo e segue vivendo feliz, driblando gorilas,  chipanzés e orangotangos.

Tenho a sorte de ter uma mãe absolutamente desencanada, que há alguns anos criou esta máxima: "Não tenho tempo a perder, estou na terceira idade". Daí que se ela estiver na sessão de CDs do mercado e der vontade de dançar ao som de alguma música, ela dança. Simples assim. E se olharem? Problema deles, diz minha mãe, do alto da sabedoria dos seus oitenta e tres aninhos. Nunca me esqueço que certa vez, na Ilha de Itaparica, na Bahia, vínhamos nós andando pela praia. De repente, não mais que de repente, eis que vem em sentido oposto Aloísio Mercadante, de quem minha mãe é fã assumida. Assim que o viu, ela não pensou duas vezes,  antes de sair correndo e se pendurar no pescoço do perplexo senador. Para muitas pessoas, um mico. Para ela, um inesquecível momento de felicidade. Entre as duas opções,  qual escolher? Atire a primeira banana,  quem nunca pagou um suposto mico que se transformou num momento de grande realização.

Mesmo não estando ainda na terceira idade, vejo nessas atitudes muita sabedoria, afinal, se não temos que nos submeter a todo instante a quem quer que seja, a vida fica muito mais interessante. Assim, procuro levar minha vida,  dentro do possível,  fazendo aquilo que me deixa feliz.


Como exemplo, costumo dizer que eu "não sou uma pessoa em tons de bege". Digo isso porque gosto de roupas diferentes, às vezes exóticas demais para algumas pessoas, que acredito se incomodem mesmo com as minhas escolhas estéticas. Que fazer?

Respeito o ponto de vista delas, mas sinceramente não me importo. Já aconteceram coisas assim: Um dia fui trabalhar com um vestido escuro e uma sapatilha rosa choque. Uma determinada pessoa olhou para meus pés pela primeira vez, pela segunda, e na terceira vez não se conteve: "Que mico, um sapato rosa choque!". Outra pessoa uma vez me disse: "Eu nunca usaria uma coisa dessa". Respeito as pessoas com suas roupas beges, pretas e conjuntos em tons sóbrios, desde que isso traduza uma preferência. Mas percebo que em alguns casos, o que existe é um receio de "pagar mico". Enquanto isso, a vida corre lá fora...

Outro exemplo, eu não sei andar de bicicleta. Então, meu vizinho querido que tem duas bicicletas se ofereceu para me dar umas aulas no Parque. Ora, imediatamente pensei em colocar rodinhas em uma das bicicletas, o que fez meu amigo recuar: "Com bicicleta de rodinhas não! Que mico!" Por mais que ele afirme agora que tudo bem, as aulas nunca aconteceram, creio eu, que por motivos símios.


E os adolescentes? Esses são implacáveis. Tudo vira mico quando se trata de enquadrar os pais, ou forçá-los a seguir o padrão que os filhos acham que é o certo. Tenho uma amiga queridíssima que sofre um patrulhamento cerrado dos dois filhos,  já rapazes. Ambos não dão trégua: "Minha mãe, que mico!", é o que mais se ouve quando esta amiga, um primor de alegria e naturalidade, faz coisas com as quais os "patrulheiros" não concordam. No final, claro, tudo acaba em boas risadas.

Lembro que quando ela esteve em Brasília me visitando, decidimos visitar o Palácio da Alvorada. Em lá chegando, ela resolve tirar uma foto com um dos Dragões da Independência. Imóvel, ele ouviu da minha amiga um pedido: "Seu Dragão, licença aqui, é só uma foto", enquanto pousava ao lado do dito cujo. Claro que os filhos piraram ao saber da história. Mas no álbum, lá está ao lado do "Dragão", o flagrante de mais um momento hilário da minha amiga. Com ela, ao longo de mais de trinta anos de amizade, tenho aprendido muito sobre autenticidade, alegria e descontração.

O  blog  http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br, traz a seguinte informação: 

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o ato de pagar o mico merece a atenção de muita gente. Tanto que ensejou a publicação de um livro - A Arte de Pagar Micos e King Kongs - Viver sem Culpas – escrito por Regina Araújo e editado pela Qualitymark EdItora, cuja sinopse diz  que “Nesta irreverente obra, a autora mostra que pagar micos pode ser extremamente divertido e proveitoso tanto na vida profissional quanto nos relacionamentos pessoais. Este livro é resultado de vários anos coletando casos protagonizados ou testemunhados pela autora, que procura mostrar que pagar micos é aceitar na marra que o acaso faz parte das nossas vidas, mas também é uma oportunidade de aproveitar situações imprevistas para ressaltar a individualidade”.

E então?

Qual o último mico que você pagou? E o resultado?



























8 comentários:

  1. Delícia de texto Vânia!!! já paguei vários micos, orangos, kings etc... o importante é viver o momento e ser feliz!!! postei aqui pq não consegui postar no blog.... (epa....paguei mico!!!!) kkkkkk

    ResponderExcluir
  2. Ótimo texto, Vania. O pobre do mico, coitado, virou expressao da censura alheia. Mas também há a auto-censura: "Paguei o maior mico". E quem censura, está reprimindo. Vontade e falta de coragem para ousar? Vá saber...

    ResponderExcluir
  3. É gratificante ler teus textos... sempre me leva a algo novo, significativo... amei a terceira idade!!! Bjs!!!

    ResponderExcluir
  4. Vania querida, ADOOREEI!!!
    Bjs,

    ResponderExcluir
  5. Querida Vania,
    Adorei o texto.
    Quem pode dizer que nunca pagou micos? Desde que resolveram classificar o que se faz em várias categorias temos, entre outras, gafes, foras, balões, micos e por aí vai.
    Como dizes, o importante é ousar fazer e se acharem que é mico, gafe, fora ou qualquer outra categoria de menos importância, o problema é de se preocupa em classificar. Tudo vale pena desde que o respeito ao outro seja observado.
    Beijo com carinho e parabens pelo sucesso!
    beijo,
    Kuki
    Em tempo: não sou nada entendida em postar comentários. Já postei alguns comentando teus textos e depois vejo que não estão lá. Vamos ver se acerto desta vez ou vou dar mais uma bola fora.
    mais um beijo,
    kuki

    ResponderExcluir
  6. Vampinha!
    Obrigada pela homenagem! Contar em seu blog um dos meus micos preferidos (a pose para a foto com "dragão da independência"! kkk) foi surpreendente e adorável! Os meninos continuam reclamando e eu aprontando...aqui em Salvador ou em qualquer lugar do mundo: até me nomearam "Rainha do mico", pois que seja...pelo menos sei que não estou só nessa "macacada"-rsrsr- e agora então, apoiada pelo seu comentário: haja banana! Muito divertido e reflexivo seu texto: afinal, "Mico" é o que mesmo? Falta de coragem de ser quem se é! Abreijos "miquentos", descontraídos e felizes!

    ResponderExcluir
  7. Me vi sim, é claro! E tô arranjando um jeito de postar aquela foto de um dos meus "micos" preferidos: Eu fazendo pose com o dragão da independência ,em pleno Palácio da Alvorada! kkk. Adorei seu texto e o novo visual do blog está massa! Parabéns e obrigada pelos elogios de quem, há mais de 30 anos, me aceita assim como sou...Abreijos descontraídos e "miquentos"...TE ADORO AMIGA!

    ResponderExcluir
  8. Pois é Vânia, tens razão. Estou casado há 20 anos com uma mulher cujos atos lembram onda sua mãe. E, quer saber: aprendo um bocado com ela!

    ResponderExcluir