terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A visita

Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?

Renato Russo em Pais e filhos

O cheiro da comida e o volume alto do rádio dominam o ambiente. Na pequena cozinha branca e azul, esfomeadas, recém chegadas da escola e ainda de uniforme, minha irmã e eu olhávamos fixamente para os pratos: omelete de carne moída, arroz branco, farofa, feijão e salada de alface com tomate. Como qualquer criança, tudo que nós queríamos era avançar sobre eles. Impossível. Sem ousar pronunciar uma única palavra, nos entreolhávamos, cientes do limite que nos era imposto.

Ninguém podia se servir antes de meu pai e minha mãe nos observava com rigor. Sentado à mesa, indiferente a nossa fome, meu pai ouvia atento no rádio colocado sobre a geladeira, um programa de futebol. Essa cena era comum na minha infância. Várias vezes ficamos em frente aos pratos do almoço aguardando e ouvindo resenha esportiva, até que enfim, meu pai se decidisse a almoçar. Então, minha mãe o servia primeiro para só então termos a autorização para comer. Quantos anos se passaram? Quarenta? Quarenta e cinco anos?

Aguardo o sinal fechar para que possamos atravessar a rua e então dou o braço a meu pai. O homem que se apóia no meu braço lembra aquele cujo simples olhar era suficiente para nos fazer estremecer. Mas hoje, seu olhar é outro. Seus olhos agora vagueiam de um ponto a outro, sem fixar-se em nada. Atravessamos o Eixo Monumental, nessa cidade cujas ruas não têm nome. Do alto da Torre de TV, mostro a ele os pontos turísticos: Esplanada dos Ministérios, Congresso Nacional e Senado, cenários que meu pai viu nascer, transmitidos numa tv preto e branco. Ele me olha enquanto eu arrisco uma explicação. Sobre nós, o lindo céu de Brasília sem uma nuvem sequer. Percebo que meu pai não me ouve. Tento afastar um pensamento: Por que precisamos esperar tanto tempo?

Passei a adolescência tentando agradar a meu pai. Mesmo morando na mesma casa, nossos contatos, na maioria das vezes, eram motivados pela cobrança e preocupação com as notas e o comportamento. Existia entre meu pai e suas filhas uma distância não só respeitosa, mas de temor. Os raros momentos em que saíamos só nós dois, era quando, eventualmente, meu pai levava o carro para a oficina aos sábados pela manhã. Como não havia meninos em casa, quem o acompanhava nesses programas era eu. Enquanto ele aguardava, eu corria para lá e para cá entre peças e pneus. O melhor vinha depois: o almoço no Mercado Modelo. Lembro do cheiro maravilhoso que saía das panelas fumegantes. Meu pai me permitia comer o que quisesse, escolhendo diretamente nos fogões onde repousavam as iguarias, preparadas e servidas pelas baianas: caruru, vatapá, moqueca de peixe. O som do berimbau embalava a capoeira e eu, almoçando sozinha com meu pai, me sentia a mais feliz das criaturas.

Agora no restaurante, faço o prato de meu pai. Verdurinhas cozidas, comida pastosa, pois ele alega dificuldade para mastigar. Esta mão que o serve seria minha ou de minha mãe? Observo como o destino nos prega peças. Aos oitenta e oito anos, meu pai fez sua primeira viagem de avião. Mesmo após três anos morando em outra cidade, nunca imaginei receber a sua visita. Não foi a viagem que sonhei na minha infância e adolescência, mas foi a que ele quis. Como sempre, aliás.

Na fila para pesar meu prato, me volta a cena da compra do primeiro carro da família, um fusca vermelho placa 3049. Foi um acontecimento. De vestidos rodados e laços no cabelo, eu e minha irmã entramos no carro para um passeio até o Farol da Barra. Respiro fundo e sinto o cheiro do carro novo, revejo seu estofamento bege. O momento era solene e minha mãe diz: “Seu pai está dirigindo, não pode falar!”. Lembro da nossa empolgação e agora, ajeitando o cinto de segurança em torno de meu pai, sinto saudade daquele carrinho vermelho apelidado por nós de “Tartaruguinha”.

Durante a viagem, meu pai alternou passeio e descanso. Nas horas em que com ele estive, fiquei feliz com a experiência inédita de cuidar de alguém. Por diversas vezes partiu dele a iniciativa de buscar meu braço para andar. Percebi que a ação do tempo transformou meu pai em um homem mais magro, menor, distante como se já fizesse contato com os anjos. O passeio chega ao fim. Ao nos despedirmos, percebo sua emoção. Sinto meu coração apertado, as lágrimas me vêm aos olhos e faço força para não chorar. Hoje tenho clareza que meu pai não poderia me dar aquilo que jamais teve. Mas sei também que muito do que sou, a ele eu devo. Observo que assim como a “tartaruguinha”, meu pai não teve pressa para envelhecer. Decido ser uma filha melhor no futuro. Futuro que para meu pai, é hoje.



16 comentários:

  1. Fiquei emocionada... e também voltei muito no tempo, lembrando do feijão de tia Amenaide, delicioso, das vezes em que ia a sua casa, das brincadeiras... lembra do Boko-Moko??
    Mais uma vez, obrigada por me fazer tão bem com suas histórias! Vou aguardar a próxima, ansiosa!! Bjs

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  2. Vânia,
    Lendo seu mais um belo texto seu, que transborda sensibilidade, agora sobre figura paterna, lembrei de um poema que Antônio Cícero dedicou ao pai dele, e da cantora Marina Lima, :

    "Eu vi o rei passar
    um rei assim,
    não ouve muito bem
    e adora a luz,
    sem ver ninguém
    prefere olhar o horizonte, o céu,
    longe daqui é tudo seu
    seu sangue azul
    ninguém diz de onde vem,
    de que sertão, que mar, que além,
    e para nós ele jamais se abriu,
    senão uma vez,
    quando partiu.
    Um rei assim cultiva a solidão
    sombria flor no coração,
    e claro é que o pêndulo do amor
    às vezes vai até a dor.
    Devo dizer que não sofri demais,
    devo dizer que acordei,
    mesmo sem ser tudo que imaginei
    devo dizer que o amei."

    Abraços,

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  3. Essa tem transcendência. Me faz lembrar meu pai, minha infância, e sempre que a leio fico saudosa e comovida.

    Beijos, querida

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  4. Nossa Vania, lindo texto! Me emocionei... Tambem estou morando longe do meu pai, da minha familia... Muita saudade deles!
    Não sabia do blog, agora vou entrar com maior freqüência! Parabéns pela iniciativa de publicar seus textos.
    Bjos

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  5. Que forte, sincero, profundo e comovente esse texto, Vânia! Acabei chorando!
    Perdi meu pai há 10 anos (Na época ele ia completar 90), mas era isso mesmo. Hoje tenho minha mãe (Que este ano se Deus quiser ela completará 90), lúcida, mas com o corpo frágil- exatamente como você descreveu sobre seu pai - e cheia de temores do abandono mas muito firme no que fala e pensa.
    A vida é isso, por isso temos que aproveitá-la enquanto estamos vivos e ao lado de pessoas que amamos!

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  6. Pra quem já não tem mais um pai, para fazer o prato e segurar pelo braço!
    Pra quem conhece seu pai, e foi testemunha dessa rigidez transformada nos mais macios dos abraços...
    Esse texto é pura emoção e sentimento!
    Lindo minha amiga! Seja sempre essa filha maravilhosa que você tem sido e, com certeza, quando ele partir, haverá só saudade e jamais culpa!
    Abreijos...

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  7. Vânia, que experiência linda... que oportunidade de ter seu pai aqui! Realmente a experiência de passar a cuidar dos nossos pais é marcante, doída, emocionante....! Este é o ciclo da vida, só nos resta viver!

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  8. Lindo texto, Vânia, Lindo!
    Beijos

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  9. Grata! Muito grata por esse presente!
    Você sempre me oportuniza reflexão e crescimento.
    Leio o seu relato após um final de semana em Palmeiras, com o meus pais...
    Muito do que li, eu vivi e senti, e me dei conta que ainda não nos dei a oportunidade da "visita."

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  10. Querida Vania!!!!!!!

    Li e reli sua reflexão sobre a linda e inesperada visita de seu pai.

    Me emocionei muito, pois voce deixou transparecer no texto todo o semtimento de uma filha que ama e compreende a vida como ela é, que compreende e ama esse pai que te deu a vida.
    Me emocionei muito pois "A VISITA" me fez voltar no tempo e tambem refletir sobre o não ter um pai, e para mim era como se não existisse essa figura em minha vida.
    Sou grata por voce ter compartilhado comigo sua historia e sou grata tambem por voce ter me levado a agradecer pela vida que ganhei de prestente deste pai que não conheci e que lembro pouco ou nada.
    Agradeço por este momento em que por meio de sua visita posso encontrar no meu coração a centelha do amor por meu pais e por todos os seres.
    Que a luz Divina sempre ilumine teus caminhos.
    Abraços

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  11. Muito legal!!!!! É isso aí! Aproveite bastante seu pai. Das quatro, você é a única que ainda tem. Um dos motivos da minha pressa em me aposentar é justamente porder ficar mais com minha mãe. Tomara que dê tempo.

    Bjs.

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  12. Vânia querida,

    Você e suas palavras... Suas palavras, cenas, emoções, mundos. Nossas, nossos também.
    Terminei de ler seu texto emocionada e chorando. Saudades do meu pai?... Não sei. Coisa pra pensar.

    Obrigada, mais uma evz.
    Beijo

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  13. Muito lindo seu texto, Vânia! Cheio de amor, carinho...adorei! Para mim esta data é sempre muito especial, mesmo não tendo o meu pai mais aqui ao meu lado. Ele foi, é e sempre será muito especial para mim. Bjus!

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  14. Vânia, que bom que vc pode resgatar lembranças e cuidar do seu pai, curtí-lo de um outro modo! Educação era assim vivenciei isso com meus tios, minha mãe, enfim com o exemplo da minha família. O texto é emociante e eu fiquei com saudades do que não tive... perdi o meu papai aos cinco anos quando ele nos deixou por uma outra família e ao 30, quando ele decidiu nos deixar de vez, partindo para o celestial. Mais uam vez, viajei com vc!
    Ronnie

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  15. Querida Vania,
    Como me emocionei com teu texto! De uma maneira singela, você me fez lembrar de como nossa geração respeitava nossos pais. Com tristeza hoje eu vejo os pais perdendo o respeito de seus filhos, sejam eles bons ou maus pais. Penso que algumas coisas não deveriam mudar tanto.
    Parabéns e que continue sempre inspirada, nos proporcionando bons momentos de leitura. Beijos

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  16. oi Vania
    Adorei o texto, a sensibilidade e o amor.
    Este dia dos pais estive fazendo o prato do meu pai, que era tão grande e forte e hoje, aos 91 anos, menor e mais magro, também olha o horizonte e se afasta ,aos pouquinhos do nosso contato.

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