terça-feira, 28 de junho de 2011

As Meninas das Mercês

Fachada do Colégio Nossa Senhora das Mercês em Salvador

Nos últimos dias ando aproveitando mais um dos benefícios do mundo virtual: a possibilidade de localizar e fazer contato com pessoas distantes. Foi criado no Facebook um grupo de ex-alunas da escola onde cursei o primário, o ginásio e o primeiro colegial. Essa escola, como eram as boas escolas femininas das décadas de 60 e 70, era uma escola religiosa, ou como se diz popularmente, um colégio de freiras.

No site da escola consta que foi fundado em 1735 pela jovem baiana Úrsula Luísa de Monserrat. O Convento Nossa Senhora das Mercês sempre foi dedicado à obra educativa das Ursulinas. Inicialmente, era o Educandário com alunas internas.  Posteriormente, a partir de 03.02.1897, também com externato, criou-se o Colégio Nossa Senhora das Mercês.
 
Set de 1969, minha primeira comunhão
 
Nessa escola cheguei em 1967, vinda de uma escolinha bem menor e fiquei encantada. Minha irmã mais velha já estudava lá, e eu sonhava com o dia em que finalmente usaria a camisa de polyester, a saia azul marinho de pregas e o sapato vulcabrás. Fiquei encantada com tudo, os grandes espaços, a quantidade de alunos e salas, a "roça", área enorme, cheia de árvores onde brincávamos no recreio. Havia no entanto uma outra diferença. Se na minha escolinha anterior nós, os alunos, éramos tratados como sobrinhos pelas "tias", na minha nova escola, no Colégio Nossa Senhora das Mercês, eu conheci o rigor de uma nova disciplina.

Creio que todas as pessoas que estudaram em colégios de freiras são unânimes em afirmar quais eram as principais características dessas escolas: Boa formação e disciplina rígida. Não era mais o tempo da palmatória, mas havia castigos, suspensões, expulsões, broncas e reclamações, muitas. Fomos educadas para respeitar incondicionalmente nossos professores e quando eles entravam na sala de aula, nos levantávamos e só sentávamos com a sua autorização.   Mas isso fazia parte dos padrões vigentes e não havia, na época, outra forma de educação possível, pelos menos nas chamadas boas escolas.

Havia aula de religião e EMC (Educação Moral e Cívica). Houve um ano letivo em que até, a música que dava início ao recreio era "Eu te amo meu Brasil" da dupla Dom  e Ravel.  Eram outros tempos, e como não havia cadernos com fotos de galãs, aprendemos facilmente o Hino Nacional nos hasteamentos da bandeira dos quais participávamos  regularmente e também por estar ele na contracapa de nossos cadernos. Ainda sobre cadernos e livros, para mim era um momento de extremo prazer ajudar minha mãe a forrar ou encapar os livros com plástico transparente. Após encapados, de vez em quando minha  mãe permitia que eu colocasse um decalque, daqueles que eram antes molhados com água....coisas do passado.

A estrutura hierárquica da escola era formada por uma madre superiora, uma diretora e uma secretária, todas freiras. Lembro da bondosa Madre Beatriz, da qual todas gostávamos, lembro da Madre Sophia Mil'homens e seu nome tão inadequado para uma freira. Lembro da terrível Irmã Alayde, diretora mais que linha dura, Irmã Emanuel, que nos preparou para a primeira comunhão e Irmã Efigênia, nossa professora de Religião. Mas nenhuma se comparava à fantástica Madre Maria Luiza.

Baixinha, miúda, de idade indefinida, ela permanecia na porta para nos receber com seu inesquecível "Bom diaaaaaaaaaaaaaa". Com olhar atento, observava tudo, principalmente o comprimento das nossas saias, que tinham um padrão estabelecido de x centímetros acima dos joelhos. Algumas colegas mais afoitas, ao sair da escola para a rua, dobravam a bainha para dentro e a prendiam com durex. Mas houve um caso que serviu de exemplo: Uma aluna chegou na escola com a saia do uniforme curtíssima e a Madre Maria Luiza não pensou duas vezes: Com as mãos desfez a bainha mandado a infratora de volta para casa para que todos na rua vissem que uma "aluna das Mercês" não podia usar saia curta. Muitos anos se passaram e mesmo depois de sair da escola, ainda passava pela Avenida Sete e via Madre Maria Luiza bem velhinha na porta observando a chegada das alunos. De vez em quando, ao encontrar o portão de entrada aberto, eu sentava num dos bancos e tentava entender, como aquele espaço tão restrito era na minha infância simplesmente descomunal...

Como a escola funciona em um convento, também havia outras freiras que lá moravam e, nos meus primeiros anos, algumas alunas internas. Não sei bem porque, mas eu morria de pena das colegas internas. Imaginava mil coisas, que eram maltratadas, que não tinham mãe, sei lá que fantasias mais. Na hora do almoço ninguém vinha buscá-las, o que me deixava de coração apertado. Lembro bem das Marias. Maria Galvão, simpática, forte, um terror no "baleado". Maria Tavares, com seu jeito de índia e comportamento super quieto. Havia ainda uma outra Maria, de cujo sobrenome não lembro, mas lembro que ela ajudava na cantina, servindo um pãozinho delícia inesquecível e um cachorro-quente feito apenas com um pão francês, uma salsicha e mostarda. Não há uma explicação possível, mas nunca, jamais houve um cachorro-quente melhor que aquele.

As professoras, geralmente mulheres, permaneciam lá durante muitos anos. Praticamente todas as professoras que tive foram antes professoras de minha irmã. Algumas até, foram professoras de mães de colegas minhas. Fazendo um esforço de memória: No primário fui Aluna de Maria Eugênia Pondé. No ginásio vieram Marise (Matemática), Dona Walquíria e Gracinha (Geografia), Dailva (Ciências), Dona Helena (Canto) , Dona Antonia (a temida e fantástica professora de Matemática), Dona Marinalva (História), Débora (Francês) ,Calíope (Desenho geométrico ), Leila (Geografia) , Eliane (História), Dona Lourdes e Marise  (Português). Houve ainda Gracinha Pessoa, professora de Português jovem que morreu num acidente. Foi  substituída por Branca de Neve Rocha que nos levou ao Forum para assistir a um julgamento para depois decidirmos se Capitu (Dom Casmurro) era culpada ou inocente. Para mim foi uma experiência inesquecível. O filho dessa professora até foi meu namorado. Lembranças, lembranças.

Havia dois professores. Essas exceções eram Professor Armando de Ciências e  o nosso professor de Educação Física, Valfrides, já naquela época um senhor de certa idade. Lembrei agora de um detalhe: Quando menstruadas, tínhamos o direito de não participar da aula de educação física. Bastava na hora da chamada, na fila, levantarmos o dedo indicador e dizer: "Dispensa mensal". Simples assim.

Um momento de grande controvérsia vivido pela escola foi a difícil transição da saia de pregas para a calça jeans, já adotada pela maioria dos colégios em meados da década de 70. Uma opção encontrada pelas freiras para que suas alunas não ficassem "iguais a todo mundo" foi optar por uma esquisitíssima calça de tergal verde, com a qual convivemos por alguns anos. Para combinar, passamos a usar uma blusa branca com o escudo da escola impresso em verde.Quando enfim, por pressão dos pais a calça jeans foi adotada, já era meu último ano lá, que coincidiu também com a abertura para a chegada dos alunos. Sim, alunos homens. Era o ano de 1976.

Sai da Merces, fiz  vestibular, faculdade, entrei para o mundo do trabalho. Com algumas das colegas eu ainda encontrava em aniversários, passeios, visitas. Então eis que um dia, logo após o carnaval de 1998, encontro na rua uma ex-colega que não via há muito tempo. A conversa foi rápida, mas sai decidida a organizar um "Encontro das Meninas das Mercês".


IV Encontro das Meninas das Mercês - nov/2004

Se fosse contar tudo que envolveu esta aventura, num tempo em que não se usava tanto a internet, não chegaria ao final desse texto. Mas fiz, não só um, mas cinco encontros. O desafio de localizar as colegas usando a lista telefônica é um capítulo a parte. Mas havia também aquelas que tinham acesso a outras e que  iam chamando, trazendo cada vez mais gente. De início, ao falar com algumas ao telefone, percebia alguma resistência. Mas com alguma paciência, consegui realizar o primeiro encontro. Como muitas alegavam não lembrar dos nomes, prividenciei crachás que foram entregues na chegada. Com o sucesso do primeiro encontro, decidi pelos encontros anuais. Cheguei a realizar um sonho, o de fazer um dos encontros na própria escola, em novembro de 2004. Foi um trabalho hercúleo, mas quarenta colegas compareceram. Recolhi dinheiro na minha conta, encomendei  buffet, lembrancinhas, imprimi texto da música "Andança" para cantarmos junto com nossa professora de canto, como fizemos na década de 60, contratei  fotógrafo. Foi um trabalho louco, mas ao final o resultado foi muito bom. 

Com a minha mudança para Brasília, tentei com o grupo que elas se organizassem para que os encontros continuassem. Tínhamos então um Banco de dados com nome, telefone e email de todas.A cada encontro aliás, eu entregava a cada uma a versão impressa do Banco de dados, para que elas mantivessem contato. Bastaria que alguém assumisse, mas isso não aconteceu. As amigas se encontram nos pequenos grupos, mas um grande encontro não acontece desde 2006.

A boa notícia é a criação do grupo de Ex Alunas das Mercês no Face. Um grupo maior, não só da minha turma mas de diversas pessoas que passaram pela escola. Acredito nesta idéia. Temos tantas boas histórias, tantas lembranças legais. Vamos tirá-las das gavetas!


Nesses encontros e nas conversas que tive com as colegas o sentimento da grande maioria em relação a  ter sido uma "Menina das Mercês" é um só: Saudade. Saudade de uma escola que nos educou e nos trouxe conhecimento, num tempo em que ainda havia espaço para a ingenuidade.
 
Garanto que se receber um convite para participar de um encontro das ex-alunas das Mercês, se for num final de semana, imediatamente, dentro do espírito do meu blog, estarei "De mala pronta!"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Dia dos Namorados



Constantin-Brancusi-O-Beijo-1909
 
Recebi de uma amiga uma mensagem mais ou menos assim: "Que importa se eu passar o Dia dos Namorados sem namorado? Afinal, eu não passo o dia do Índio com um um índio, nem o Dia da Árvore com uma árvore  nem o Dia de Finados com um defunto..." Pode ser, pode ser, faz sentido. Mas que passar o Dia dos Namorados ao lado de um bom namorado é bom demais, isso é.


Comecei cedo a comemorar o Dia dos Namorados. Ainda não tinha quinze anos e junto com as colegas de escola, fazia mil planos para o grande dia. Cada uma de nós sonhava com o bicho de pelúcia que ganharia. Sim, pois para nós, naquela época,  não podia existir presente melhor.  O primeiro bichinho que ganhei era um cachorrinho preto e branco que balançava a cabeça. Não chegou a ser uma surpresa, pois já no primeiro namorado, descobri que se para nós, mulheres,  comprar um presente para o amado é um programa e tanto, para eles pode ser uma verdadeira tortura. Assim, para minha surpresa, meu namorado pediu que eu saísse, escolhesse o presente e avisasse a ele onde comprar. Na mesinha de cabeceira durante todo o tempo que durou a nossa história, e doado depois que o namoro acabou, o cachorrinho foi testemunha de um namoro intenso entre dois librianos. Outros bichinhos vieram, até que um dia comecei a achar que eles ocupavam espaço e juntavam poeira. Talvez tenha sido nesse momento que aprendi a levantar, sacudir a poeira -  não a dos bichos - e dar a volta por cima. Mas vamos em frente.

Tive muitos namorados, e sempre gostei de comemorar as datas importantes. Mesmo quando ouvia o insuportável discurso de "sou contra o consumismo, isso não leva a nada, é invenção do comércio e outras desculpas mais, não me abalava. Sou uma lady. Assim, ouvia e ao final colocava meu ponto de vista: Não abria mão e ponto. A comemoração acontecia. Num restaurante chique, numa pizzaria , num barzinho ou  em casa curtindo uma comidinha feita com amor, ao som de uma boa música e à  luz de velas, o importante sempre, era comemorar, curtir a sensação de amar e ser amada. Antes que as filas tornassem os restaurantes inviáveis nesse dia, adorava escolher locais especiais para conhecer e jantar de mãos dadas , roupa nova, perfume e maquiagens caprichados, claro. Acho que toda mulher faz isso. Por que? Porque isso nos deixa felizes, ora. Precisa razão maior?

 Já passei Dias dos Namorados inesquecíveis, passei outros assim assim, e vivi um que foi um verdadeiro filme de terror. O que determina a qualidade do dia, para mim, é a qualidade da relação. Não adianta fazer festa com o coração apertado, a dúvida machucando, a insegurança gelando a alma.

Este ano passarei a data sem namorado. Decidi então reunir algumas amigas na mesma situação para juntas comemorarmos a amizade. Abrirei mais uma vez os salões da minha quitinete para um almoço. Cozinharemos, assistiremos a um filme, riremos muito e a vida com certeza seguirá seu curso. Ainda pretendo passar outros Dias dos Namorados bem acompanhada. Não, não sonho mais com um príncipe encantado e dispenso os bichinhos de pelúcia.  O que quero é acordar no dia 13 com o coração ainda em festa e a certeza de que estou vivendo uma boa história.

domingo, 22 de maio de 2011

Paixão não resolvida

Vou começar assim: Sou louca por gatos.
Como moro sozinha, em um espaço pequeno, e ainda por cima trabalho o dia inteiro e ainda viajo, ter um gato seria complicado. Mas minha paixão por eles está em toda parte, seja na minha conversa, seja na decoração da casa, seja nos acessórios com motivos felinos que encontro por aí e acabo comprando Além disso, os amigos que sabem da minha paixão acabam me presenteando com objetos onde os gatos são o tema. Eu adoro!
Claro que na infância tive gatos, três, para ser mais exata. Desde cedo descobri que os gatos, ao contrário dos cães, não se esforçam para nos agradar. Na verdade é o oposto que acontece. Independentes, donos de personalidades fortes, mas carinhosos e surpreendentes,  para os gatos nós é que somos propriedades deles. Longe de me aborrecer, esse aspecto da personalidade felina só me faz admirá-los ainda mais.  Sou daquele tipo que não pode ver um gato, principalmente se estou com uma câmara na mão. Afinal, pode haver maior encanto, maior elegância e charme num único modelo? Assim, nas minhas fotos de viagem sempre tem um gato. Gatos italianos, alemães, uruguaios, argentinos e mineiros fazem parte de meu acervo fotográfico.
Tem gente que quando entra numa casa onde há um gato, demonstra logo o desconforto. Eu não. Enquanto não coloco o dito cujo no colo , não sossego. Aí é um tal de psiuuiu pra lá, psiuuiu pra cá.... Um verdadeiro derramamento de paixão explícita. A hora de ir embora é um suplício, para mim, claro. Talvez para o gato seja um alívio, ver-se livre de tanta pegação. Já protagonizei cenas ridículas, pois existem gatos que não querem saber de estranhos. E aí lá vou eu, não importa com que traje esteja, suplicar, implorar por alguma atenção, mínima que seja, da tal imponente criatura.
Minha paixão pelos gatos me levou a ler sobre o tema. Descobri sites e blogs, além é claro, dos livros. Um verdadeiro deleite é Os Gatos, de Sonia Hirsh. Olha um trechinho aqui:

Dentro adoram, pode ser gaveta, armário, cesta, saco de compras e principalmente caixa de papelão; dentro redondo, então, é irresistível, mesmo que seja pirex ou embalagem de sushi
fora para tomar sol, paquerar passarinho, sentir o vento passar no nariz trazendo histórias nos cheiros
em cima dos guarda-roupas, das prateleiras de louça, da televisão com o rabo bem no meio da tela, do monitor do micro, dos livros ou do jornal que a gente está lendo: dormem e fazem charme
embaixo de cama, poltrona, sofá, colcha, tapete, para dar o bote quando a gente passa; e do lençol, quando a gente quer arrumar a cama
junto conosco na cozinha em qualquer circunstância
longe do aspirador, do liquidificador, de qualquer coisa que faça barulho e do veterinário, que também termina em dor
perto de parapeitos, beirais, janelas e outros lugares que deixam a gente de coração na mão
de papo pro ar, quando faz calor, patinhas largadas ao léu
na gente de noite, quando faz frio: por cima e por baixo das cobertas, no meio das pernas, no meio das costas, em cima da barriga, do lado do corpo, ninguém consegue mais se mexer: humanos cercados de gatos por todos os lados
tomando banho em grupo, todo mundo lambendo todo mundo, com muita saliva, muito som, as orelhinhas ficam encharcadas
no chuveiro vendo aquelas milhares de coisinhas brilhantes (1) se mexerem (2) fazendo barulho (3): três coisas que gato ama
no bidê bebendo água corrente com a língua a mil por hora
em cima da cristaleira paquerando a mesa do almoço, de barriguinha cheia e morrendo de sono, mas Quem sabe tem uma coisinha ali pra mim?
mordendo as perninhas traseiras da gata: o gato, quando quer que ela desocupe o lugar
correndo a mil pela casa, Tom e Jerry ao vivo e a cores, e ai dos vasos
comendo com os olhos os pombos que passeiam displicentemente debaixo do nariz deles pelo lado de fora da rede
caçando passarinhos no oitavo andar, vitória que só um gato muito contemplativo, calmo, concentrado e sortudo como Bigode consegue obter sem despencar lá embaixo
fascinados por baratas: uma delas rende duas horas e meia para três gatos. O jogo é uma espécie de futebol em que a bola está viva. Termina quando acabam as pernas. Da barata.

Bem, mas  voltando ao assunto, andei tendo umas idéias...

Uma colega de trabalho que tem,  não lembro mais se três ou quatro gatos, me falou de uma ONG que promove a defesa e a proteção dos animais. Todo o trabalho é voluntário: os membros da Diretoria e do Conselho Deliberativo, assim como os sócios que prestam serviços, não recebem qualquer remuneração. A ONG sobrevive graças aos recursos financeiros provenientes das doações de colaborações, das contribuições mensais ou anuais dos sócios e da venda de produtos (camisetas, bonés, adesivos) em feiras e eventos. A renda obtida é totalmente revertida para fins da entidade. Contam ainda com a valiosa e essencial colaboração/parceria de médicos veterinários. Essa ONG promove todos os finais de semana Feiras de Adoção, onde podemos ver cães e gatos esperando serem escolhidos por famílias amorosas que os acolham proporcionando todas as condições que os animais precisam para viverem saudáveis, seguros e felizes.
Estive numa dessas Feiras há uma semana. Confesso que foi muito difícil sair de lá sem um bichinho, ainda mais, em se tratando desses, cujas fotos ilustram esse post. Animais lindos, bem cuidados e só esperando uma chance de serem adotados.  Pois é, o coração apertou, ainda mais quando carreguei uma gatinha preta que cabia na palma de minha mão e ela se aconchegou no meu colo, fazendo aquele barulhinho gostoso que parecia um motor de popa de um barquinho.
Fiz minha doação (areia e ração) e dei meus dados me oferecendo como voluntária. Segundo as organizadoras me disseram, o simples fato de ir na Instituição dar carinho e atenção é uma grande ajuda. Quem sabe eu consiga ir lá aos sábados?
Quem gosta de animais pode ajudar de todas essas formas que citei acima. Toda ajuda é bem vinda! Para saber mais sobre a ONG é só acessar:

http://www.shb.org.br/


sábado, 7 de maio de 2011

Dona Amenaide




De vida são oitenta e dois,
de altura, um e meio.
De alegria, toneladas.
Confusões foram centenas.
O coração só perdoa.
O  pique eu não acompanho.
Se no papel ela é primária,
na vida é especialista.
As lições já foram tantas.
Ser sua filha é presente do céu.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A princesinha come-come

(Para os queridos colegas da Dipes/Diage)

Num reino distante, vivia uma linda princesinha. Ela era doce, alegre e seus cabelos formavam lindos cachinhos dourados. Ela se parecia com as outras princesas em muitos aspectos. Mas tinha um, que era diferente.
Enquanto as outras princesas gostavam de passear pelo bosque, colher flores, bordar e tocar harpa, a nossa princesa gostava de uma coisa: comer. E muito. Grandes pratos de comida, sanduíches estratosféricos, sorvetes e Milk shakes duplos. Por causa disso, sem que ela soubesse, seus súditos a chamavam de “princesinha come-come”.
Num dia em que todos no castelo se preparavam para uma grande festa, a princesinha acordou atrasada. Quando chegou à cozinha não havia mais ninguém e o que é pior, ela não encontrou nada para comer.
A princesinha ficou preocupada: como iria fazer para conseguir comida? Já sei, pensou ela, vou ter que pedir ajuda e se dirigiu para o grande salão.
Antes de chegar ao salão ela encontrou um nobre fidalgo. Ele era uma pessoa querida por todos e sempre estava pronto para ajudar.
- Fidalgo! Fidalgo! Por favor, me ajude! Estou com fome e não sei onde encontrar comida!
O fidalgo olhou para a princesa e ficou pensativo.
- Alteza, eu adoraria ajudar, mas... É que estamos organizando esta grande festa e todo o orçamento está sob minha responsabilidade. Neste castelo ninguém gasta nem uma moeda de ouro sem me consultar, disse ele, com uma pontinha de orgulho.
- Mas fidalgo, estou com fome! Gritou a princesa. Por favor, me ajude.
- Nobre senhorita, comprometo-me a ajudar assim que me reunir com os cavaleiros, afinal, estou também organizando uma competição... e foi saindo.
A princesa saiu desanimada. Sua fome só aumentava. Comida, comida, comida, comida, pensava distraída quando esbarrou numa das damas do castelo.
- Nobre dama, que bom encontrá-la! Preciso de... começou a princesa. Só então ela notou que havia algo diferente com a dama. Ela usava vários agasalhos, um gorro, cachecol, grossas meias e luvas, apesar do lindo dia de sol que estava fazendo. A dama parecia estar com muita pressa:
- Princesa, perdoe-me, estou com muita pressa, preciso me enrolar nos meus cobertores, falou a dama, aflita.
- A senhora está com frio? Por acaso está doente? Perguntou a princesa.
- Não, princesa. Mas é que com o frio que está fazendo, com certeza em breve vai nevar. Sua Alteza deveria procurar o Visconde, disse a dama enquanto se afastava rapidamente.
Ah! O Visconde era uma das pessoas mais queridas do castelo. Estava sempre sorrindo, mostrando suas lindas covinhas no rosto. A princesa foi correndo ao seu encontro:
- Senhor Visconde, senhor Visconde!
- Linda princesa, em que posso ajudá-la?
- Comida, comida, comida, comida... repetia a princesa sem parar.
- Hum, deixe-me ver. Disse o fidalgo. Estou preparando a divulgação desta festa. Desenhei alguns cartazes, pensei também em fazer uma filmagem...Será que poderia divulgar também este fato, a sua fome?
- Como? Eu preciso é de comida e não de divulgação, disse a princesa.
- Mas a fome é em si um fato relevante, insistiu o Visconde, poderíamos desenhar uma enorme boca....Afinal, numa comunicação eficaz precisamos...O Visconde nem percebeu que a princesa foi saindo de fininho...
Que fazer? A princesa decidiu descer para o pátio, com certeza lá encontraria alguém para ajudá-la. Nem bem chegou ao pátio e se deparou com sua tia, que carregava uma mala redonda, destas de carregar chapéus.
- Tia, tia, me ajude, por favor. Estou sem comer até agora, e não sei onde conseguir comida.
Sua tia, que era muito bondosa, lhe deu um abraço e disse:
- Minha querida, infelizmente hoje não posso ajudar. Eu já tinha marcado esta viagem, e, como você pode ver, estou de mala pronta. Por que você não procura ajuda com o Conde?
Boa idéia! O conde era conhecido como uma pessoa muito boa, com certeza ele iria ajudá-la. Foi em busca do conde, e encontrou-o às voltas com os escudos e armaduras da cavalaria. Ela expôs a ele seu problema. O conde suspirou:
- Então. Por acaso Sua Alteza planejou acordar tarde e sentir fome a esta hora?
- Claro que não! Respondeu a princesa confusa.
- Este é o problema deste castelo! Ninguém planeja nada! Onde já se viu? Tinha que planejar! Agora quer que eu consiga comida! Assim não dá! Veja meu problema: chamaram cavaleiros demais e agora não tem armadura para todos. Ninguém planejou, não planejam. Como é que eu vou dar jeito agora?
A princesa desistiu e foi saindo de fininho. A condessa que vinha chegando, veio ao seu encontro:
- Princesa, ouvi sua conversa com o conde. Posso ajudá-la?
- Viva! Viva! Gritou a princesa, já imaginando as deliciosas iguarias que iria saborear.
- Vamos ver se entendi, disse a condessa. Você acordou tarde.
- Sim, sim, disse a princesa.
- Foi até a cozinha e não achou comida.
- Isso, isso, isso, disse a princesa empolgada.
- E não havia ninguém para ajudá-la.
- Certo! Gritou a princesa.
- Então, se é assim, “we have a situation”, disse a condessa. Posso ajudá-la.
- Oba, oba, oba!
- Estou chegando da vila, tenho aqui comigo um delicioso chá de asas de dragão, bifes de serpentes e pão preto.
- Eu quero Cheeseggburger, sanduíche de bacon, brigadeiro, Milk shake, pizza, sorvete!
- Mas Sua alteza precisa cuidar da sua qualidade de vida... Começou a condessa
Não gosto de nada disso! E saiu correndo pelos jardins.
A princesa correu, correu, correu até que ouviu que alguém a chamava.
Olhou para trás e percebeu que embaixo de uma árvore estava um grupo de damas reunidas. E o que era melhor: Estavam fazendo um picnic. Entre elas, estavam algumas de suas primas.
Uma delas, a que a chamara, perguntou:
- Aonde vai com tanta pressa?
A princesa contou sua história e sua prima a tranquilizou.
- Fique conosco: temos pão, queijo, frutas, mel, bolos e doces.
A princesa não pensou duas vezes: serviu-se de pão com queijo ao mesmo tempo em que enchia a mão de uvas verdinhas, deliciosas.
Sua prima, que aproveitava para brincar com sua linda filhinha, ria da princesa:
_ Cuidado, não vá se engasgar.
Outra prima sorriu para ela:
_ Só agora fiquei livre. Sabe como sou, eu que cuido das audiências do rei, e enquanto elas não acabam não tenho descanso.
A outra prima respondeu:
_ Sempre nos encontramos quando temos uma folga e fazemos este picnic. Você sempre será bem vinda.
A princesinha sorriu feliz, limpando as bochechas sujas de bolo e mel. Passaram o resto da tarde juntas, até a hora em que todas foram se preparar para a grande festa da noite. Para a felicidade da princesa, a mesa estava farta e cheia das coisas que ela mais gostava. Foi uma noite muito feliz!









quinta-feira, 21 de abril de 2011

Mãe, só tem uma!

Durante estas férias relaxantes, recebi a visita de minha mãe. Mãe é mãe, claro, mas a minha foge um pouco ao padrão convencional. Oitenta e dois anos, muitíssimo disposta e alegre, estar com ela sempre é divertido. Nessa sua segunda visita, ela gostou ainda mais de Brasília. Como minha micro casa está bem organizadinha agora, nós pudemos também curtir estar em casa e relaxar. Foram só cinco dias, mas o suficiente para recarregar minhas energias de filha.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Quatro anos em Brasília

conjuncoesdavida.blogspot.com
Tentei começar de outra forma, mas não tem jeito, tem que ser assim: Parece que foi ontem e parece mesmo.
No dia 27 de Abril de 2007 acordei ansiosa. Afinal, mesmo tendo uma convivência de 15 anos com a cidade e grandes e queridos amigos aqui, uma coisa é viagem a serviço e outra coisa, bem diferente é se mudar com mala e sonhos.
Para evitar choro, não aceitei nenhum dos bondosos oferecimentos para me levar ao aeroporto. Queria que minha nova vida tivesse início com o som da batida da porta do táxi. Meus pais, imagino com que esforço, desceram comigo no elevador e ficaram ali, obedientes e quietinhos por trás das grades do prédio. O motorista acelerou e meus pensamentos voaram.
A decisão de mudar para Brasília veio após muita reflexão. Minha vida precisava de mudanças. Eu era feliz em Salvador mas minha vida era extremamente previsível. Eu estava insatisfeita pessoal e profissionalmente. Então, num domingo qualquer, numa dessas tardes de ruas calmas, andando por uma praça em Salvador, senti uma angústia forte e dentro  de mim uma voz falou: Preciso de uma nova vida. Aí, comecei o processo de construção.
Mas voltando ao dia 27 de Abril, no aeroporto tive a surpresa de encontrar duas amigas queridas que não se conformaram e foram se despedir de mim: Mamy e Ivone. Tomamos café e demos boas risadas. Recebi também um abraço da mãe de Carlos Alberto que levou uma encomenda para que eu entregasse a ele, já que aqui em Brasília ele, meu amigo há quase trinta anos, estaria me esperando como sempre. Isso, era o que eu achava.
Chegando ao aeroporto da cidade por mim escolhida para a minha nova vida, pego as malas e me encaminho para a saída. Jamais poderia imaginar o que me esperava.
Após chegar ao saguão, percebo que ao invés de um amigo, havia uma comitiva: Carlos, Humberto, Soraya e Regina. Que surpresa boa! Carlos, bancando o fotógrafo, tira, de forma bem teatral várias fotos da minha chegada. Depois, me entrega uma peruca azul garimpada creio eu, em alguma performance teatral. As meninas me entregam um belo buquê de girassóis, minhas flores preferidas. Imediatamente coloquei a peruca. Precisa dizer alguma coisa sobre as caras de espanto das pessoas em volta?
Depois dos beijos e abraços, Carlos Alberto como de vez em quando dizia, nos chamou: Vamos pegar a limousine. Esta era a forma como ele se referia a vários carros que já teve. Fomos saindo e quando de repente, na calçada... Havia uma limousine! Eu não podia acreditar, uma limousine com motorista e tudo. O motorista aliás, gentilíssimo, estava do lado de fora com a porta aberta nos aguardando. Dentro do carro, que parecia mais um salão de festa, cidra e taças para brindar a minha chegada. O motorista havia na véspera conduzido a Miss Brasil num tour por Brasília e eu estava ganhando de presente dos meus maravilhosos amigos o mesmo tour de presente.
E que tour era esse? Ora, passeio por Brasília e seus pontos turísticos com direito a parada para fotos. Foi hilário. A cada parada, descíamos todos,  ante o espanto dos moradores e demais turistas. Que celebridades eram aquelas, passeando de Brasília a bordo de uma limousine? Na parada na Ponte JK então, foi um frisson. Esqueci de contar, que para dar um toque ainda mais irreverente, no DVD do carro, um show de ... Reginaldo Rossi, cantor que sempre animava nossas festas em Salvador quando queríamos dar um toque brega. Nem isso faltou.

Rodamos, rodamos, rodamos. Depois fomos devolver a limousine e procurar algum lugar para comer. Nossa noite acabou em pizza. Por mais que tentasse, nunca poderia agradecer o suficinte  a forma carinhosa e surpreendente com que fui recebida. Sabendo que era um dia muito especial, meus amigos inovaram na recepção, que foi alegre e descontraída.
Ter tido tão calorosa recepção certamente influenciou a minha chegada. Nos dias que se seguiram tive uma adaptação fácil, sem estranhamentos. Gosto de morar aqui. Gosto do silêncio da cidade, da programação cultural, de andar no Parque, do lugar onde moro. Tinha alguns amigos aqui e fiz novos, vivi histórias, me reinventei. Aqui também decidi escrever as crônicas, criei o blog, voltei a dirigir. Conheci grupos, participei de várias atividades onde conheci pessoas novas. Profissionalmente, nestes quatro anos fiz trabalhos novos e desafiantes,  aproveitei todas as oportunidades que surgiram e aproveitarei as que ainda virão. Estou feliz.
Sou muito grata a todas as pessoas com quem convivo e que de certa forma constituem a minha família em Brasília. Em relação a isso, no filme Sob o sol da Toscana, há um momento em que a protagonista percebe que uma família não precisa ser formada por pessoas unidas por laços de sangue. Numa bela cena, estão reunidas numa mesa pessoas de origens distintas e que acabaram formando uma família.  Aqui, assim como no filme, tenho amigos de diferentes procedências e nos reunimos sempre. Estar sozinha aqui é um fato, mas em nenhum momento me sinto solitária. Não acho as pessoas de Brasília diferentes das demais, nem tive qualquer problema de adaptação. Esta cidade, com seus grandes espaços, linhas retas e algumas curvas, definitivamente me conquistou.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Viagem poética ao Uruguai

Desde que decidi que iria nas férias ao Uruguai, recebi muitas dicas. As percepções, no entanto, eram díspares. Uma amiga, ao saber que começaria meu roteiro em Montevidéu, perguntou curiosa: Mas onde fica isso mesmo? Já um amigo que esteve lá recentemente foi taxativo: Tudo bem, mas lá não tem nada. No entanto, fiquei totalmente contagiada pelo entusiasmo de uma colega, que se transforma ao falar da capital uruguaia. Chega a dizer que, se possível fosse, moraria lá depois de aposentada. Juntando tudo isso ao fato de ser um país que eu ainda não conhecia e mais uma promoção imperdível da Gol, arrumei a mala, dessa vez me superando: uma calça jeans no corpo e mais uma, camisetas, um casaco e várias echarpes. Chega uma hora que dá uma preguiça carregar coisas que você não vai usar e a esta altura da vida e tantas viagens depois, já tenho uma noção clara do que é preciso para passar cinco dias em um lugar.

Tudo pronto, eis que a poesia começa a entrar na história. Ao anunciar minha intenção no Facebook, meu amigo Izó me presenteia com uma poesia de um autor uruguaio que virou música de Milton Nascimento: Guardanapos de Papel. Ouvi-la me deu uma sensação boa de afeto, de simpatia por um lugar que ainda não conhecia. Cantei e assobiei a canção em vários momentos durante a viagem. Clique e se deixe levar...
http://mais.uol.com.br/view/152113
Sim, mas o que achei do Uruguai? Bem, gostei muito. País pequeno, organizado, tranquilo. Montevidéu tem ruas arborizadas, ótimas para caminhadas. Pena que muitas das pessoas que encontrei passem o tempo repetindo como numa gravação Buenos Aires é maior, Buenos Aires tem mais opções... É uma pena, mas em minha opinião, o Uruguai merece uma visita de todos aqueles que tenham olhos para apreciá-lo.


Além da capital, visitei também Colonia do Sacramento, a cidade mais antiga do Uruguai,  fundada pelo português Dom Manuel Lobo para fazer frente aos espanhóis que então dominavam Buenos Aires. Por sua localização estratégica, foi um dos principais alvos das batalhas protagonizadas por Portugal e Espanha ao longo do século 17, quando disputavam a divisão das terras do Novo Mundo.
Após diversos conflitos pela posse do local, finalmente um acordo foi firmado em 1750, no qual Portugal entregava a disputada Colônia para a Espanha. Mesmo assim, missionários jesuítas discordaram do pacto, permanecendo ali até 1762, quando os espanhóis enfim tomaram o lugar. A arquitetura colonial que restou caracteriza uma fisionomia distinta e única no país: ruas estreitas de pedra iluminadas por antigos lampiões, casas cobertas com telhas de barro e decoradas com tradicionais azulejos lusitanos. Localizada a 180 Km de Montevidéu e a 50 Km de Buenos Aires, Colônia - como é simplesmente conhecida - é uma das mais importantes portas do Uruguai. Com o lema "Ia puerta está siempre abierta, entre sin fiama?' ("a porta está sempre aberta, entre sem bater"), esta pequena cidade de 20 mil habitantes recebe milhares de turistas de todas as partes do mundo. Foi declarada Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade. Outro detalhe: todos os turistas que visitam Buenos Aires reservam um dia para um passeio de Barco a Colônia, pela facilidade de acesso.

Já em  Punta Del Leste, fiquei pasma com as mansões e preços praticados lá. Mas o que me fascinou mesmo foi a visita ao Casapueblo, antiga casa de verão do artista uruguaio Carlos Páez Vilaró e é agora uma cidadela-escultura que inclui um museu, uma galeria de arte e um hotel chamado Hotel Casapueblo que fica dentro da estrutura. Ele está localizado em Punta Ballena, próximo de Punta Del Este. Um dos filhos do artista, Carlos Miguel, foi um dos dezesseis uruguaios sobreviventes do acidente aéreo da Força Aérea Uruguaia Vôo 571 que caiu nos Andes em 13 de outubro de 1972.
Outra curiosidade é saber a origem dos versos  Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada de Vinicius de Moraes. Amigo de Vilaró,Vinicius passou uns tempos na Casapueblo. A tal da casa, na trova improvisada pelo poetinha numa manhã diante do mar para as filhas do artista, dizia no contexto: Mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró.



 
Andei pelas ruazinhas de Colonia num dia de sol e muita calma. No último dia de minha viagem, conta fechada no hotel, saio para dar uma voltinha de despedida. Mentalmente ia cantarolando a música de Mílton, grata por mais uma viagem onde tudo deu certo. Então de repente a fachada de um restaurante me chama a atenção. Chego mais perto, e descubro que no vidro está escrito...um poema! E que poema.
O poema, dedicado ao poeta Mario Benedetti, fala da necessidade de parar, deixando por um momento nossas obrigações do cotidiano e então, olhar para si mesmo, lembrar do passado sem remorso, valorizando aquilo que de fato foi importante. Entrei no restaurante encantada. Afinal não é todo dia que se encontra um poema estampado numa vitrine. Minha viagem estava se encerrando da forma como começou, poética.
Lá dentro, ganhei de uma senhora que atendia no balcão dois cartões com poesias de Mario Benedetti. Poeta e escritor uruguaio, ele escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. Dos dois poemas que recebi, destaco Cuando éramos niños, pela sabedoria que encerra e por me fazer sair desse pequeno país envolta numa nuvem de poesia e paz.

Cuando éramos niños

los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.

luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era un océano
la muerte solamente
una palabra

ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en los cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.

ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.



Aeroporto, mala despachada, sinto que falta alguma coisa. Depois do café forte com uma barra de chocolate amargo, busco na bolsa uma caneta. Agora sim, levanto da mesa deixando para trás meu agradecimento bem no estilo uruguaio. Fim.






sexta-feira, 25 de março de 2011

Carnaval em Minas

Passei meu Carnaval em Minas, circulando entre Tiradentes, São João Del Rey e BH. Mesmo com uma chuva que não tirou o bloco da rua em quase nenhum momento, eu me diverti bastante. Fui sozinha e pude então seguir meu ritmo, curtir as cidades e conversar muito com as pessoas, coisa que adoro. Apaixonada que sou pelo artesanato mineiro, consegui garimpar coisas muito interessantes, principalmente bordados, meu ponto fraco.

Eu havia visitado Tiradentes há alguns anos, em outro momento da minha vida. Lembro que estava a caminho das cidades históricas e em Tiradentes permanecemos apenas algumas horas, o suficiente para me deixar encantada. Desde então, acalentava o sonho de voltar com calma e andar sem pressa, a pé ou de Maria Fumaça. Decidi então vir passar o Carnaval.


Já faz algum tempo que não sei o que é viajar para lugares lotados, com gente por toda parte. Mesmo sabendo que seria o caso, resolvi vir assim mesmo e não me arrependi. Tudo bem, rodoviária lotada, gente por toda parte, engarrafamentos, mas se " a alma não é pequena", tudo acaba valendo a pena.

As cidades são bem conservadas, relativamente tranquilas, com um astral muito gostoso. Era examente isso que eu estava procurando, uma mistura de descanso e novidades. Visitei uma comunidade chamada "Bichinho", onde se encontra uma vila de artesãos que vendem seus trabalhos por um preço mais em conta. Encontrei lá uma artesã cujos trabalhos eu já havia comprado em São Paulo e Brasília. São casinhas de madeira que reproduzem todo tipo de estabelecimento. Foi muito legal conhecer alguém cujo trabalho adorna minha casa e saber toda a história da criação das casinhas.


Sobre a culinária mineira, geralmente procuro evitar os pratos da linha "Artérias em pânico", e provando aqui e ali, descobri um prato delicioso: O Ora-pro-nóbis. Na verdade, já tinha ouvido falar nesse prato pela amiga Ju, que é mineira, claro. Só que geralmente ele vem acompanhado de frango e eu pedi puro, quer dizer, as folhas, simplesmente temperadas e cozidas. Que sabor! É uma planta rica em proteínas que apresenta folhas suculentas e comestíveis e tem flores lindas que duram apenas um dia. Tem 25,4% de proteína; vitaminas A, B e C; minerais como cálcio, fósforo e ferro. Passa ao alimento bela cor verde inclusive em pão e macarrão, enriquece saladas, refogados, sopas, omeletes, tortas e o arroz-com-feijão. Descobri tudo isso na rede e procurei a receita para quem quiser se aventurar:
Frango com Ora-Pro-Nóbis
Ingredientes:
2 1/2 kg de frango picado
6 dentes alho amassados
1 colher (sopa) de colorau
1 xícara óleo de soja
2 xícaras de caldo de galinha
2 maços ora-pro-nóbis (sem talo)
Sal
Preparo:
Lave bem o frango com limão.
Coloque o alho e óleo em uma panela e junte o colorau.
Refogue o frango até prefritar. Cubra com água até cozinhar bem.
Misture o ora-pro-nóbis, tampe a panela por cinco minutos sem mexer.
Sirva com arroz e angu. Rende 08 porções

Além disso, pude tirar fotos com roupas de época, coisa que já fiz e queria muito fazer de novo. Desta vez, na estação de São João, andando entre trens e vagões. Até fiz uma produção em homenagem ao blog, com mala e tudo. Gostei demais. Resumindo, valeu!

Sentimento uruguaio

Recebi de um amigo querido, ao saber que estou de mala pronta para Montevidéu. Criada por um uruguaio, Leo Masliah, sob título “Birromes y servilletas”,essa canção foi vertida para o português pelo carioca Carlos Sandroni, com o nome “Guardanapos de papel”, quase uma tradução literal da letra original.
Tem uma versão musicada de Milton também: http://mais.uol.com.br/view/152113

Sem dúvida, lindo fundo musical para meus passeios na próxima semana.


Biromes Y Servilletas

En Montevideo hay poetas, poetas, poetas
Que si bombos ni trompetas, trompetas, trompetas
...Van saliendo de recónditos altillos, altillos, Altillos
De paredes de silencios, de redonda con puntillo
(..)
Andan por las calles escribiendo, y viendo y viendo
Lo que vem lo van diciendo y siendo y siendo
Ellos poetas a la vez que se pasean, pasean, pasean
Van contando lo que vem y lo que no, lo fantesean
(..)
Miran para el cielo los poetas, poetas, poetas
Como si fueran saetas, saetas, saetas
Arrojadas al espacio que un rodeo, rodeo, rodeo
Hiciera regresar para clavarlas en Montevideo

Almoços de Domingo

  Feijão, arroz, galinha assada. Feijão, arroz, carne de porco assada. Aos domingos era ou um, ou outro. Sempre. Mesmo sendo uma família...